31 Maio, 2008
cógito da corpoética
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penso, logo assumo, em cólica oblíqua:
fucei e só sei que forçando ferrolho
fica no fim uma fimose no olho.
por sorte, azar ou destino
acontece do intestino
lacri-mijar a morte
como um aviso
incircunciso
equívoco
anal
u
fucei e só sei que forçando ferrolho
fica no fim uma fimose no olho.
por sorte, azar ou destino
acontece do intestino
lacri-mijar a morte
como um aviso
incircunciso
equívoco
anal
u
15 Maio, 2008
pnêumica corpoética pós-moderna
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Na condição pós-moderna (...) a vida não é um problema a ser resolvido, mas experiências em série para se fazer. Abertas ao infinito pelo pequenino e. (Jair Ferreira dos Santos)
... E procurando vivenciar uma experiência sugerida pela epígrafe, este texto pretende apenas ser mais uma reflexão sobre aspectos da pnêumica, ambientada no que se convencionou chamar cultura pós-moderna. Aqui o termo pnêumica é usado como designativo da respiração corpórea, revestida por uma tensão entre os desejos e os símbolos culturalmente construídos. Assim, o que é esse ar culturalmente respirado, senão espírito (pneuma)? O que está no ar, senão uma espiritualidade, uma pnêumica?
... E procurando vivenciar uma experiência sugerida pela epígrafe, este texto pretende apenas ser mais uma reflexão sobre aspectos da pnêumica, ambientada no que se convencionou chamar cultura pós-moderna. Aqui o termo pnêumica é usado como designativo da respiração corpórea, revestida por uma tensão entre os desejos e os símbolos culturalmente construídos. Assim, o que é esse ar culturalmente respirado, senão espírito (pneuma)? O que está no ar, senão uma espiritualidade, uma pnêumica?
Como a cultura tem demonstrado, a morte é a parteira espiritual. Diante da expiração derradeira e irreversível, os corpos sobreviventes reinventam um jeito de construir significados; ainda que, neste caso da pós-modernidade, a significação não possa contar muito com a ilusória crença de que as coisas da razão sejam necessariamente melhores.
A perplexidade pós-moderna, como gerente da alma, hospeda a dúvida, antes cartesianamente apenas metódica e aloja o ceticismo, outrora comtianamente tão só positivo. O espaço das idéias claras e distintas em que se fecundavam a ordem e o progresso não fica, de fato, desocupado. Porém, de salto alto e assanhado, à porta, um aperto incomoda: a fé não tem mais endereço fixo, moradia certa.
A pnêumica na pós-modernidade inventa um espírito descomplicado, do menor-esforço. Espírito de gozação, debochado. Espírito iconoclasta. Espírito de um narcisismo de superfície. Espírito sem paixões, arrastado pelo vácuo da velocidade consumista. O hedonismo é cultuado. A salvação é soprada pela transitividade da transitoriedade. Assim, a pnêumica corpoética pós-moderna possível, a partir de um resgate que inclua essas miudezas do cotidiano urbano-metropolitano, não está ainda bem alojada nas instituições religiosas tradicionais. Parece que as experiências pnêumicas pós-modernas acontecem sem que os corpos envolvidos percebam que se trata de uma espiritualidade mesmo (e que, talvez, nem venham a ocorrer senão de forma secular). De qualquer forma, há mais pneuma nesse espírito do que supõem as austeras teologias.
Saturada de meios e meneios comunicacionais, a rede espiritual na pós-modernidade espetaculariza os símbolos ungidos pela hipostatização. A coisa criada fica tão mais fascinante com a magia tecnológica, que o próprio corpo criador da coisa, sobremodo encantado, a ela se submete, esquecendo-se do processo e tomando o produto como que dotado de vida/valor em si. O poder da representação (re/apresentação) - imprescindível para a consciência/linguagem - que perpassa todos os outros poderes atinge, na condição pós-moderna, uma rapidez e uma brevidade surpreendentes: signos de um tempo/espaço que, num instante, chegam e se vão como um vento, um sopro.
De certo modo, nessa vaguidão e nesse esvaziamento o corpo estaria exorcizado de tantas e tontas seguranças. Seria uma corpoética mais humana, posto que de imprecisão e angústia, de invenção e êxtase é que iludimos a morte com a arte da vida. No entanto, esse vazio pós-moderno não é tão vazio assim. O corpo, possuído por uma legião de itens binários, digita o programa da renovação do Sistema. As idéias e ações revolucionárias deixam de atacar a questão estrutural (com efeito, bem mais hard) e se deslocam para modificar o quase imediato. Na pnêumica pós-moderna o horizonte é mais soft, bem consoante à leveza trágica de uma respiração corpoética desenganada.
