Por entre caminhos naturais e culturais, muitos obstáculos comprometem a emoção corpoética com sutis artifícios, quase imperceptíveis. São obstáculos dotados de versáteis recursos camaleônicos, afeitos a camuflagens. A grande e nefasta importância desses obstáculos decorre justamente por funcionarem contra a corporeidade enquanto sugerem defende-la. Custoso serem desmascarados. Identificá-los e contorna-los requer perspicácia e coragem. Qualquer resquício de ingênua e obtusa timidez conserva esses obstáculos velados e eficazes.
Numa de suas versões, os obstáculos se constituem como filtros através dos quais o corpo pende a interpretar fatos e pessoas, segundo acentuada redução subjetivista. Para além da parcela de hostilidade inerente à vida, essa corpoética emocionalmente tendenciosa insiste na hermenêutica baseada numa perspectiva conspiratória: re-significa fatos e pessoas que desagradam como se fossem fatos e pessoas com intenções provocativas e atentatórias: aquilo que seria um problema em-si é redimensionado como sendo um contra-si. Com isso fica sempre faltando o benefício da dúvida.
Noutra de suas versões, os obstáculos resultam de traumas não submetidos a crivo e critério mais trágico. Subsiste uma dramaticidade emotiva voluntariosa e de teimosias crédulas: os desencantos sofridos desembocam no ressentimento e não na constatação do inexorável. Assim, sobrevive como déficit não-reconhecer a corrupção fundamental, o pútrido corpóreo sem disfarces e sem saídas. Essa emoção corpoética estéril não consegue apelar para uma perplexidade generosa e talvez cínica (que evitaria a vingança inócua por via de uma variante desesperada-e-recreativa). Afinal, eventuais lenitivos corpoéticos são aqueles que compõem com argúcia e arte uma segunda pele sobre as misérias dos substratos terríveis da existência.
Noutra de suas versões, obstáculos na emoção corpoética se nutrem da desconfiança amarga – recorrência da situação em que mágoas (em tese, justificáveis) não lograram algum tipo de superação. Assim, desconfiar sempre é o mesmo que sempre estar longe da entrega confiante (sem dúvida, perigosa e frágil). Daí parece que soa mais seguro uma mentira que precisará de outra e de mais outra numa sustentabilidade forjadora de inautênticas máscaras emocionais – personificações da má-fé, redutos de uma pseudodefesa. Com efeito, essa aderência à mentira aprisiona tal corpoética no pântano pegajoso da dissimulação, mediando o medo à vazante.
Outra versão desses obstáculos diz respeito à resistência corpoética para aceitar, apoiar e aplaudir entes queridos felizes sem sua direta iniciativa, intervenção e influência. Nesse âmbito mais íntimo, a corporeidade emocionalmente desequilibrada imagina que a alegria de quem ama deveria estar sob seu poder, controle e monopólio. Um egoísmo exacerbado pontua, com ironias ou cobranças, reações às experiências felizes de amigos e familiares. Esses, então, dado o risco de serem incompreendidos e desqualificados, se sentem tolhidos e reticentes para compartir seus legítimos prazeres.
Ainda outra versão destes obstáculos dá conta da suspeita autocomiserativa. A imagem que a corporeidade constrói de si nesse caso é próxima de alguém que carece de atenções, cuidados e zelos. Essa lacuna emocional advinda de feridas não cicatrizadas deixa a referida corpoética exposta a uma fantasia de pessoa não-querida, mal amada. Por mais que seja agraciada (... e ser agraciada é diferente de ser reconhecida pelos méritos) ainda lhe sobra um vazio que clama e reclama por carinho, ternura etc. Daí, um apego exacerbado aos supostos direitos e à alegada justiça serve como feitiço para esse corpo que padece de autoestima emocionalmente imatura. Com efeito, falta-lhe melhor percepção do acaso, do absurdo, da surpresa, do humor, da vulnerabilidade, do mistério.
