27 Abril, 2008

pnêumica da corpoética


Aprendizagem de uma linguagem
Antes de tudo, o corpo: inquilino da natureza, arquiteto da cultura; seqüestra o ar, solta a voz; inspir/ação, expira/som. E quando esse extraordinário oxigenar provoca exclamações de entusiasmo (gravidez do divino), nasce a espiritualidade: excesso fantástico, teimosia imaginativa, plenitude pnêumica.

Se o desejo articula necessidades naturais com imagens culturais, o corpo vive, simbolicamente, suas interrogações e reticências diante da morte. A pesarem perdas, o corpo se espanta; apesar das perdas, o corpo imagina. Selecionando e combinando silêncios de susto com suspiros solenes, o corpo se constrói em linguagem pnêumica, linguagem da espiritualidade, linguagem da surpresa inventiva – fé.

Com a surpresa aprende-se que não se apreende todo o mistério; quando muito, inventa-se jeitos & gestos para neles balançar vida-e-morte, sonho-e-saudade, desejos-e-desejos. Essa surpresa inventiva reúne diferenças e oposições sem excludências; é linguagem da perplexidade, da criatividade; não cabe em reduções dogmáticas. Por isso, a pnêumica prefere métodos um tanto anárquicos; afinal, não se sabe bem de onde o sopro (pneuma) chega e nem pra onde vai. Seu poder está no vazio, na falta, no ausente.

A propósito, a linguagem pnêumica acontece onde o insólito e o mágico da poesia tornam mais densos casos e coisas que o corpo encara e encarna no cotidiano. Tomar o trivial e transcender-lhe o sentido, sublinhando a mensagem do desejo na própria coisa ou no próprio caso é pura poesia; é imaginação para além do necessário, do óbvio. A pnêumica, pois, joga com símbolos, dando um sentido diverso às coisas e aos casos; um significado que diverte a condição corpórea. E a poesia torna-se, assim, a melhor expressão da surpresa inventiva. Ou seja, a poesia é o código por excelência da espiritualidade.

Mo(vi)mento de um ajuntamento
No momento em que um corpo se vê num movimento poético e ainda vê outro corpo também entusiasmado por alguma surpresa inventiva, a espiritualidade pode alcançar uma dimensão intercorpórea, comum; é virtual que aconteça, portanto, uma pnêumica comunitária.

Ou seja: por vezes, o corpo que já havia se apercebido como autor/ator de sac(a)ramentos, ao sacar outros corpos também como autores/atores culturais de revestimentos sagrados, aventa a oportunidade para celebrações coletivas. Corpos semelhantemente entusiasmados, então, se ajuntam e se ajudam para novas representações das surpresas inventadas. E nesse recrear, criam-se outros e infinitos recursos lúdico-simbólico-pnêumicos.

Convém supor, entretanto, que o valor do sac(a)ramento é punctual; vale como referência específica e única de uma fisgada, sendo sua repetição, plena e absoluta, impossível. Para que o mesmo rito seja outra vez celebrado com propriedade, convenientemente, algo novo (outra vez inventivo) deve garantir sua qualidade pnêumica. Mesmidade não é o mesmo que mesmice.

Por ser um jogo, o sac(a)ramento tem a graça da gratuidade; não funciona como mediação para algum fim. O sac(a)ramento corpóreo e/ou intercorpóreo tem o gosto do prazer. E prazer só é prazer enquanto acontece. Portanto, espiritualidade num mo(vi)mento de ajuntamento é essa contaminação de corpos cheios de graça, charme... seduzindo e se deixando seduzir pela fantasia que entusiasma.

Sinal de uma pastoral
Um corpo apascenta outro corpo a partir do que já pastou. Pastorear é re-parTir algum entusiasmo desde a legitimidade da experiência pnêumica: experiência da inspiração, da fantasia, da festa, da vida... experiência da expiração, da expiação, da perda, da morte... experiência que sabe o sabor do gozo e do nó no gogó, da alegria e da angústia, das axilas alagadas de êxtase e das íris secas pelas insônias.

Sendo a graça desgraça superada, só depois da crise é que se crisma o carisma pastoral: uma graça que custa, um dom pago pelo próprio corpo, uma competência para a simpatia desde o repulsivo absorvido, um charme de cicatrizes, uma cara nova na curva da ruga. Ousadia arteira num abraço tenro e terno.

