23 Junho, 2008

humorte da corpoética


Em meados de dezembro de 1993 defendo minha tese* que depois se transforma na publicação HUMORTE - cosquinhas semióticas no umbigo da entropia.** Por suas folhas, tento mostrar algumas falhas que acabam me fazendo mais feliz. Não são folhas/falhas tranqüilas, calmas; porém filhas da tensão - bem do jeito que pode ser concebida a felicidade. Num tom grávido de vozes e de vazios, comparecem palavras e pontuações como divertimentos entre o nada e o fim. Ou seja, o novo nascido do nulo traduz um interesse pelas relações que envolvem os signos do-que-se-acaba (no paradigma da morte) e os signos do-que-se-faz (no paradigma do humor). Pois, afinal, entendo que tudo é feito porque tudo acaba.

Em todo caso, para evitar expectativas que não pretendo contemplar, sublinho que passeio pelas páginas de HUMORTE não em torno da morte e/ou ao redor do humor. O que me atrai é uma espécie de mo(vi)mento de te(n)são entre morte e humor. Imagino que a perda e a alegria não se excluem e nem se resolvem numa síntese resignada. A graça do humor se afirma bem no lúdico-meio-lúcido que subscreve uma aposta ciente de seus limites; em especial, o limite morte que a tudo ceifa. Essa tensão designa, portanto, a complexidade e a multiplicidade do que chamamos cultura.

Em outros termos, HUMORTE é um exercício abdutivo; uma textura sobre uma hipótese, formulada diante de uma perspectiva da tensão que se move entre os momentos de perda e ganho, preço e graça, extinção e criação. Assim, esse caráter hipotético do discurso muito se parece consoante ao que emerge do instintivo hi-patético da corpoética, podendo, depois, ser aportado o rigor que se atraca (ou não) no racional.

Em tempo, a respeito da felicidade que me referi há pouco, trata-se de uma felicidade a partir do pior, de uma praga reinventada a prego na prega umbilical das seduções. Aliás, há umbigo no umbigo dessa logo-valise humorte. HUMORTE prende a perda alargando a alegria. No paradoxo do signo, a vogal aberta do significante mOrte (cujo significado supõe fechamento) vem imbricada com a vogal fechada do significante humOr (cujo significado sugere abertura). Daí, não ser uma alegria fácil, dócil, fútil; mas, pelo menos, aquela que é, conforme a aritmética de Oswald de Andrade, a prova dos nove. E, pode ser que dos noves-fora resulte zero - um outro umbigo.

Em suma, HUMORTE joga com possibilidades que compõem um caleidoscópio para uma estética da recepção que batizei como hedonisiacagem: uma hermenêutica em mo(vi)mento de te(n)são, com fragmentos móbiles, dionisiacamente embalados pelo suporte hedônico-hipotético na molecagem da linguagem.
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* Tese aprovada no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Na banca examinadora estavam Amálio Pinheiro (orientador), Norval Baitello, Arlindo Machado, John Dawsey e Rubem Alves.
** Editora Unimep, Piracicaba (SP), 2001.