26 Janeiro, 2011

corpoética e viagem

.




Considerando que a corporeidade se constitui como mo(vi)mento de te(n)são, talvez pareça óbvio que as características de uma viagem coadunem com o viver corpóreo. E se isso assim parece, cabe supor também não ser possível reduzir essa correlação às evidências de superfície. Na perspectiva desta página, portanto, corpoética e viagem se combinam, se complementam e se contaminam; porém a complexidade disso exige um reparo mais denso e sutil – o que, aliás, estes parágrafos nem tentam arriscar.

Ainda que pesem limitações de competência, nesta postagem admito o ser corpóreo vivendo sempre em trânsito. Cada corpo é o mesmo, sendo sempre outro. A mudança o estabelece – eis seu paradoxo, eis sua instigante harmonia heraclitiana como a do arco e da lira. Noutras palavras e noutro empréstimo, como que anterior à dimensão excludente e extrema em Hamlet (to be or not to be), há que se administrar o ser e o não-ser. A propósito (e, quem sabe, com maior acerto), devo constatar que o ser corpóreo se afirma justamente por não-ser outra coisa. Pelo não-ser surge o ser. Corpo é o que é porque não é mais o que foi e nem é ainda o que pode vir a ser. Corpo é ser transitório. Corpoética.

E com algum abuso nas letras, acho conveniente lembrar que essa mudança corpoética ocorre numa espécie de metafísica quântica. Ou seja, as incríveis e minúsculas partículas de contágios naturais/culturais pululam dentro do grande vazio atômico da condição humana. As inesperadas indeterminações funcionam como fatores a gravitar em torno de um núcleo de coisas-e-casos prenhe de probabilidades. Pura jinga virtual. O nada engendra tudo. Dinamicamente.

Assim, num espelhamento emblemático dessa potência (dynamis) corpoética, entendo que viajar implica, no mínimo, um significativo exercício semelhante ao que se observa em academia de ginástica dotada de aparelho que faz o corpo correr sem ultrapassar o metro quadrado da esteira. Isto é, além e apesar de todas as vantagens inerentes, viajar também apresenta um aspecto meio discrepante e até um pouco ridículo ou baldio - comparado ao trivial mais singelo. Sair é aparência. Chegar é ilusão. Voltar é descoberta.

Seja como for, aceito que viver é viajar e vice-versa. Ao viajar vivo o que sou. Minha ex-cursão é essencialmente fictícia. Sigo sem cessar um mesmo curso; apenas troco de linguagem – essa roupa que me ajusta aos figurinos da natureza e da cultura. Por isso, quando viajamos, como alertou Bernardo Soares, nunca desembarcamos de nós. Ou em contraponto, como pontificaram Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, com o pé nessa estrada [...] nada será como antes [...] nada será como está; amanhã ou depois de amanhã resistindo na boca da noite um gosto de sol. Ou ainda, como prescreveu Coélet, levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar [...]; o vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira, e retorna aos seus circuitos [...]; o que foi é o que há de ser; e o que se fez isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Quanta antítese, quanta tensão, quanta movência! Que estranho, que trágico, que sublime!

Durante uma viagem, portanto, oportunidades seduzem novas experiências. Muitas vezes o engano toma conta e o inédito ou inusitado ocultam e disfarçam a mesmidade fundante. Quando está noutro local, sem dúvida, a corporeidade se deslocou no espaço, mudou de sitio; contudo não se modificou inteiramente. O lugar do corpo é seu jeito de ser, seu jeito radical, seu jeito por detrás a toda máscara, reverso a toda personalidade.

Ao viajar, os valores/voleios/vazios do corpo fazem emergir condutas consagradas e dignas. Porém (... porque o corpo se move em meio a balizas latentes e sobremodo eficazes) comportamentos nem sempre supostos, nem sempre domésticos e nem sempre louváveis também explodem com uma espontaneidade assustadora, confirmando que sair-mundo-afora é permanecer no mesmo lugar interior – um lugar contraditório e, às vezes, insuspeito e incoerente. Em suma, na mesma plataforma uma viagem suscita novidades e surpreende pela recorrência. E diante desse mo(vi)mento de te(n)são, aventuramos concluir que a corpoética nunca sai de férias.