As correspondências no nosso idioma para o vocábulo grego poiesis estão próximas às noções de criar, abarcando as idéias de fazer, confeccionar, fabricar, realizar etc. E, sem dúvida, essas noções e idéias, com suas variantes, se abrem para conotações muito numerosas e muito mais complexas.
No rastro de poiesis serpenteiam, pelo menos, referências a ontologias, linguagens e jogos. As coisas, os casos e os causos poiéticos são constituídos e processam significações mediante interveniências da corporeidade. A própria condição corpórea é sustentada e sustada pela poiesis. Daí, o caráter contraditoriamente criativo da corpoética. Todas as experiências e experimentações culturais (coletivamente configuradas e individualmente reapresentadas) são caracteres da poiesis, necessários à corpoética. Por conseguinte, sem poiesis não há, com(o) efeito, corpoética.
É a poiesis que providencia, inclusive, um espelhamento ao corpo. O que a corporeidade cria funciona como reflexo de sua palavra, de seu potencial e de sua purgação. Em termos meio levianos de alma-nake lacônico, poiesis é como que mídia do corpo para que a corpoética conheça e se reconheça nas nuances do real, do imaginário e do simbólico, culturalmente engendrados-e-engradados.
E mais: numa acepção estética, poiesis tensiona sensação e percepção num frescor lúdico, suscitando um estranhamento que se legitima tanto na própria materialidade do signo quanto na apropriada contaminação de semioses em séries. Assim a corpoética soluça, via poiesis, a insolvência dos fatos. Ou seja, poiesis corresponde, antes e ainda, a uma fazeção apesar e diante dos inescapáveis bilhetes do fim.
