31 Outubro, 2009
30 Outubro, 2009
viver e morrer, segundo a corpoética
Como paradigma conceitual que estrutura minha reflexão sobre o corpóreo em suas qualidades complexas, peculiares, históricas, possíveis e criativas, corpoética é um modelo de análise em que binômios viver/morrer e vida/morte têm estatuto de objeto para conhecimento especulativo. Na base desse exercício gnosiológico está a tensão entre tempo e temporalidade, sendo que ambos se constituem reciprocamente, cada qual em dimensão específica, porém conjugada.
Viver e morrer estão, a priori, na categoria do tempo; vida e morte, pela linguagem, estão na temporalidade. Óbvio que a condição corpórea está inegável e irreversivelmente relacionada tanto ao tempo quanto à temporalidade. A separação destes apenas se constata na verbalização do artifício abstrato. De qualquer modo, parece apropriado supor (no mínimo) que diferentes qualificações sobre o que possam "ser" vida e morte se desdobram em diferentes formas efetivas de viver e morrer.
Também é evidente que noções/idéias/conceitos (de vida e de morte) sobre o viver e o morrer são sentidos/significações, ainda que diversos, sobremodo abrangentes. Viver não tem sentido intrínseco. Morrer idem. Vida não existe; é apenas uma abstração e pode vir a ser referente de um sentido criado para o viver. Morte não existe também; é outra abstração e pode ser referente de um sentido criado diante do morrer dos outros e antes do próprio. E talvez sejam raras exceções (ou talvez nem existam) os corpos desprovidos de elementos abstratos forjadores de sentido/significação para si mesmos e para outros corpos.
Assim, simplificando um pouco, viver difere de vida, bem como morrer se distingue de morte. Viver e morrer se referem a fatores, fatos e fenômenos; vida e morte são interpretações. Viver e morrer ocorrem na concretude da existência; vida e morte são composições a partir de valores imaginários de corpos vivos. As ciências cuidam basicamente do viver e do morrer. De maneira distinta, muitas filosofias e todas religiões se interessam prioritariamente pela vida e pela morte.
Outro detalhe importante é que morrer e morte se contaminam, assim como viver e vida também se confundem. Mais ainda, cruzando acepções, viver sofre assédio da morte tanto quanto morrer é atentado pela vida. Ou, curto e grosso, noutra expressão indicativa do que tem sido na cultura hegemônica bastante comum e, a meu juízo, sobremodo discutível: viver apenas por conta da vida é culpa da morte que impede morrer.
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