29 Novembro, 2010

corpoética, proximidade e distância




Quando o corpo entra na linguagem humana, aos poucos vai ingressando no mundo das representações. Antes disso as coisas nem eram notadas como coisas. Não eram nada, apenas existiam. Após esse batismo semiótico, então as coisas passam a ser mais que sensações; são percebidas em códigos, fazem parte de uma visão de mundo. As coisas são re-apresentadas.

Portanto, essas coisas são percebidas como coisas materiais, artificiais, ideais, com valores e sentidos. São também coisas com personalidades, com biografias, com mistérios. E este último grupo de coisas compõe as corpoéticas. E mais, com aquelas coisas e por conta daquelas coisas, cada corpo está próximo ou distante tanto no tempo quanto no espaço em relação a outros corpos e outras coisas.

Na corpoética o significado de proximidade e distância é simbólico, principalmente quando e onde o corpo deixa de perceber a opacidade da coisa e a transcende: da coisa para o caso. Essa ultrapassagem oportuniza à corporeidade experiências mais agudas para viver sua condição humana. A presença ou a ausência das coisas são vivenciadas em seus casos econômicos, políticos, formativos, morais, afetivos, estéticos, lúdicos etc., entre si relacionados. Com efeito, a intensa complexidade do caso refaz e re-significa a aparente simplicidade da coisa.

Dentre os casos de maior densidade da corpoética está o da proximidade ou da distância afetiva. Por causa de opção, circunstância ou óbito, o que significam perto ou longe, vigente ou inatual, não se excluem. Podem ser até contraditórios e, ainda, coerentemente contraditórios. Daí, por conseguinte, a experiência corpoética autentica o humano, desde seu ápice de êxtase até seu abismo de angústia.

No âmbito afetivo da corpoética, proximidade ou distância não se restringem à categoria do tempo; convocam a temporalidade. Também não se limitam ao registro do espaço; anunciam a espacialidade. Pelo afeto (ou pela falta de afeto) a localização no espaço e o momento no tempo constituem para o corpo um caso de representação, às vezes, indiferente às coisas mesmo. O corpo que perdeu um ente querido, sepulto em outra parte, depois de muitos anos ainda pode sentir afeição, como se o passamento pudesse ser substituído por alguma representação presente (nos dois sentidos: presente no tempo e presente no espaço).

E se na radicalidade extrema da afeição relativa ao corpo que morreu ocorrem proximidade e distância como casos codificados independentemente das coisas, também é notável esse jeito nas situações afetivas resultantes de escolhas e contingências. Para quem nutre afeição por outra pessoa, sua ausência ou demora não desfazem sua presença e sua pontualidade no coração amante. Por outro lado, postar-se junto a um desafeto suscita desejos de exílio e esquecimento. Em suma, se no geral das representações uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, na dimensão afetiva corpoética, proximidade e distância são mais irredutíveis ainda: cada caso é um caso.