25 Janeiro, 2010
22 Janeiro, 2010
corpoética e benefício da dúvida
Como já foi referido noutras postagens, em seu arranjo sistêmico corpoética inclui uma imprescindível atenção voltada para a peculiaridade de cada corpo. Nesse aspecto se reconhece o que há de inédito como cor de cada corpo - tanto no colorido somático e psíquico, quanto no coração emocional e cultural.
Cor representa, assim, aquilo que é sui generis, inescapavelmente único de cada corpo. Aliás, nem mesmo gêmeos univitelinos são iguais como complexidades corpóreas. Portanto, cabe perguntar se são conceitos razoáveis igualdade e indistinção entre os corpos em sua concretude histórica.
Lógico que para se constituir e se conservar, a sociedade humana pressupõe um mínimo de direitos e deveres comuns (iguais e sem distinção), com cláusulas coercitivas, cominativas e corretivas. Desse contrato social (sob controle de um Estado) não há como fugir, senão pela via mais correta, superior e utópica da anarquia (ausência de dominação) que, por enquanto, é projeto pouco factível e menos ainda factual.
Por outro ângulo, sem desconsiderar os dispositivos do Estado (inegavelmente também produção corpoética) e pelos escaninhos do cotidiano em que poderes apodrecem ilusões e suscitam poesias, a peculiaridade corpórea seduz uma eventual ética do benefício da dúvida. Com certeza, também nesse caso, uma valoração construída pelos corpos na informalidade dos domicílios e na trivialidade das esquinas afirma que in dubio pro reo, ou seja: ao outro-corpo-sob-juízo é concedido um crédito preliminar que suspende momentaneamente convicções e critérios balizadores de acusações e condenações.
Ainda que haja muitos riscos e prejuízos na aplicação do benefício da dúvida no dia-a-dia, algumas conquistas também ocorrem. Uma delas é o controle do stress, pois a subjetividade e a intersubjetividade corpóreas mantêm a tensão emocional em patamares mais administráveis durante a vigência desse benefício. Também é conquista importante nesse caso o reconhecimento da relatividade cultural das valorações, o que traz à moderação dos contrastes e conflitos intercorpóreos a presença determinante da tolerância. O benefício da dúvida ainda significa conquista pela oportunidade de revisão e possível confirmação dos valores, então sob condições mais objetivas, mais próximas da frágil isenção desejada, resultando, portanto, em valores mais críticos e amadurecidos.
29 Dezembro, 2009
28 Dezembro, 2009
corpoética e os prazos de validade
Excetuados acidentes repentinos, os corpos decidem sobre os prazos de validade para a própria existência conforme valores culturais (com perdão do pleonasmo). Cada corpo ou escolhe tomar para si a responsabilidade de indicar o término de seu tempo de viver ou assume transferir para outrem a definição do lapso temporal de sua existência. Assim, entre autonomia e heteronomia oscilam valores e seus desdobramentos. E não há como negar a complexa tensão angústia/coragem tanto nas autênticas quanto nas alheias valorações.
Nesse contexto, estruturas sócio-psíquicas formatam almas que disciplinam a corporeidade (lembrando Foucault) e sustentam práticas alienadas ou criativas, conforme prevalência de ênfases heterônimas ou autônomas. Aliás, cada possibilidade corpoética co-responde ao menor ou ao maior grau de trapaça salutar diante da existência (lembrando Barthes). Noutros termos, é possível justificar o viver poeticamente, inventando artifícios que traduzem-e-traem os fatos, numa interpretação redutora e, quiçá, transvalorativa e legitimante (lembrando Nietzsche).
Em suma, as nuances quanto aos prazos de validade (... repito, excetuados os acidentes repentinos e conforme valores culturais) subsidiam aos corpos jeitos de expirar. Dentre algumas variantes corpoéticas, um é o prazo geralmente pautado em respeito aos processos naturais; outro é o prazo subordinado às ambíguas assistências científico-tecnológicas procrastinadoras; também podem ser opção de prazo as vantagens oriundas de recursos facilitadores da eutanásia; ou ainda cabe como limite de prazo o êxito por alguma saída suicida. Qualquer juízo de valor sobre tais (e outras) modalidades deveria ser considerado fenomenologicamente, ou seja, dever-se-ia fazer eventual juízo a partir de critérios criados e cultivados pela própria alternativa sob julgamento.