Esse carisma pastoral é signo, símbolo de uma espiritualidade específica; é cari(s)dade; é o lúcido e o lúdico carnavalizando lágrimas-e-lâminas. Cari(s)dade pnêumica é o corpo solitário-e-solidário a dividir pastoralmente seu mo(vi)mento de te(n)são. Essa cari(s)dade é um quê de sábadomingo em plena quarta-feira!

Mas, afinal, o que propõe o cari(s)ma pnêumico? Qual sua mensagem? Anuncia o ser feliz ou o ser infeliz? Nem uma coisa nem outra, porque a cari(s)dade não acredita em maniqueísmos. Compartilha, então, o ser feliz-infeliz? Também não, pois o que fica apenas justaposto não corresponde à indeterminação última do complexo duelo/dueto vida/morte. A cari(s)dade pnêumico-pastoral, porém, poderá reconhecer, então, o ser (in)feliz! E, daí, numa interpenetração chorocharmosa, talvez ainda careça traduzir o inefável do estar IN(FE'L)LÜZ.
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ps. como sugestão para outras abordagens, visitar http://www.pneumica.com/
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22 Abril, 2008

diagrama da corpoética


...................................transtópica.no mo(vi)mento
corpoética..modalidade......filosófica....como saber/sabor
.................................lúdica.......no mosaico-moleque

...............................do soma.nas peles da físico-bio-química
corpoética.complexidade.da psique.nos pelos do desejo e do perder
.............................do pneuma.nos poros do ânimo mito-poético

..............................pontual.com tangências entre bios e necros
corpoética.peculiaridade.pessoal.com seduções entre eros e tanatos
..............................punctual.com fantasias entre zoé e hades

...............................prática......nas lareiras da economia
corpoética.historicidade..conflitiva......nas praças da política
..............................semiótica.......nas redes da cultura

..............................de valores......sob controle da razão
corpoética.possibilidade..de voleios....no improviso da emoção
...............................de vazios..para estímulo da imaginação

.................................genial..............no talento
corpoética..criatividade....especial...........pela técnica
.............................experimental........com te(n)são

18 Abril, 2008

mo(vi)mentos da corpoética

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Em primeiro lugar, tenho por pressuposto perspectivo o corpo. Em segundo lugar, faço de corpoética o rosto denominativo do paradigma conceitual que estrutura minha reflexão sobre o real corpóreo em suas qualidades complexas, peculiares, históricas, possíveis e criativas. Em terceiro lugar, sinto na corpoética um gosto operativo semioticamente móbil, mosaico, meio na molecagem..., que me atenta a flagrar (por isso digo que vi, entre parênteses) os momentos e movimentos tensos e cheios de tesão da corporeidade.

Explicando um pouco mais, corpoética guarda em si outras palavras, como se fosse uma espécie de valise estética, condensadora de vocábulos e vértices. Nela encontro corpo (complexidade), cor (peculiaridade), pó (historicidade), ética (possibilidade) e poética (criatividade)... sendo que cada um destes ângulos e arranjos tem seu significado específico em relação ao sentido arbitrariamente paradigmático (modalidade) do vórtice corpoética.

Isto posto, começo afirmando que um complexo trânsito atravessa o que se chama corpo. Uma dimensão material físico-bio-química estabelece sinapses evolutivas e sutis, gerando contatos, conexões e conflitos de linguagens eco-sócio-culturais. Essa dimensão material, que abarca o instintivo e o intelectivo, cruza com uma dimensão emocional que não se esgota em seu caráter de suscetibilidade. Desejos, prazeres e frustrações percorrem e promovem imprevisíveis provocações à dimensão espiritual. Esta, correspondendo à surpresa inventiva da imaginação corpórea, num processo mito-poético, transforma fôlego em alma, hálito em espírito. Nessa complexidade envolvendo matéria, emoção e espírito, o intercorpóreo vai inventando e inventariando a existência.

É evidente, admito, que o corpo nem sempre nomeia a si mesmo como aqui e agora acabo de fazer, tão limitada, discutível e ligeiramente. Assim, acho necessário revestir com devidas aspas materialidade (soma), emotividade (psique) e espiritualidade (pneuma) acima referidas. Além disso, é mister sublinhar que estas dimensões não se separam, não se excluem nem se sucedem no movimento tenso da existência corpórea; compõem uma mesma complexidade (em dimensões interligadas, inclusivas e simultâneas). E, portanto, qualquer definição ou consideração sobre a existência precisa levar em conta, no mínimo, essa complexa tríade somático-psíquico-pnêumica.

