30 Março, 2011

corpoética, formatura e outras licenças




Esta postagem é uma lembrança para uma turma muito querida formada no Curso de Licenciatura em Filosofia da Universidade Metodista de Piracicaba em dezembro de 2000. Naquela oportunidade fiz o discurso (repetido a seguir) para Adriana, José Roberto, Carmem, Daniela, Marco, Catharina, Nilton, Cintya, Flávia e Jane.



Pamonhas, pamonhas, pamonhas
Pamonhas de Piracicaba
O puro creme do milho
Venha provar, distinta freguesia
Pamonhas fresquinhas
Pamonhas de Piracicaba
Pamonhas, pamonhas, pamonhas


Quando a gente ouve essa propaganda nas ruas de cidades na região, entende muito bem o que se está oferecendo como mercadoria. Só que essa compreensão acaba provocando algo mais complexo, isto é: nossa vontade de incorporar, de tornar parte de nosso corpo o que foi anunciado; desejo de encarnar o verbo. Pra muitos de nós, pamonha não é apenas uma palavra para o pensamento. É uma palavra para o corpo todo, principalmente para aquilo que o corpo faz melhor: comer. Letras, sílabas, silogismos e dialéticas relativas à pamonha, por mais importantes que venham a ser, não substituem o comer a pamonha. Afinal, geralmente, o sabor é muito mais que o saber; inclusive no caso da Filosofia. Óbvio que Filosofia é um pouquinho diferente de pamonha; porém, mutatis mutandis, quem pretende ensinar filosofia, já tem por certo que, assim como a propaganda da palavra pamonha (por si só insuficiente ao paladar) o saber sem sabor não serve muito para a corporeidade. Noutros termos, uma Filosofia que apenas se limita ao blá-blá-blá insosso e insípido não passa de barulho inócuo; incomoda e não comove. Lembremos Zaratustra insistindo que a razão é uma espécie de brinquedinho da grande razão – o corpo. E o corpo que se supera come até palavras e conceitos, desde que também dionisíacos. Assim, sempre que formos vender aulas de Filosofia, não nos esqueçamos de oferecer o saber, com sabor, pra servir ao sabor do saber. Senão,
vergonha, vergonha, vergonha
vergonha que tira e cava
escuro estreme no brilho

Mas, por outro lado e feliz coincidência, alguém que começou com vocês e que interrompeu seu Curso está lançando, nesse mesmo instante, mais um livro, logo ali no Átrio da Biblioteca. Como a gente teve notícia, o Cecílio escreveu um almanaque que é um rigoroso e elegante memorial sobre o século XX em Piracicaba. Talvez este livro lhe tenha custado mais empenho e desgaste que uma monografia de final de Curso. Conforme informações colhidas, o almanaque conta detalhes da cultura piracicabana, desde a receita da famosa pamonha até questões ecológicas, passando, desse modo, por temas de filosofias, ciências e artes desenvolvidas nesse lugar onde o peixe pára. E, tenho certeza, esse almanaque, esse puro creme do brilho, preparado pelo nosso colega e amigo de sempre, é sua pesquisa e sua aula magna sobre Filosofia da Cultura Piracicabana, é seu saber com sabor, independente de diplomas. Diplomas, por sinal, que vocês merecidamente agora conquistam. E nessa conquista percebo uma coisa coletiva, de família, de parentes, de amigos, coisa de turma mesmo. Por isso que essa grande turma transcende aos nove nomes que hoje se formam no nono melhor Curso de Filosofia do país; por isso que essa turma é também agraciada por uma espécie de extensão também literária; por isso que essa turma fica ainda mais
risonha, risonha, risonha
e risonha delira se acata
maduro solene Cecílio

E pra terminar, um ligeiro lembrete: se algum dia a gente deixar de saborear pamonha ou, pelo menos, qualquer outro gostinho do senso comum como, por exemplo, samba, futebol, cachaça, religião, novela etc., isso provavelmente significará que deixamos supostas alienações de nossa cultura; isso significará, talvez, que estamos mais enxutos e aptos, exclusivamente, para a pesquisa filosófica; mas, por isso mesmo, quem sabe, ficamos incapacitados para o exercício melhor no ensino da filosofia. Pesquisar desse jeito pretensamente asséptico não favorece um modo mais próprio de se ensinar Filosofia. A pesquisa filosófica intelectualística até que pode ser excelente apuro de palavras e conceitos, sem a contaminação do nóis vai, nóis fica abestaiado. Contudo, o ensino de filosofia, de fato, é, no mínimo, sedução da corporeidade em busca do corpóreo mais saboroso. Todo ensino pressupõe, sempre, pesquisa; mas esta não esgota, nunca, aquele. O ensino do que foi pesquisado tem ingredientes e modo de preparo, como uma receita de pamonha, inclusive naquele detalhe de tirar as palhas do milho, reservando as que forem mais bonitas para fazer as embalagens, costurando com cuidado um belo envelope para aquele gostinho indescritível. Portanto, querida turma de formandos, espero que cada um sinta o prazer do popular autêntico, que cada um tenha o gozo da pesquisa para a docência sem os pudores equivocados da erudição flácida e frígida; que cada um saiba o sabor de ensinar como se fosse uma gravidez muitíssimo desejada; que cada um, então,
proponha na fronha que sonha
cegonha que gira e afaga
futuro frêmito filho