30 Novembro, 2009
29 Novembro, 2009
momentos da corpoética
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Na primeira vez apenas nos enxergamos
foi uma sensação, uma experiência intraduzível.
Depois nos olhamos
e começamos a nos perceber
como convém aos que ultrapassam os envelopes
e adentram na pele das palavras - essas vestimentas das pessoas.
No futuro provavelmente nos veremos
com tanta intimidade que até na nudez do silêncio trocaremos segredos.
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31 Outubro, 2009
30 Outubro, 2009
viver e morrer, segundo a corpoética
Como paradigma conceitual que estrutura minha reflexão sobre o corpóreo em suas qualidades complexas, peculiares, históricas, possíveis e criativas, corpoética é um modelo de análise em que binômios viver/morrer e vida/morte têm estatuto de objeto para conhecimento especulativo. Na base desse exercício gnosiológico está a tensão entre tempo e temporalidade, sendo que ambos se constituem reciprocamente, cada qual em dimensão específica, porém conjugada.
Viver e morrer estão, a priori, na categoria do tempo; vida e morte, pela linguagem, estão na temporalidade. Óbvio que a condição corpórea está inegável e irreversivelmente relacionada tanto ao tempo quanto à temporalidade. A separação destes apenas se constata na verbalização do artifício abstrato. De qualquer modo, parece apropriado supor (no mínimo) que diferentes qualificações sobre o que possam "ser" vida e morte se desdobram em diferentes formas efetivas de viver e morrer.
Também é evidente que noções/idéias/conceitos (de vida e de morte) sobre o viver e o morrer são sentidos/significações, ainda que diversos, sobremodo abrangentes. Viver não tem sentido intrínseco. Morrer idem. Vida não existe; é apenas uma abstração e pode vir a ser referente de um sentido criado para o viver. Morte não existe também; é outra abstração e pode ser referente de um sentido criado diante do morrer dos outros e antes do próprio. E talvez sejam raras exceções (ou talvez nem existam) os corpos desprovidos de elementos abstratos forjadores de sentido/significação para si mesmos e para outros corpos.
Assim, simplificando um pouco, viver difere de vida, bem como morrer se distingue de morte. Viver e morrer se referem a fatores, fatos e fenômenos; vida e morte são interpretações. Viver e morrer ocorrem na concretude da existência; vida e morte são composições a partir de valores imaginários de corpos vivos. As ciências cuidam basicamente do viver e do morrer. De maneira distinta, muitas filosofias e todas religiões se interessam prioritariamente pela vida e pela morte.
Outro detalhe importante é que morrer e morte se contaminam, assim como viver e vida também se confundem. Mais ainda, cruzando acepções, viver sofre assédio da morte tanto quanto morrer é atentado pela vida. Ou, curto e grosso, noutra expressão indicativa do que tem sido na cultura hegemônica bastante comum e, a meu juízo, sobremodo discutível: viver apenas por conta da vida é culpa da morte que impede morrer.
30 Setembro, 2009
29 Setembro, 2009
obstáculos na emoção corpoética
Por entre caminhos naturais e culturais, muitos obstáculos comprometem a emoção corpoética com sutis artifícios, quase imperceptíveis. São obstáculos dotados de versáteis recursos camaleônicos, afeitos a camuflagens. A grande e nefasta importância desses obstáculos decorre justamente por funcionarem contra a corporeidade enquanto sugerem defende-la. Custoso serem desmascarados. Identificá-los e contorna-los requer perspicácia e coragem. Qualquer resquício de ingênua e obtusa timidez conserva esses obstáculos velados e eficazes.