Contudo, o espírito trágico da pós-modernidade não se desdobra necessariamente num pessimismo triste. Nas entranhas, o vazio do corpo fica compensado pela sugestão de prazer que tangencia tudo superficialmente. Parece que nem dá tempo pra se sentir no vácuo porque esse vácuo é construído por uma velocidade excepcional. E, paradoxalmente, o espírito de uma corpoética revolucionária, naquilo que tem de profético (denunciando opressões e anunciando libertações), se manifesta na pós-modernidade com uma pregação e uma postura atenta para os fragmentos do cotidiano. É uma espiritualidade corpórea molecular que se lança na luta por mo(vi)mentos de te(n)sões irredutíveis às sínteses e, muito menos, às balizas apriorísticas. Toda uma carnavalização passa a inspirar a aporia pós-moderna. Em nome de um hedonismo libertário há uma corpoética que dessacraliza tudo (inclusive os mundanismos consagrados).
Na pnêumica pós-moderna a perplexidade não é exorcizada. Com preguiça e/ou volúpia, com angústia e/ou excitação, as alternativas não traduzem excludências. Tudo se permite nessa espiritualidade. A ausência de parâmetros definidos e definitivos promove uma "esquizofrenia" espiritual desejada e assumida por uma corpoética d'EUs. As maquiagens da persona fazem o milagre do ser-um-sendo-vários. O caótico quase se transforma em cosmético.
As intervenções artísticas da pnêumica pós-moderna refletem e refratam um desvio de concepção. Com o esvaziamento na arte que sustentava a construção mítico-mágico-moderna, a espiritualidade pós-moderna trata de remontar sua imaginação emocionada numa simbologia mais espe(ta)cular ainda. É inevitável que a corpoética criadora, em sua surpresa inventiva e na ausência dos símbolos que se esgotaram, busque e encontre alternativas que expressem a dimensão poiética do pneuma. Afinal, a estética é o espaço próprio, por excelência, para as catarses da fé.
A freqüente e característica maneira da estética pós-moderna recorrer a citações indica uma espiritualidade que procura uma renovação carismática. O elemento mais interessante (de maior graça nas artes plásticas, na música, na literatura, no cinema etc) passa a ser uma nova composição de formas & conteúdos já feitos. A novidade que sensibiliza a pnêumica da corpoética no pós-moderno não está restrita ao nível da substância original ex-nihil e muito mais na re-incidência do déja vue com originalidade.
Assim, a espiritualidade pós-moderna (e ainda secularizada), não tendo mais utopias e vendo/sendo/tornando tudo tão rapidamente descartável, poietiza (com humor) a perda. Uma alegria precária e provisória inunda as almas que se abrem à comunhão celebrada pela mídia. Com a magia de um leve toque, imagens em caleidoscópicas insinuações refazem o truque da onisciência/onipresença/onipotência. O nicho do sagrado consumo presta culto à benção do consummatum est - a morte do valor de uso para a insaciável ressurreição do valor de troca. O Mercado é o divino espírito que pastoreia a pnêumica corpoética pós-moderna. Parece até que os mistérios não incomodam mais porque o caminho às revelações é tão fascinante que substitui a verdade e a vida: todos são chamados, inclusive os excluídos.
A pnêumica pós-moderna pressupõe, no mínimo, diferentes condiçõe$ de passagens pelos domínios acumulados nas filosofias, ciências e artes. Satirizar o próprio desencanto tem sido privilégio de corpos que imaginam não precisar mais da ilusão. Só que, a propósito, todos fazemos parte do mercado como simulacros de sentido; em alguns casos, numa ignorância dócil e impotência útil. Nas conjunturas históricas em que há, concomitantemente, elementos pós-modernos, modernos e pré-modernos, a espiritualidade de todos os corpos pode até acontecer em canais comuns, havendo, óbvio, decodificações específicas para cada status corpóreo. E toda essa comunhão-em-mosaico acaba por ilustrar, de maneira corroborativa, a própria pnêumica pós-moderna de recepção plural-parcial da corpoética.
12 Maio, 2008
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