Com mais freqüência nas frases de final de ano, a palavra felicidade até parece que ganha substância real. Aliás, há quem a suponha entidade que subsista em si e por si mesma, podendo ser conhecida, ou conquistada, ou doada, ou prometida, ou...
Também há quem considere a felicidade uma idéia, um valor, um desejo..., que se relaciona às coisas reais. Portanto, não haveria a felicidade no sentido substantivo real e sim realidades adjetivadas como felizes por causa de certas propriedades afeitas a idéias, valores e desejos. Logo, enfatizando, essas coisas felizes assim o seriam quando derivadas de casos e causos de fato felizes. Com um detalhe importante: a definição do que seja feliz escaparia a toda e qualquer redução conceitual. O contorno da idéia, do valor e do desejo compatível a feliz se ajustaria a tantas quantas formas culturais se pudessem criar.
No contexto de mo(vi)mento de te(n)são da corpoética (... exposto ao longo dessas dezenas de postagens) alguns fatores comparecem na consideração sobre a felicidade. A começar com o reconhecimento que o corpo faz de uma polaridade inescapável: o que quer que seja feliz só o é tendo por diferença efetiva o que é infeliz. Noutros termos, a corporeidade sabe e sente o que é ser feliz porque também sabe e sente o que é ser infeliz. A dialética insolúvel entre essas experiências concretas possibilita alguma abstração sobre o que significa a tal felicidade.
De modo muito mais comum, essa dualidade é encarada pelos corpos como se constituindo por oposição excludente: feliz ou infeliz. Uma coisa ou outra; não ocorrendo uma coexistência jamais.
Um pouco menos comum é a perspectiva corpórea por composição justaposta aditiva: feliz-e-infeliz. Admite-se uma somatória de vivências inseparáveis. Uma coisa acontecendo necessariamente com outra contrária.
Bem restrito é o ponto de vista da corporeidade que equaciona suas linhas como que por reflexo quase puro e simples: feliz/infeliz. A imagem de uma coisa está na representação da outra. Mesmo que polarizadas, não são rigorosamente antitéticas. Tudo se resumindo em posicionamento; ângulo de visada.
De maneira menos usual também essa dupla de pólos é tida pela corpoética como que portadora de uma complexidade completa e complementariamente inclusiva: (in)feliz. Uma coisa está na outra desde a interioridade de ambas. Em lugar do espelho recorre-se a uma mandala. No seu virar e revirar, ser feliz é ser infeliz e vice-versa desde a gênese até a eventual revelação mais exaustiva possível.
E particularmente, ao sabor discutível desse blogueiro e talvez em nome de uma pretensiosa escrita neo-barroca, ainda acho que vale a pena brincar com essa polarização. Nesse jogo literário se trapaceia conceitos e signos. Uma coisa se estranhando noutra. Assim imagino que coisas, casos e causos se entranham melhor, antropofagicamente. Aquilo que significa dentro de uma negatividade (in) fica fora e anterior à chave hermenêutica do real. Nesta se confere como se confina a prevalência da infelicidade do fel parindo a fé como festa feliz, numa piscadela apostrofagada. Na teimosia inventiva vinga a marca da cultura a bolinar – enquanto puder – a imbatível natura. E como excesso beirando abuso se aposta para o âmbito posterior do túnel verbal uma luminosidade que, pronunciada à moda germânica, recupera a fonética da sílaba lusitana no termo do termo em questão: in{fe’l}lüz.