Numa de suas versões, os obstáculos se constituem como filtros através dos quais o corpo pende a interpretar fatos e pessoas, segundo acentuada redução subjetivista. Para além da parcela de hostilidade inerente à vida, essa corpoética emocionalmente tendenciosa insiste na hermenêutica baseada numa perspectiva conspiratória: re-significa fatos e pessoas que desagradam como se fossem fatos e pessoas com intenções provocativas e atentatórias: aquilo que seria um problema em-si é redimensionado como sendo um contra-si. Com isso fica sempre faltando o benefício da dúvida.
Noutra de suas versões, os obstáculos resultam de traumas não submetidos a crivo e critério mais trágico. Subsiste uma dramaticidade emotiva voluntariosa e de teimosias crédulas: os desencantos sofridos desembocam no ressentimento e não na constatação do inexorável. Assim, sobrevive como déficit não-reconhecer a corrupção fundamental, o pútrido corpóreo sem disfarces e sem saídas. Essa emoção corpoética estéril não consegue apelar para uma perplexidade generosa e talvez cínica (que evitaria a vingança inócua por via de uma variante desesperada-e-recreativa). Afinal, eventuais lenitivos corpoéticos são aqueles que compõem com argúcia e arte uma segunda pele sobre as misérias dos substratos terríveis da existência.
Noutra de suas versões, obstáculos na emoção corpoética se nutrem da desconfiança amarga – recorrência da situação em que mágoas (em tese, justificáveis) não lograram algum tipo de superação. Assim, desconfiar sempre é o mesmo que sempre estar longe da entrega confiante (sem dúvida, perigosa e frágil). Daí parece que soa mais seguro uma mentira que precisará de outra e de mais outra numa sustentabilidade forjadora de inautênticas máscaras emocionais – personificações da má-fé, redutos de uma pseudodefesa. Com efeito, essa aderência à mentira aprisiona tal corpoética no pântano pegajoso da dissimulação, mediando o medo à vazante.
Outra versão desses obstáculos diz respeito à resistência corpoética para aceitar, apoiar e aplaudir entes queridos felizes sem sua direta iniciativa, intervenção e influência. Nesse âmbito mais íntimo, a corporeidade emocionalmente desequilibrada imagina que a alegria de quem ama deveria estar sob seu poder, controle e monopólio. Um egoísmo exacerbado pontua, com ironias ou cobranças, reações às experiências felizes de amigos e familiares. Esses, então, dado o risco de serem incompreendidos e desqualificados, se sentem tolhidos e reticentes para compartir seus legítimos prazeres.
Ainda outra versão destes obstáculos dá conta da suspeita autocomiserativa. A imagem que a corporeidade constrói de si nesse caso é próxima de alguém que carece de atenções, cuidados e zelos. Essa lacuna emocional advinda de feridas não cicatrizadas deixa a referida corpoética exposta a uma fantasia de pessoa não-querida, mal amada. Por mais que seja agraciada (... e ser agraciada é diferente de ser reconhecida pelos méritos) ainda lhe sobra um vazio que clama e reclama por carinho, ternura etc. Daí, um apego exacerbado aos supostos direitos e à alegada justiça serve como feitiço para esse corpo que padece de autoestima emocionalmente imatura. Com efeito, falta-lhe melhor percepção do acaso, do absurdo, da surpresa, do humor, da vulnerabilidade, do mistério.
31 Agosto, 2009
28 Agosto, 2009
sobre o método dialúdico da corpoética
Se bem me lembro, há quinze anos a palavra dialúdica me pareceu apropriada para representar a dialética-em-tensão da corpoética, sem uma Aufhebung hegeliana para resolvê-la. A conotação do neologismo me serviu, desde essa época, como signo para um jeito jocoso do jogo racional. Dialúdica implica assim a absorção do racional beirando a brincadeira poética. Valho-me desta para transbordar aquele, fugindo o quanto posso de cair num irracionalismo irresponsável ou numa porralouquice ingênua. Espécie de fantasia nietzscheana feita de ficção-com-poeira-histórica, dialúdica talvez seja outro modo de dizer aquilo que Lezama Lima chamou eros cognoscente e que Irlemar Chiampi reconhece como indicativo da ligação entre a ciência e o prazer.
