29 Junho, 2011

corpoética, caleidoscópio e ensino





O caleidoscópio nasceu na Inglaterra nos primeiros anos do século XIX, mais precisamente em 1816. Seu inventor, Sir David Brewster (1781-1868), conhecendo grego antigo, uniu as palavras kalos (belo), eidos (imagem) e scopeo (vejo). Assim, caleidoscópio quer dizer vejo belas imagens.

Já o ensino nasceu bem antes, muito antes. Nasceu com a cultura; é cultura. O ensino resulta de uma impressão de signos. É, sem dúvida, insigno, impregnação de marcas. Por conta do ensino também se forjaram políticas acadêmicas e pedagógicas com seus cursos, suas disciplinas, aulas, didáticas...

No contexto da corpoética talvez o caleidoscópio se preste como emblema para uma sistematização de signos. Com seu movimento a ecoar invento, fragmento, deslocamento, aproveitamento, espelhamento, ondeamento, evento etc., o caleidoscópio ilustra como a corporeidade faz girar signos em sua poiesis.

Na condição humana, a passagem da esfera natural para o âmbito da cultura não é automática. Ser humano não é necessário e nem preciso; é um caso confuso de liberdade. Sem linguagem e educação permaneceríamos bichos. Com elas, o melhor disfarce: parecemos gente. Valendo-nos do que a espécie possibilita e do que os signos representam, inventamos a nós mesmos.

A grandeza da linguagem e da educação é também seu limite: os signos e o insigno representam e repõem pedaços da condição humana. Assim, a realidade e a totalidade são invenções apressadas e precárias de fragmentos que nem sempre a linguagem e a educação esgotam. Por isso, pedagogia se faz com esboços de trejeitos e lascas de desejos.

Através da linguagem, a arte da educação é uma ciência; melhor ainda, uma sapiência. Haja vista que por certo, direto e reto só mesmo a morte, então a gente reinventa a vida deslocando fragmentos. Acima de tudo, pedagogia é excursão. Saída do curso. Teimosia rebelde. Desenho de um desvio. Curva ao sentido. Parábola. Distração que diz-trai a morte. Adiamento da chegada ao fim.

Na língua se sente o sabor. Na linguagem se sabe a educação. Desta faz bom proveito quem degusta leituras e experimentos como gomos de tangerina. Contudo, nem sempre a fruta é própria, acessível. Há que se recolher, pois, circunstâncias pra arranjar nacos de banana-terra, abacaxi-water, manga-feu, maçã-aire etc. Daí, um aproveitamento melhor: saladaula antropofágica.

A educação depende da imitação assim como narciso de sua imagem. O idioma da pedagogia se chama espelho. E pelas versatilidades das ópticas, são inúmeras as mímicas curriculares, inclusive as emancipadoras e instigantes. Afinal, sempre é bom lembrar que não há outro jeito da gente ser, conhecer e fazer senão pelos espelhamentos que nossas linguagens mediam.

Teorias surgem, teorias somem. Didáticas vêm, didáticas vão. Currículos se sustentam, currículos se esgotam. Os ondeamentos pedagógicos não cessam de cumprir descobertas fantásticas e desatinos assombrosos. Gira a história e linhas educacionais se tensionam e se negam e se superam e se repetem e se rejeitam e se renovam e se acabam e se reciclam e se tensionam...

Em meio a isso tudo..., ainda vemos belas imagens: uma aula como varanda arejada, quintal exposto, pátio aberto... Ainda vemos uma lição como leitura sedutora, escolha cordial, livre passeio de interrogações e reticências. Ainda vemos belos momentos de surpresas inesquecíveis, eventos pedagógicos preciosos, raros, gratificantes... Corpoética com insignamentos caleidoscópicos.