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Em primeiro lugar, tenho por pressuposto perspectivo o corpo. Em segundo lugar, faço de corpoética o rosto denominativo do paradigma conceitual que estrutura minha reflexão sobre o real corpóreo em suas qualidades complexas, peculiares, históricas, possíveis e criativas. Em terceiro lugar, sinto na corpoética um gosto operativo semioticamente móbil, mosaico, meio na molecagem..., que me atenta a flagrar (por isso digo que vi, entre parênteses) os momentos e movimentos tensos e cheios de tesão da corporeidade.
Explicando um pouco mais, corpoética guarda em si outras palavras, como se fosse uma espécie de valise estética, condensadora de vocábulos e vértices. Nela encontro corpo (complexidade), cor (peculiaridade), pó (historicidade), ética (possibilidade) e poética (criatividade)... sendo que cada um destes ângulos e arranjos tem seu significado específico em relação ao sentido arbitrariamente paradigmático (modalidade) do vórtice corpoética.
Isto posto, começo afirmando que um complexo trânsito atravessa o que se chama corpo. Uma dimensão material físico-bio-química estabelece sinapses evolutivas e sutis, gerando contatos, conexões e conflitos de linguagens eco-sócio-culturais. Essa dimensão material, que abarca o instintivo e o intelectivo, cruza com uma dimensão emocional que não se esgota em seu caráter de suscetibilidade. Desejos, prazeres e frustrações percorrem e promovem imprevisíveis provocações à dimensão espiritual. Esta, correspondendo à surpresa inventiva da imaginação corpórea, num processo mito-poético, transforma fôlego em alma, hálito em espírito. Nessa complexidade envolvendo matéria, emoção e espírito, o intercorpóreo vai inventando e inventariando a existência.
É evidente, admito, que o corpo nem sempre nomeia a si mesmo como aqui e agora acabo de fazer, tão limitada, discutível e ligeiramente. Assim, acho necessário revestir com devidas aspas materialidade (soma), emotividade (psique) e espiritualidade (pneuma) acima referidas. Além disso, é mister sublinhar que estas dimensões não se separam, não se excluem nem se sucedem no movimento tenso da existência corpórea; compõem uma mesma complexidade (em dimensões interligadas, inclusivas e simultâneas). E, portanto, qualquer definição ou consideração sobre a existência precisa levar em conta, no mínimo, essa complexa tríade somático-psíquico-pnêumica.
Dentro dessa complexidade corpórea e intercorpórea, habitando os planaltos do que é instigante, hospedando-se nos pântanos das impressões e passeando pelas praias da perplexidade..., a carne, o desejo e os signos constituem o corpo conforme as estações da história. O corpo é pó, é chão, é barro (molhado pelo berro do húmus social). É um feixe de fatores fornecidos pela terra e temperados pelas intempéries das sete manhãs. O corpo é sua historicidade. Na história de sua casa (lareira da economia) está a intercorporeidade de seu pão. Na história de sua cidade (praça da política) está a intercorporeidade de seu contrato. Na história de sua palavra (semente da cultura) está a intercorporeidade de seu espetáculo. A existência corpórea é devida à história da intercorporeidade no espaço cotidiano – onde e quando cada corpo é açoitado por suas vésperas e encantado com suas bússolas.
A historicidade do corpo também lhe confere balizas para seu percurso. Situado e lançado pela vereda que tende sempre para seu irreversível termo (a morte), o corpo deseja lograr a natureza - essa coisa encantadora e inexoravelmente propensa ao crepúsculo. Por meio dos mais contraditórios jogos que a cultura lhe permite, o corpo constrói seu pão e consome seu circo. É a sapiência e a demência, igualmente imprescindíveis, num balanço de equilíbrio precário e provisório sempre.
A propósito, defendo que a existência corpórea não é predicado sem objeto empírico. Nesse caso, rejeito a hipótese de uma existência atribuída a uma generalização designada “corpo”, como se o corpo pudesse ser tão somente abstração - o que não significa que a corporeidade não viva sua abstração, por sinal, bem mais concreta do que se imagina. Com efeito, apenas digo que só existe o corpo que obriga minha escrita sobre ele prestar atenção à sua concretude singular... Noutros termos, repito, sem medo de erro, que cada corpo existe como corpo graças às dádivas, dívidas e dúvidas que dividem seu dia-a-dia com senhas e sonhos intransferíveis, irrepetíveis, intraduzíveis. Por isso, corpo só é corpo por ser corpo com vida, corpo com uma qualidade particular e individualmente única de momentos e movimentos de te(n)são. Afirmo, abdutivo, a essa altura dos meus dias fe’l-lüz-mente acumulados, que a morte de um corpo é o fim absoluto desse corpo, desse corpo entendido como complexidade, historicidade, peculiaridade, possibilidade e criatividade. Se, depois de morto, outros corpos dele se lembram, por ele suspiram, dele falam..., a vida destes outros corpos vivos é que, metaforicamente re-suscita, ergue de novo, re-anima aquele corpo morto. Essa imortalidade (palavra que me soa como licença poética) efetiva-se de diversas maneiras, mas nunca mais como corpo mesmo, como corpo vivo. Nesse caso, portanto, a imortalidade acontece como memória psico-social dos ainda-vivos..., acontece como cultura que transcende aquele que vivia – agora ressurrecto, imortalizado em suas letras, ciências e artes. Enfim, ao dizer corpo vivo, gostaria de contar com algum abono por meu intuito pedagógico; senão, reconheço o pleonasmo.