A propósito desse legado lógico, metodológico, gnosiológico, epistêmico e ontológico, recordo que a dialética de Hegel que culminava no Espírito Absoluto foi subvertida de maneira diferenciada por Lezama Lima. Ou seja, diante da peculiar relação real-racional apresentada e desenvolvida pelo idealismo de Hegel, o ensaísta e crítico cubano preferia falar em sujeito metafórico – algo imaginado e que produz imagens. Nessa configuração Lezama até provavelmente pudesse dizer que o pecado original é a linguagem – inescapável metáfora. E dela não há salvação. Felizmente! Afinal, livre da verdade última e absoluta, o texto pode exercitar a escritura – única chance verdadeira de se inventar uma corpoética.
Então, apropriando-me de Lezama e condicionado por minhas preferências e implicâncias, sou tentado supor que o sujeito metafórico implica um fazer: a práxis de uma metodologia criativa, um ethos corpoético, uma dialúdica poética que relativiza (inédita e rigorosamente) semelhanças e diferenças. E nessa coisa de criar/recrear/recriar, cultura e história vão sendo... Devir leve, quase leviano, lambendo a linguagem.
29 Julho, 2009
28 Julho, 2009
na corpoética, umbigo é substantivo feminino
... costura o fio da vida só pra poder cortar (Joyce Moreno)
Nossa língua portuguesa (como talvez viesse a dizer o Professor Pasquale) apenas sob rubrica da licença poética abonaria o óbvio equívoco de gramática envolvendo o título desta postagem*. Isso porque, no processo comunicativo, a função que destaca o elemento estético tem permissão de promover um estranhamento intencional cujo resultado acaba dando ênfase ao elemento da mensagem mesma, valorizando-lhe a especificidade. Nesse caso, o emissor erra de propósito para que o receptor, no uso de seu repertório, seja mais interativo na reinterpretação do discurso como um todo.
Se fosse o caso de alterarmos o elemento estranho que toma “o” umbigo como feminino afirmando, então, que deveria ser classificado como substantivo neutro – conforme no idioma inglês, ignorando-o como he or she e chamando-o por it – isso também precisaria ser questionado semioticamente, posto que assim estaríamos camuflando certos elementos indispensáveis. O fato de o umbigo estar tanto no corpo masculino quanto no corpo feminino não o torna indiferente e simplesmente comum aos gêneros.
Em que pese diferença de sexos não definir, de fato, a simples inclusão ou exclusão do umbigo nesta ou naquela figura anatômica, não me sinto autorizado proceder a uma redução indiferenciadora e simplificadora que me prenda apenas à ocorrência do umbigo, descurando daquilo que o umbigo significa como referência. E o que ocorre no umbigo, sem sombra de dúvida, é sempre um referir à mãe. Sua substância de referência é inegavelmente feminina. Ele significa ela.
Adensando um pouco mais, em toda designação a coisa significada não se esgota no significante; um nome (qualquer nome) sempre re-apresenta determinado objeto concreto ou coisa abstrata a que se refere, privilegiando apenas algum aspecto desse objeto ou dessa coisa. Daí, grandeza e miséria naquilo que inventamos: a maravilha de uma linguagem atrelada a impossibilidades e limites inerentes. Com efeito, aquilo a que o umbigo se refere é muito mais que seu nome e seu lugar na gramática.
Assim, além de feminino (por força de referência), o umbigo remete a uma feminilidade que, pela dimensão poética de seu caráter semiótico, ultrapassa bem mais seu paradigma léxico de substantivo masculino. Quem sabe, portanto, em virtude de uma impropriedade gramatical, dizer que na corpoética o umbigo é substantivo feminino acaba contribuindo, às avessas: ajuda a perceber e criticar, pelo menos, uma discutível hegemonia de gênero incrustada em nosso código lingüístico.
(Entre parênteses e apenas à guisa de exemplo um pouco à margem, todos sabemos do imenso ônus machista impregnado em nossas regras para a elaboração do plural; bastando para tanto lembrar que se nove mulheres e um homem vierem a ler esta postagem, no total teremos dez leitores, como se, absurdo dos absurdos, um leitor valesse mais que nove leitoras !!!)
