30 Outubro, 2010

corpoética em fantasia ao fio da navalha



Dirigido por Ridley Scott em 1982 e considerado filme-cabeça, Blade Runner continua confirmando sua vocação para dúvidas e debates. Os temas das tensões interculturais, das arrumações miméticas e das citações que valorizam o repertório de um público desassossegado, são recorrentes ao longo de quase duas horas. Também como linguagem específica a película apresenta cenas e seqüências que legitimam seu lugar de destaque, inclusive por conta da trilha musical composta por Vangelis. Dificilmente o expectador fica apático ao assistir essa ficção futurista, ambientada numa impressionante Los Angeles de 2019.

Dentre as tensões interculturais, chamam atenção: a empresa de publicidade Shimago-Dominguez Corporation; a utilização de hashi para consumo de macarrão instantâneo numa viatura com capacidade para deslocamento vertical; a fachada asteca do edifício da Tyrrel Corporation; o bonsai próximo ao equipamento do teste Voight-Kampff... Por outro lado, algumas arrumações miméticas traduzem a proliferação dos simulacros: a coruja; a serpente; os amigos fabricados por J.F. Sebastian; as gargalhadas dos bonecos; os andróides/replicantes... Quanto às citações: o filme Casablanca; o artista vienense Hundertwasser; o arquiteto Frank L. Wright; o poeta William Blake; o escritor Lewis Carroll; a partida de xadrez entre Anderssen e Kieseritzky; as doutrinas da trindade e da salvação elaboradas pelo cristianismo...

Assim, convém notar como o conteúdo desse filme não subordina mera e pragmaticamente sua forma cinematográfica. A propósito, o referente do filme está na própria maneira de se expor. No como-se-diz já está o-que-se-diz. Há um exercício de metalinguagem, peculiar das experimentações estéticas mais densas e complexas. E no caso, essa metalinguagem sugere a fantasia de uma corpoética ao fio da navalha.

A despeito de (porém, justamente por) ser um texto fílmico desprovido de compromisso com a “verdade/realidade”, presta-se para fazer com o personagem principal Deckard (interpretado por Harrison Ford) um jogo re-velador de uma determinada corpoética por meio de uma semiose que articula fato e função. Seu trabalho é caçar replicantes, produtos de uma tecnologia capitalista muitíssimo sofisticada e sobremodo manipuladora; e enquanto essa função vai se atualizando, descobrimos quem Deckard é de fato. Dentre os replicantes caçados se destaca Roy (magnificamente interpretado por Rutger Hauer). Com este personagem uma corpoética parabólica pode ser decodificada como sublime desencanto. Com efeito, Deckard e Roy representam corpoéticas complementares em um quadro paradigmático específico de situação limite da condição humana: o sujeito-coisa.

Deckard é uma coisa revelada por meio de pequenos trabalhos manuais feitos por Gaff, aquele que dirige a viatura citada anteriormente. Esse artesão improvisado, duplo operador de veículos (de transporte e de significação), inicialmente compõe um origami com papel do lixo, em forma de galinha (quando Deckard está acovardando e recusa aceitar a missão de caçar os replicantes); depois, num palito de fósforo ainda não queimado, esculpe um homem exibindo virilidade (quando Deckard, não tendo como escapar, mostra coragem ao assumir a caçada); ao final Gaff dobra com papel alumínio de maço de cigarros a figura de um unicórnio (quando Deckard completa sua missão). Aliás, esse último origami provoca em Deckard um insight ontológico.

Roy é uma coisa desencantada e sublime. Tem consciência de ser replicante com exíguo tempo de validade, diminuído ainda mais. Sua pródiga existência abreviou seus dias. Então, Roy leva ao extremo sua crítica à criatividade tecnológica perversamente mercantil. Executa uma espécie de parricídio, matando Tyrrel, seu criador. Logo a seguir, durante seu confronto com Deckard, reanima sua energia perfurando sua mão direita com um prego, à moda do crucifixo. Depois empunha na mão esquerda uma pomba, como que evocando a terceira pessoa da trindade cristã. Assim divinamente incorporado, salva seu caçador prestes a morrer. Finalmente esgota seu espírito com palavras solenes, proferidas em meio a um sorriso angustiado: all those moments will be lost in time like tears in rain.

Em suma, essa corpoética em fantasia desenha situações existenciais cercadas de esvaziamentos. Falham e faltam as certezas das verdades míticas, das seguranças racionais, das eficácias científico-tecnológicas, das coerências éticas. Sobram e sombreiam fragmentações cindidas por lâminas e lágrimas. Ao fio da navalha sangram almas que outras saídas não têm senão o moverem-se nas tensões, apostando em caleidoscópios perdidos. Caos à flor da pele.