29 Setembro, 2011

corpoética, finitude e sentido





Antes da corporeidade se constituir prevalecia sua física, sua base material, sua elementar concretude. Com o acréscimo da complexidade humana, o corpo consegue se perceber um pouco mais e melhor: primariamente natureza e prioritariamente cultura.

Essa percepção corpoética em mínima lucidez significa o corpo se saber finito. Não existiu antes e não existirá depois. Sua porção natural é milagrosamente um hiato em meio ao vazio – o que se reveste de enorme importância, pois o corpo não é não-ser de modo absoluto. Afinal, a existência é uma rasteira definitiva no inexistir.

Outro detalhe dessa percepção ocorre quando a corporeidade se dá conta que finitude é um conceito possível justamente porque sua condição cultural inventou linguagens. Cada sistema de signos reapresenta coisas, casos e causos (... tríade recorrente nessas e noutras postagens) que formatam sentidos, inclusive o sentido abstrato do que seja finito.

Assim, os expedientes semióticos tradutores de sentidos se proliferam pelas filosofias, ciências e artes. Do mítico e metafísico ao técnico e pragmático, as linguagens explicitam ou sugerem recursos frente à irrevogável finitude corpórea. E só para exemplificar vale conferir como visual e simbolicamente esse tema é exposto numa cena do filme “O carteiro e o poeta” (Il postino, 1994).

Obra cinematográfica dirigida por Michael Radford e musicada por Luis Bacalov, Il postino alcançou merecido reconhecimento. Público e crítica especializada avaliam e aplaudem a adaptação para o cinema do romance Ardiente paciencia escrito por Antonio Skármeta. Interpretado de modo visceral e derradeiro por Massimo Troisi (1953-1994), Mario Ruoppolo é o carteiro - personagem central. Ao terminar o primeiro quarto do tempo total do filme, procurando cumprir o conselho dado pelo poeta Pablo Neruda (na ficção, personagem vivido por Philippe Noiret), o carteiro caminha pela praia à espera da poesia em forma de metáforas.

Essa cena na praia dura apenas vinte e cinco segundos que podem ser precariamente assim descritos: durante três segundos antes da figura humana do carteiro aparecer, o enquadramento da tela retrata a praia em primeiro plano, seguida do mar e uma ilhota centralizada na linha do horizonte, e o céu ao fundo. Depois o carteiro surge (corpo inteiro) andando desde a direita do quadro, tendo sua cabeça captada pela câmera que a situa na mesma altura da linha do horizonte. Durante o deslocamento do carteiro a câmera está inicialmente estática e depois acompanha o movimento de Mario, havendo o instante em que corpo e ilhota se cruzam e outro instante em que carteiro e acidente geológico se posicionam eqüidistantes, bem próximos das extremidades laterais do quadro. Então a câmera pára e o carteiro prossegue até sair do enquadramento, pela esquerda. O final da cena dura três segundos com a imagem da ilhota, do céu e da praia como únicos remanescentes sígnicos.

(...)

Hipótese corpoética: a finitude humana invade a natura e desaparece; mas através da cultura pode haver alguma invenção de sentido.