Mas voltando ao tema e admitindo que o umbigo não é neutro, nem substancialmente masculino, desejo expor três ângulos (dentre outros que escapam ou extrapolam) em que “ele” é muito mais feminino do que se chega a supor, amiúde. Como signo sobremodo peculiar, o umbigo registra de maneira qualitativamente privilegiada algumas denotações e conotações que oportunizam ênfases femininas para o pontual, o pessoal e o punctual da corpoética.
Numa perspectiva somática, umbigo é essa contraditória marca pontual de continuidade versus ruptura. Sendo cicatriz, com notável precisão, sublinha o que há de índice feminino nestas pregas de nó. Como índice, guardando uma relação de antecedente/subseqüente, o umbigo é signo da mãe no próprio corpo da prole. A sucessão na secção. Um corte desligando conexões. Interrupção de passagem, o índice do umbigo obriga a relacionar essa parede de agora com uma ponte anterior, quando o caminho estava livre, quando o conduto durante meses foi o único fio de uma complexa simbiose ligando mãe e embrião. O umbigo aponta para si mesmo como resto de um cordão de continuidade, pela via feminina – naturalmente única. E justo pelo que era, o umbigo se torna também, por contradição necessária e vital para a mãe (muito mais que para o feto) indicativo de uma ruptura nessa função feminina não só exclusiva quanto a maternidade, como também exclusiva para uma gestação específica. O umbigo, portanto, sucede essa simbiose per-feita, essa conexão original/originária/originada. Tocar no umbigo é recontatar algo de que se separou por conta de um primeiro corte; é, com toda certeza, retocar um passado feminino e, quem sabe, até uma saudade absoluta.
Numa perspectiva psíquica, umbigo é uma área que polariza emoções bem no centro do âmbito pessoal corpóreo. Sentimentos se convertem e se divertem em torno desse ícone de prazeres, desse pequeno pólo de pele sem pelos. Por feliz coincidência, o feminino de todo umbigo está em sua iconicidade, em seu aspecto de espaço vazio, em sua abertura sedutora e aconchegante, pro-vocando bolinagens várias. Aliás, não é sem destaque que constatamos a evolução semântica do étimo umbigo. Tratando-se originalmente do diminutivo de umbo – termo latino significando protuberância (que sugere até uma alusão ao clitóris) – passa depois a denotar seu contrário, ou seja, cova (que pode insinuar vagina e útero). Desta imagem de ausência (cavidade, caverna, buraco), representando algum ambiente propício para acolher e re-crear, depreendo aquilo que a sedução do umbigo comporta de feminilidade maior: a arte da moldagem – que faz, no interno e pelo avesso, coisas, casos, causos... Assim, no vazio do umbigo, em sua ausência constitutiva, se presentifica uma feminilidade.
Numa perspectiva pnêumica, umbigo é um convite à fé, ao ris(c)o do entusiasmo, à fisgada punctual da espiritualidade corpórea. E esse punctum funciona como símbolo; tipo de acupuntura que acaba mediando ser e existir. Através de símbolos sabemos/sentimos/sonhamos; existimos, além de sermos isso ou aquilo. Todo símbolo é uma espécie de virtualização (... uma aliança no dedo de quem ama re-põe virtualmente a pessoa amada). Assim também o anel umbilical: ao simbolizar o corpo da mãe também virtualiza, repõe sua maternidade. E independente de juízos de valor, o símbolo da maternidade no umbigo é sempre signo/sinônimo de nova re-novação da vida. Por meio do umbigo como símbolo religamos na corporeidade physis e mythos, natura e cultura. Sem umbigo e sem símbolo nosso existir se extingue. Em suma, se o arriscado romper com a segurança pretérita é exigência feminina, o umbigo é relíquia e sacramento, meio de graça, inspiração para o espírito corpóreo insistir teimosamente em se tornar sempre aquela criança nova que, no útero da fé, revive o sonho da plenitude femininamente eterna.