Sendo verdade que a história de uma corporeidade específica serve de referência e condição para os corpos a ela relacionados, também é verdade que cada corpo vive sua história de modo absolutamente original. Em que pese as padronizações dos estereótipos, não há, sequer, dois corpos iguais. Nem mesmo os corpos que se identificam na economia ou na política ou na cultura são iguais. Nem mesmo os gêmeos idênticos são iguais, a começar pelos diferentes nomes que recebem e pelas diferenças com que nomeiam o mundo.
A individualidade do corpo é sua cor, sua peculiaridade, sua qualidade única. Cada corpo é e vive seu colorido pontual, seu jeito diferenciado de ser essa massa somática que se mexe entre bios e necros, entre vida e morte tangíveis. Mas também, cada corpo é e vive seu colorido pessoal, sua maneira inédita de usar essa máscara (pessoa/persona) psico-representativa que se insinua entre eros e tanatos, entre vida e morte sedutoras. E cada corpo é e vive, ainda, seu colorido punctual, seu modo irrepetível de sofrer essa fisgada da paixão última do pneuma que se revolve entre zoe e hades, entre vida e morte imaginárias.
Desviando-me num breve devaneio, penso que, talvez, a peculiaridade do corpo tenha seu registro qualitativo privilegiado no umbigo. Salvo melhor julgamento, não existe representação mais própria que o umbigo para o pontual/pessoal/punctual do corpo. O umbigo é essa marca contraditória de continuidade-ruptura: ele é índice de um conduto que, durante um tempo ligou mãe e embrião. Tocar no umbigo é contatar um passado, quem sabe uma saudade; algo de que se separou por conta de um corte. Além disso, o umbigo é uma área que polariza emoções bem no centro do corpo. Parece que os sentimentos se convergem e se divergem em torno desse pequeno e profundo pólo de pele sem pelos. Como resistir às cosquinhas nessa cicatriz, ainda mais num apelo psico-social em que ela é um ícone de prazeres! Tudo isso sem contar que o umbigo é um convite à fé, à teimosia do entusiasmo. Afinal, se foi arriscado romper a segurança pretérita materna..., se o futuro dependeu dessa aposta lançada sem consulta ao próprio neonato..., se a experiência de gozo nele é apenas aperitivo..., o umbigo é ainda sacramento: um símbolo indelével, um meio de graça, uma inspiração para o corpóreo insistir teimosamente em se tornar aquela nova criança, revivendo a plenitude sonhada no útero da alegria. Concluindo esse desvio, em malandra consideração às sílabas que me dominam nessa nossa língua, repito para destaque: corpo, além de ser pó, é, antes, cor. Cor cortejada pelos recortes do coração - coisas que o corpo conhece de cor. Assim, cada corpo é um conjunto de fragmentos cromáticos a girar em molduras naturais, dentro dos suportes historicamente desenhados pelo próprio corpo em tangências intercorpóreas. E, dependendo do ângulo que olha... e do movimento que opera, o corpo vê belezas, compõe uma estética, cria uma espécie de caleidoscópio. Quanto mais cacos coloridos, maior a densidade do espe(tá)culo: a variedade com que, técnica e artisticamente, se espelha e se espalha o acaso circunscrito.
Voltando ao paradigma corpoética, como que no fundo dessa mochila há uma alusão à possibilidade de conduta desenvolvida pelo corpo (possibilidade aqui entra como sinônimo de liberdade, no sentido de prerrogativa moral, relacionada ao âmbito ético). Às vezes, racionalmente, um valor fundado no chão da história serve de apoio para os passos corpóreos. Assim procedendo, uma ética mais próxima ao controle se afirma. E, como sempre, o controle tem suas virtudes e seus vícios. Outras vezes, o corpo não leva em consideração qualquer valor e sua atitude mais parece um lance de voleio: nem se espera a bola dos fatos bater no solo da razão e já se rebate emocionalmente, sem-pulo... podendo (ou não) haver sucesso no desdobramento da jogada. E além dos valores e dos voleios, vezes há em que o vazio envolve o corpo. Daí, com sua fantasia imaginativa, a corporeidade vai tentando conviver consigo e com tudo e todos diante do mistério. Imitando, ignorando ou inventando nomes e normas exclamativas para lidar com o mistério, o certo é que o corpo se move e se comove, também e ainda, segundo suas mais profundas interrogações e reticências. E, em sobrando um silêncio ou um sussurro ante o inexprimível vazio, o espírito corpóreo geme e gesticula sua angústia e seu êxtase.
Devo, então, relembrar um detalhe que há pouco mencionei. Noutras palavras, é a morte que motiva a maravilha, é a falha que fomenta a festa, é a perda que produz a poesia. Ou seja, porque o corpo sabe, sente e sofre com a tendência de tudo ter um final, põe-se a criar e a se re-crear, esteticamente, com linguagens, filosofias, ciências e técnicas. Assim sendo, de maneira genial, bem como de modo mais especial ou experimental, a criatividade tensiona o corpo num estranhamento que é uma das características da cultura. Tão desconcertante quanto uma finta, a criação corpórea dá um drible na afobação do sufoco ou na apatia da indiferença. E quando isso ocorre, só de brincadeira, pela simples gratificação do prazer, a linguagem, a filosofia, a ciência e a técnica estão como que dizendo: se o fim é inevitável, que tal, por enquanto, um pouco de artifício estético?
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Transcrição, quase ipsis litteris, das primeiras páginas do capítulo Qualidade de vida e beleza estética, que escrevi para o livro Qualidade de Vida (complexidade e educação), organizado por Wagner Wey Moreira e publicado pela Papirus Editora (2007, 3ª edição).