Dentro dessa complexidade corpórea e intercorpórea, habitando os planaltos do que é instigante, hospedando-se nos pântanos das impressões e passeando pelas praias da perplexidade..., a carne, o desejo e os signos constituem o corpo conforme as estações da história. O corpo é pó, é chão, é barro (molhado pelo berro do húmus social). É um feixe de fatores fornecidos pela terra e temperados pelas intempéries das sete manhãs. O corpo é sua historicidade. Na história de sua casa (lareira da economia) está a intercorporeidade de seu pão. Na história de sua cidade (praça da política) está a intercorporeidade de seu contrato. Na história de sua palavra (semente da cultura) está a intercorporeidade de seu espetáculo. A existência corpórea é devida à história da intercorporeidade no espaço cotidiano – onde e quando cada corpo é açoitado por suas vésperas e encantado com suas bússolas.

A historicidade do corpo também lhe confere balizas para seu percurso. Situado e lançado pela vereda que tende sempre para seu irreversível termo (a morte), o corpo deseja lograr a natureza - essa coisa encantadora e inexoravelmente propensa ao crepúsculo. Por meio dos mais contraditórios jogos que a cultura lhe permite, o corpo constrói seu pão e consome seu circo. É a sapiência e a demência, igualmente imprescindíveis, num balanço de equilíbrio precário e provisório sempre.

A propósito, defendo que a existência corpórea não é predicado sem objeto empírico. Nesse caso, rejeito a hipótese de uma existência atribuída a uma generalização designada “corpo”, como se o corpo pudesse ser tão somente abstração - o que não significa que a corporeidade não viva sua abstração, por sinal, bem mais concreta do que se imagina. Com efeito, apenas digo que só existe o corpo que obriga minha escrita sobre ele prestar atenção à sua concretude singular... Noutros termos, repito, sem medo de erro, que cada corpo existe como corpo graças às dádivas, dívidas e dúvidas que dividem seu dia-a-dia com senhas e sonhos intransferíveis, irrepetíveis, intraduzíveis. Por isso, corpo só é corpo por ser corpo com vida, corpo com uma qualidade particular e individualmente única de momentos e movimentos de te(n)são. Afirmo, abdutivo, a essa altura dos meus dias fe’l-lüz-mente acumulados, que a morte de um corpo é o fim absoluto desse corpo, desse corpo entendido como complexidade, historicidade, peculiaridade, possibilidade e criatividade. Se, depois de morto, outros corpos dele se lembram, por ele suspiram, dele falam..., a vida destes outros corpos vivos é que, metaforicamente re-suscita, ergue de novo, re-anima aquele corpo morto. Essa imortalidade (palavra que me soa como licença poética) efetiva-se de diversas maneiras, mas nunca mais como corpo mesmo, como corpo vivo. Nesse caso, portanto, a imortalidade acontece como memória psico-social dos ainda-vivos..., acontece como cultura que transcende aquele que vivia – agora ressurrecto, imortalizado em suas letras, ciências e artes. Enfim, ao dizer corpo vivo, gostaria de contar com algum abono por meu intuito pedagógico; senão, reconheço o pleonasmo.

Sendo verdade que a história de uma corporeidade específica serve de referência e condição para os corpos a ela relacionados, também é verdade que cada corpo vive sua história de modo absolutamente original. Em que pese as padronizações dos estereótipos, não há, sequer, dois corpos iguais. Nem mesmo os corpos que se identificam na economia ou na política ou na cultura são iguais. Nem mesmo os gêmeos idênticos são iguais, a começar pelos diferentes nomes que recebem e pelas diferenças com que nomeiam o mundo.

A individualidade do corpo é sua cor, sua peculiaridade, sua qualidade única. Cada corpo é e vive seu colorido pontual, seu jeito diferenciado de ser essa massa somática que se mexe entre bios e necros, entre vida e morte tangíveis. Mas também, cada corpo é e vive seu colorido pessoal, sua maneira inédita de usar essa máscara (pessoa/persona) psico-representativa que se insinua entre eros e tanatos, entre vida e morte sedutoras. E cada corpo é e vive, ainda, seu colorido punctual, seu modo irrepetível de sofrer essa fisgada da paixão última do pneuma que se revolve entre zoe e hades, entre vida e morte imaginárias.