Noutras palavras, conforme os recortes de nossa anatomia e de bem com as opções de nosso erotismo, podemos recuperar instâncias de nossa feminilidade no desvelamento e no mistério do umbigo e, quiçá, melhor assumi-la sem falsos pudores ou nocivas arrogâncias que só nos imbecilizam em reducionismos machistas e/ou generalidades feminiscóides. Até quando, pergunto, seremos presas dessas ideologias que nos afastam de nós mesmos, separando-nos de nossa constituição e invenção corpóreas? Até quando abriremos mão de nos reencontrarmos umbilicalmente ligados às nossas inegáveis origens e melhores possibilidades? Até quando a feminilidade nossa de cada dia ficará alienada, bem no umbigo de nós mesmos, conspirando contra nossa corpoética? Por fim e sem pretensões conclusivas, admito que responder estas questões é desafio constante e coletivo. Também suponho que a feminilidade do umbigo instiga incontáveis mo(vi)mentos de te(n)são entre as dimensões somáticas, psíquicas e pnêumicas do corpóreo. E aposto, ainda, que a corpoética está destinada a se encontrar no umbigo, a se superar com o umbigo, a se salvar pelo umbigo.
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* Postagem elaborada a partir de publicação na Revista Tempo e Presença, nº 322; Rio de Janeiro: Koinonia, 2002.
30 Junho, 2009
29 Junho, 2009
Carlitos, corpoética e a ideologia do guardanapo
Dentre as obras-primas do fabuloso Charles Chaplin, uma película toca em especial a questão da corpoética e o poder ideológico no contexto do sistema capitalista. Trata-se do filme produzido em 1936: Tempos Modernos. Personagem carismático, Carlitos aparece inicialmente trabalhando numa fábrica sem que nos seja informado seu produto final. Assim, como Carlitos, permanecemos alienados. Ademais, nessa fita cinematográfica exemplar, em meio a outras, também há seqüências - como as editadas dos nove aos treze minutos - que ironizam a ideologia que preside a eficácia capitalista no processo industrial que violenta a corporeidade.
O ambiente na referida cena é uma fábrica testando um lunch service automático junto a sua linha de produção. Diante de uma esteira rolante está o lírico e desajustado Carlitos, então como cobaia na experiência com o tal aparelho para almoço. Acoplada à parafernália eletromecânica está uma bandeja giratória dotada de um programa que providencia alimentos (sopa, barras de proteínas, milho cozido e sobremesa) diretamente para a boca de Carlitos. E pretendendo que o serviço de abastecimento para o corpo resulte mais adequado, o invento de um fantástico J.W. Bellows também está equipado com um guardanapo que cumpre sua função sempre que necessária a finesse da circunstância.
Porém quando uma pane tecnológica atinge o lunch service, Carlitos passa a ser submetido a equívocos grosseiros e indiferenças típicas do hábito explorador, ficando evidente seu papel de corpo vítima de reificação. O que antes e apressadamente podia parecer privilégio é agora desmistificado. A tortura se acentua e o trabalho como tripalium se explicita. Até o guardanapo perde sua máscara; deixa cair sua aparência promotora de delicadezas e assume seu jeito insidioso e brutal. O rosto de Carlitos é golpeado insistentemente até sofrer um knock out. Afinal, mais cedo ou mais tarde a ideologia acaba mostrando a que veio.
Assim sendo, o guardanapo tecno-ideológico se presta nesse filme para ilustrar a contradição na corpoética: como um instrumento atende tanto aos valores mais requintados quanto aos mais abjetos. E o limiar fronteiriço se dá e se constata segundo interesses e eficácias dos corpos em seus contraditórios jogos de poder. Em suma, se diante da arte desse mestre do cinema as reações são geralmente de risos, esse humor contém uma força ainda mais importante e contraditória: fazer com que a hilária ingenuidade do personagem venha despertar alguma criticidade compromissada e conseqüente no expectador. Ou como dizia Roland Barthes a propósito de Tempos Modernos em meados dos anos '50: ver alguém não vendo é a melhor maneira de ver intensamente o que ele não vê.
