27 Fevereiro, 2011

corpoética e surpresa




Dentre os mo(vi)mentos de te(n)são mais profundos e abrangentes da corporeidade está a surpresa. Por definição óbvia, escapa ao previsível. Por caráter intrínseco, é própria aos fatos. Por conseqüência feliz, modela a serenidade.

Diante e imediatamente depois da surpresa o corpo não se vê mais como estava. Um movimento tenso suscita um apetite e uma potência que desconformam o corpo num instante instável, frágil e febril. Abre-se uma insuspeitada chance para recriar ou remediar uma calma superlativa. A surpresa é o aperitivo da crise; aos apressados pode estragar o prato principal, pois degustá-la como convém pressupõe um compromisso cúmplice com seu oposto: dar tempo ao tempo.

Considerando alguns detalhes, antes da surpresa o material corpóreo se mantém por um padrão relativamente regular e com alterações sistêmicas sujeitas aos controles pertinentes. As variáveis respiratórias, cardíacas, digestivas, neurofisiológicas etc. seguem um ritmo sem muitos sobressaltos. Por isso, quando as surpresas desestabilizam processos biofísicos da corporeidade, surgem maiores e urgentes preocupações. Daí reacende o viver ou fica instaurada a vitória da sombra.

Noutra esfera a sensibilidade corpórea oscila entre grandes atrações e acachapantes repulsas que, ocasionalmente, surpreendem. Nessas oportunidades o inusitado arrebata ou transtorna a dinâmica do cotidiano – amiúde uma dinâmica meia-boca, ou rotineira e acomodada. Assim, pela surpresa, aspectos emocionais e intersubjetivos são desafiados a re-significações e reciclagens certamente imprescindíveis, eventualmente inéditas, definitivamente gravadas.

Já no âmbito do espírito corpóreo a surpresa comparece, quem sabe, de forma bem mais aguda; como bálsamo ou como sufoco. No primeiro caso, a surpresa confere vida ao viver. No segundo caso, a surpresa chega como que chamando a morte pelo apelido mais íntimo. Afinal, um sentido para a existência, quando assim surpreendido, pode sofrer um golpe tão arrasador que apenas outra surpresa inventiva (como sinônimo de fé) talvez consiga replantar um fôlego simbólico para a sobrevivência.