Desviando-me num breve devaneio, penso que, talvez, a peculiaridade do corpo tenha seu registro qualitativo privilegiado no umbigo. Salvo melhor julgamento, não existe representação mais própria que o umbigo para o pontual/pessoal/punctual do corpo. O umbigo é essa marca contraditória de continuidade-ruptura: ele é índice de um conduto que, durante um tempo ligou mãe e embrião. Tocar no umbigo é contatar um passado, quem sabe uma saudade; algo de que se separou por conta de um corte. Além disso, o umbigo é uma área que polariza emoções bem no centro do corpo. Parece que os sentimentos se convergem e se divergem em torno desse pequeno e profundo pólo de pele sem pelos. Como resistir às cosquinhas nessa cicatriz, ainda mais num apelo psico-social em que ela é um ícone de prazeres! Tudo isso sem contar que o umbigo é um convite à fé, à teimosia do entusiasmo. Afinal, se foi arriscado romper a segurança pretérita materna..., se o futuro dependeu dessa aposta lançada sem consulta ao próprio neonato..., se a experiência de gozo nele é apenas aperitivo..., o umbigo é ainda sacramento: um símbolo indelével, um meio de graça, uma inspiração para o corpóreo insistir teimosamente em se tornar aquela nova criança, revivendo a plenitude sonhada no útero da alegria. Concluindo esse desvio, em malandra consideração às sílabas que me dominam nessa nossa língua, repito para destaque: corpo, além de ser pó, é, antes, cor. Cor cortejada pelos recortes do coração - coisas que o corpo conhece de cor. Assim, cada corpo é um conjunto de fragmentos cromáticos a girar em molduras naturais, dentro dos suportes historicamente desenhados pelo próprio corpo em tangências intercorpóreas. E, dependendo do ângulo que olha... e do movimento que opera, o corpo vê belezas, compõe uma estética, cria uma espécie de caleidoscópio. Quanto mais cacos coloridos, maior a densidade do espe(tá)culo: a variedade com que, técnica e artisticamente, se espelha e se espalha o acaso circunscrito.

Voltando ao paradigma corpoética, como que no fundo dessa mochila há uma alusão à possibilidade de conduta desenvolvida pelo corpo (possibilidade aqui entra como sinônimo de liberdade, no sentido de prerrogativa moral, relacionada ao âmbito ético). Às vezes, racionalmente, um valor fundado no chão da história serve de apoio para os passos corpóreos. Assim procedendo, uma ética mais próxima ao controle se afirma. E, como sempre, o controle tem suas virtudes e seus vícios. Outras vezes, o corpo não leva em consideração qualquer valor e sua atitude mais parece um lance de voleio: nem se espera a bola dos fatos bater no solo da razão e já se rebate emocionalmente, sem-pulo... podendo (ou não) haver sucesso no desdobramento da jogada. E além dos valores e dos voleios, vezes há em que o vazio envolve o corpo. Daí, com sua fantasia imaginativa, a corporeidade vai tentando conviver consigo e com tudo e todos diante do mistério. Imitando, ignorando ou inventando nomes e normas exclamativas para lidar com o mistério, o certo é que o corpo se move e se comove, também e ainda, segundo suas mais profundas interrogações e reticências. E, em sobrando um silêncio ou um sussurro ante o inexprimível vazio, o espírito corpóreo geme e gesticula sua angústia e seu êxtase.

Devo, então, relembrar um detalhe que há pouco mencionei. Noutras palavras, é a morte que motiva a maravilha, é a falha que fomenta a festa, é a perda que produz a poesia. Ou seja, porque o corpo sabe, sente e sofre com a tendência de tudo ter um final, põe-se a criar e a se re-crear, esteticamente, com linguagens, filosofias, ciências e técnicas. Assim sendo, de maneira genial, bem como de modo mais especial ou experimental, a criatividade tensiona o corpo num estranhamento que é uma das características da cultura. Tão desconcertante quanto uma finta, a criação corpórea dá um drible na afobação do sufoco ou na apatia da indiferença. E quando isso ocorre, só de brincadeira, pela simples gratificação do prazer, a linguagem, a filosofia, a ciência e a técnica estão como que dizendo: se o fim é inevitável, que tal, por enquanto, um pouco de artifício estético?
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Transcrição, quase ipsis litteris, das primeiras páginas do capítulo Qualidade de vida e beleza estética, que escrevi para o livro Qualidade de Vida (complexidade e educação), organizado por Wagner Wey Moreira e publicado pela Papirus Editora (2007, 3ª edição).