31 Maio, 2009
30 Maio, 2009
sandálias da corpoética
restos de memórias e teimosia
gritos a ecoar bol$o$ sem arrimo e rumo
janelas exibindo beleza crua de calosas desnudas
signos da corpoética na cor, no pó, na ética das andanças
firmeza flexível na arejada abertura do novo com reinvenções
molduras para dolorida ranhura esculpida pelos tempos e espaços
proteção pedestre desmascarando e dispensando necrófilas caronas
molduras para dolorida ranhura esculpida pelos tempos e espaços
firmeza flexível na arejada abertura do novo com reinvenções
signos da corpoética na cor, no pó, na ética das andanças
janelas exibindo beleza crua de calosas desnudas
gritos a ecoar bol$o$ sem arrimo e rumo
restos de memórias e teimosia
Proteção pedestre desmascarando e dispensando necrófilas caronas
Molduras para dolorida ranhura esculpida pelos tempos e espaços
Firmeza flexível na arejada abertura do novo com reinvenções
Signos da corpoética na cor, no pó, na ética das andanças
Janelas exibindo beleza crua de calosas desnudas
Gritos a ecoar bol$o$ sem arrimo e rumo
Restos de memórias e teimosia
30 Abril, 2009
29 Abril, 2009
visada corpoética
Se a ideologia objetiva "naturalizar" uma história, pretendendo-a como expressão de necessidade inevitável, legítima... Se a ideologia forja e dissimula uma específica visão de mundo fundada e sustentada pelo fascínio do falso, pela violência do inescrupuloso... Se a ideologia fecha e totaliza a dinâmica das relações intercorpóreas, negando o possível, o externo a essa totalidade fechada... Ofereço, então, à guisa de aperitivo teórico e como exercício de valoração alternativa, uma hipótese: uma visada corpoética que estaria compromissada com interesses e procedimentos de afirmação da concretude corpórea em suas inúmeras e complexas variáveis históricas.
Repetindo, como conceito, toda visão de mundo (Weltanschauunng) atende a uma totalidade historicamente constituída e sobremodo propensa a uma pseudonaturalização de seus princípios e resultados. Diferente de uma visão de mundo assim construída poderia haver uma visada corpoética caracterizada por uma certa inclinação pelo respeito e destaque à particularidade. Nesse caso, especialmente por se tratar de uma percepção corpórea em seu mo(vi)mento de te(n)são, essa visada corpoética corresponderia a um ver em movimento, um ver em determinado momento, um ver assumidamente relativo ao corpo que vê; um ver impróprio à absolutização ideológica.
Sem a ingênua ilusão de se supor uma contra-ideologia suficiente e plena (afinal, o corpo sempre está e se refere a um contexto cultural), essa visada corpoética implicaria uma abertura importante pelo simples fato de ser original e inédita, de algum modo. Ainda que circunscrita por toda a complexidade histórica, tal abertura poderia inventar uma brecha no cerco da totalidade, uma fresta no muro das ideologias, fazendo vazar outras perspectivas, outros pontos de vista desde situações corpóreas independentes ou irredutíveis aos valores consagrados de gênero, faixa etária, origem étnica, preferência simbólica, classe sócio-econômica, opção quanto à sexualidade...
31 Março, 2009
30 Março, 2009
ideologia e violência da corpoética
Nos termos de uma cromática, arrisco dizer que ideologia e violência não se explicam como cores que simplesmente se combinam, pelo contraste, no plano estático-estético (como verde-oliva e amarelo-ouro, por exemplo). Quem sabe, melhor supor que ideologia e violência correspondam à variedade de subtons do branco; este sim, resultado da dinâmica cromática - só percebido na movimentação/mutação das diversas cores (como no disco newtoniano). Em palavras mais diretas: tanto ideologia quanto violência participam da construção cotidiana que tem a corporeidade como origem e destino*, e estão ambas (ideologia e violência) distribuídas de maneira explícita ou dissimulada.
