.
Dentre as obras-primas do fabuloso Charles Chaplin, uma película toca em especial a questão da corpoética e o poder ideológico no contexto do sistema capitalista. Trata-se do filme produzido em 1936: Tempos Modernos. Personagem carismático, Carlitos aparece inicialmente trabalhando numa fábrica sem que nos seja informado seu produto final. Assim, como Carlitos, permanecemos alienados. Ademais, nessa fita cinematográfica exemplar, em meio a outras, também há seqüências - como as editadas dos nove aos treze minutos - que ironizam a ideologia que preside a eficácia capitalista no processo industrial que violenta a corporeidade.
O ambiente na referida cena é uma fábrica testando um lunch service automático junto a sua linha de produção. Diante de uma esteira rolante está o lírico e desajustado Carlitos, então como cobaia na experiência com o tal aparelho para almoço. Acoplada à parafernália eletromecânica está uma bandeja giratória dotada de um programa que providencia alimentos (sopa, barras de proteínas, milho cozido e sobremesa) diretamente para a boca de Carlitos. E pretendendo que o serviço de abastecimento para o corpo resulte mais adequado, o invento de um fantástico J.W. Bellows também está equipado com um guardanapo que cumpre sua função sempre que necessária a finesse da circunstância.
Porém quando uma pane tecnológica atinge o lunch service, Carlitos passa a ser submetido a equívocos grosseiros e indiferenças típicas do hábito explorador, ficando evidente seu papel de corpo vítima de reificação. O que antes e apressadamente podia parecer privilégio é agora desmistificado. A tortura se acentua e o trabalho como tripalium se explicita. Até o guardanapo perde sua máscara; deixa cair sua aparência promotora de delicadezas e assume seu jeito insidioso e brutal. O rosto de Carlitos é golpeado insistentemente até sofrer um knock out. Afinal, mais cedo ou mais tarde a ideologia acaba mostrando a que veio.
Assim sendo, o guardanapo tecno-ideológico se presta nesse filme para ilustrar a contradição na corpoética: como um instrumento atende tanto aos valores mais requintados quanto aos mais abjetos. E o limiar fronteiriço se dá e se constata segundo interesses e eficácias dos corpos em seus contraditórios jogos de poder. Em suma, se diante da arte desse mestre do cinema as reações são geralmente de risos, esse humor contém uma força ainda mais importante e contraditória: fazer com que a hilária ingenuidade do personagem venha despertar alguma criticidade compromissada e conseqüente no expectador. Ou como dizia Roland Barthes a propósito de Tempos Modernos em meados dos anos '50: ver alguém não vendo é a melhor maneira de ver intensamente o que ele não vê.
Dentre as obras-primas do fabuloso Charles Chaplin, uma película toca em especial a questão da corpoética e o poder ideológico no contexto do sistema capitalista. Trata-se do filme produzido em 1936: Tempos Modernos. Personagem carismático, Carlitos aparece inicialmente trabalhando numa fábrica sem que nos seja informado seu produto final. Assim, como Carlitos, permanecemos alienados. Ademais, nessa fita cinematográfica exemplar, em meio a outras, também há seqüências - como as editadas dos nove aos treze minutos - que ironizam a ideologia que preside a eficácia capitalista no processo industrial que violenta a corporeidade.
O ambiente na referida cena é uma fábrica testando um lunch service automático junto a sua linha de produção. Diante de uma esteira rolante está o lírico e desajustado Carlitos, então como cobaia na experiência com o tal aparelho para almoço. Acoplada à parafernália eletromecânica está uma bandeja giratória dotada de um programa que providencia alimentos (sopa, barras de proteínas, milho cozido e sobremesa) diretamente para a boca de Carlitos. E pretendendo que o serviço de abastecimento para o corpo resulte mais adequado, o invento de um fantástico J.W. Bellows também está equipado com um guardanapo que cumpre sua função sempre que necessária a finesse da circunstância.
Porém quando uma pane tecnológica atinge o lunch service, Carlitos passa a ser submetido a equívocos grosseiros e indiferenças típicas do hábito explorador, ficando evidente seu papel de corpo vítima de reificação. O que antes e apressadamente podia parecer privilégio é agora desmistificado. A tortura se acentua e o trabalho como tripalium se explicita. Até o guardanapo perde sua máscara; deixa cair sua aparência promotora de delicadezas e assume seu jeito insidioso e brutal. O rosto de Carlitos é golpeado insistentemente até sofrer um knock out. Afinal, mais cedo ou mais tarde a ideologia acaba mostrando a que veio.
Assim sendo, o guardanapo tecno-ideológico se presta nesse filme para ilustrar a contradição na corpoética: como um instrumento atende tanto aos valores mais requintados quanto aos mais abjetos. E o limiar fronteiriço se dá e se constata segundo interesses e eficácias dos corpos em seus contraditórios jogos de poder. Em suma, se diante da arte desse mestre do cinema as reações são geralmente de risos, esse humor contém uma força ainda mais importante e contraditória: fazer com que a hilária ingenuidade do personagem venha despertar alguma criticidade compromissada e conseqüente no expectador. Ou como dizia Roland Barthes a propósito de Tempos Modernos em meados dos anos '50: ver alguém não vendo é a melhor maneira de ver intensamente o que ele não vê.