17 Abril, 2008

história da corpoética

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Em 1981 concluí os créditos do programa de mestrado em Educação na UNIMEP e estava sem projeto para apresentar uma dissertação. Tranquei a matrícula, procurando delimitar e organizar alguma temática, enquanto meu subconsciente trabalhava pelos meandros da distração. Aproximadamente um ano depois, lavando louça na cozinha de casa, tive uma idéia (quase que completa) de construir uma monografia/dissertação que veio a ser defendida em 29/06/1984 com o título: Caminhando para a libertação (re-flexões do corpo oprimido), sob orientação do Prof. Dr. Roberto Aguiar. Dentro da discussão que desenvolvi sobre a corporeidade estava um capítulo que denunciava o racismo e nesse inseri o texto Confissões de um branco, onde aparecia a palavra cor-pó-ética. Fazia parte da banca Hugo Assmann que, além de amigo, já havia me estimulado a escrever e a traduzir outras obras que também vieram a ser publicadas. Pois bem, Hugo chamou nosso amigo comum, Rubem Alves, e cada um escreveu uma carta às Edições Paulinas, insistindo na publicação de minha monografia que, então, passou a ter como título: CORPOÉTICA (cosquinhas filosóficas no umbigo da utopia). A publicação se efetivou em 1988.

Ao longo da década de 1990, para atender diversos compromissos, fui me valendo do CORPOÉTICA buscando sempre sistematizar os conceitos nele embutidos numa tradução mais sintética e adensada. Assim, em 2001 publiquei um capítulo na obra organizada por Wagner W. Moreira, Qualidade de vida (complexidade e educação). Nessa oportunidade, o capítulo recebeu o título: Qualidade de vida e beleza estética e já no primeiro parágrafo eu avisava que achava cabível um sub-título: mo(vi)mentos de te(n)são da corpoética. Com efeito, esse capítulo era o que melhor eu havia produzido, até então, sobre corporeidade no sentido mais sistêmico da CORPOÉTICA.

16 Abril, 2008

gênese da corpoética

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Em 1982, próximo às celebrações do dia da abolição dos escravos no Brasil (13 de maio) e dentro das atividades da Pastoral Universitária da UNIMEP, escrevi um texto, publicado e distribuído no âmbito dessa Instituição:

CONFISSÕES DE UM BRANCO

Além de tardia, a intenção isabelina não conseguiu libertar-me de in-certos temores; o medo do negro continua em mim – confinado nos signos do sufoco que lhe dedico e no silêncio das sublimações que me castigam.

Além da ironia ou por um mea culpa mal resolvido, vejo o 1888 (constante na lavra-dura daquela lei que ainda contém uma áurea ambigüidade) como insólito e ignóbil disfarce ou como uma cicatriz atroz: na casa do milhar (só pra humilhar) um pelourinho a escorar uma centena de algemas.

Além da alforria, às vezes sou um brancóide que insiste em nojentas discriminações à pigmentação dos corpos. Num racismo acorrentado a fatores que também dicotomizam pela grana & pela fama, procuro corrigir a estória da história e, pontuando minhas idiossincrasias, afirmo: nego que te quero, negro.

Além da folia, às vezes sou um branquicela dopado pela ingenuidade idealista. Teimo radicalizar o ser social, desmaterializando-o. Ensaio e ensejo só a essência. Teorizo que o corpo se ressume na pessoa. E como esse conceito de pessoa não comporta o conceito cor, ao querer suprimir o preconceito acabo anulando a colorida-e-cultural concretude corpórea. Nessa estória de descolorir (... que é uma ideologia histórica) decreto, pensando ser poeta, a abolição da vírgula, ao pontificar: nego que te quero negro.

Além da antinomia entre o brancóide e o branquicela, a terra treme. E das empoeiradas cinzas ouço um profeta re-clamar: brancos de todo o mundo, puní-vos! Resgata-se a cor. Transpõe-se o pó. Liberta-se a ética. Corporifica-se a poética. Cor-pó-ética. Com esperanças, então, percebo brechas por onde podem emergir sínteses superadoras. E munido com a autocrítica que se me impõe, escapo da equivocada pretensão de, sozinho (como branco), tentar atualizar a utopia da felicidade policromática. Assim sendo, virgulando as ideologias, negando as negações, abolindo as estórias, revolucionando as posições dos termos históricos, acentuando com ternura o que fora opressora expressão... hei de dizer um dia: nego negro, te quero!