A propósito de uma apresentação na Semana de Filosofia promovida pelo Centro Acadêmico Immanens (UNIMEP) faço novamente o registro de um tema marcado pela licença poética: metafísica quântica – pessoa em desassossego.
Conforme dediquei essa apresentação aos participantes de um grupo de leitura e escrita filosóficas (GLEF) nos idos 2001-2002, também repito aqui seus nomes: Alessandra, Arary, Cibele, Everton, Flora, Janyne, João, José, Lídia, Lilina, Lúcia, Marcelly, Marco, Mariana, Nelma, Neuza, Nilson, Nilton, Paulo, Rodrigo, Rosana, Sandro, Sebastião e Thiago. Essa lembrança se impõe pela saudade e pelo reconhecimento da importância desse Grupo no estudo que fizemos de algumas passagens do Livro do Desassossego (Fernando Pessoa/Bernardo Soares).
Naquela época o Grupo objetivava caracterizar circunstâncias em que a escrita fora tomada como invenção de sobrevivência na presentidade do personagem Bernardo Soares diante da dúvida de ser. Portanto, a questão metafísica focava o ato de escrever numa situação literária e, por isso mesmo, potencialmente reveladora de uma verdade aquém e além dos limites lógicos.
Conforme alertei ainda, meu interesse nessa apresentação (quinta-feira da semana passada) foi sugerir impressões imprecisas sobre alguns nano-fenômenos da condição humana, expostos desde o intra-atônico Bernardo Soares. Esse ajudante de guardador de livros surgira como alguém a escrever sobre uma sub.stância desassossegada, sobre um viver cotidiano-quântico composto pelo incerto, indeterminado, incompleto, dual, complementar, indizível, fugidio...
E para ilustrar tal metafísica dúbia fecho essa breve postagem citando um fragmento atribuído ao semi-heterônimo de Fernando Pessoa:
Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espetáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
Estas páginas, em que registo com uma clareza que dura para elas, agora mesmo as reli e me interrogo. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro quando sou?
Como alguém que, de muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo, e sou, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa.
É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus. Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.
Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objeto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém. Há, algures, um subterfúgio transcendente, uma divindade fluida e só ouvida.
Releio, sim estas páginas que representam horas pobres, pequenos sossegos ou ilusões, grandes esperanças desviadas para a paisagem, mágoas como quartos onde se não entra, certas vozes, um grande cansaço, o evangelho por escrever.
Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas.
Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não compreendo nada...