Ideologia pode ser entendida (entre outros sentidos) como fascínio do falso. Em destaque: a falsidade da idéia que toma o que é histórico como se fosse natural ou sobrenatural e que, por isso, deve ser aceito e mantido para um suposto bem comum dos corpos e do ambiente intercorpóreo. Concretamente, esse tipo de perspectiva perpetuadora, persuasiva e perniciosa só interessa àqueles corpos que não querem alterações substanciais nas circunstâncias de uma determinada configuração histórica de classe social, de crença espiritual, de costume comportamental etc.
Enquanto a ideologia atua numa dimensão mais abstrata e sutil, a violência o faz de maneira mais concreta, vil. É ainda característica da ideologia ser constante; já a violência apresenta uma especificidade mais incidente. Como no dito popular: se não vai por bem, vai por mal - no que fica subentendida a vantagem do funcionamento preventivo ideológico, cabendo à violência uma eficácia substitutiva. Noutros termos, a violência sucede com sucesso ao fracasso da ideologia. Entretanto, é razoável considerar que além (bem como antes) da ideologia e da violência se completarem também se confundem: a ideologia é violenta, assim como a violência é ideológica.
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26 Fevereiro, 2009
24 Fevereiro, 2009
banhagem corpoética
Ela havia acabado de sair do chuveiro. Despenteada e enrolada no roupão, posou com seu olhar azul-sereno de seis anos de idade. Isso foi em julho de 1987. Velhos tempos. Atualmente, na banheira da digitalização, a foto recebeu artifícios de filtragem, nitidez, tintura, retoques a óleo etc. Agora respinga luz e legenda no meu recém criado blog. Toda vez, então, que ali aparece, luminosa e calma, também me sinto renovado como depois de um banho.
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Aí você me pergunta: E daí? O que a foto de sua filha Stella tem a ver com este corpoética? Respondo rápido: tem a ver com o jeito da gente se fazer humano numa sociedade tecnologizada. Mais explícito, apelarei para conceitos meio filosóficos. Paciência!
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Certamente não nascemos humanos. Tornamo-nos humanos por conta de mediações. Principalmente por meio de linguagem e trabalho saímos da animalidade e entramos na condição humana. Aliás, há uma troca entre linguagem/trabalho e o que essas invenções nos reinventam. Ou seja, fazemos e somos refeitos pelos efeitos.
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Linguagem e trabalho acontecem desde milênios. Pulando alusões às várias etapas precedentes e sem recordar detalhes desse percurso, vejamos o que ocorre hoje: a tecnologia da imagem é uma mescla de linguagem e trabalho que humaniza em nossos dias. Óbvio que isso merece melhores análises como nos livros Filosofia da caixa preta (Vilém Flusser), A câmara clara (Roland Barthes) e Imagem (Lúcia Santaella e Winfried Nöth). Por outro lado, sei que lhe incomodo simplificando e generalizando ao afirmar que nessas mediações nos tornam humanos. Afinal, toda mídia é humanizadora? E sua denunciada desumanização? Qual o sentido da suposta função humanizante? Calma! Tentarei explicar. Tornar-se humano não é uma coisa em vez de outra. Ser humano não é uma alternativa entre excludências. Entendo que numa referência corpoética, ser humano é complexidade inclusiva: louvável & reprovável. Por isso, a mídia criada por nós nos recria sempre humanos: humanamente maravilhosos & humanamente horrorosos. E quem vai atirar a primeira pedra? Evitar a primeira pétala?
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Voltando à foto da Stella, três considerações:
1. Minha filha não é, desde sempre, Stella. Nasceu e ponto! Stella passou a ser adesivo verbal colado à sua animalidade. Com carinhoso trabalho pedagógico de quem a guiou, foi-lhe possível sobreviver biológica e simbolicamente. Assim, ela continua se tornando Stella à medida que mediações de linguagem e trabalho lhe aplicam uma segunda pele – a condição humana.
2. A fotografia feita da Stella só me foi possível por causa de trabalho em linguagem científica. A propósito, a tecnologia da imagem fotográfica condensa um sofisticado trabalho social, historicamente contraditório, implicando teorias de física, mecânica, óptica, eletromagnética, química, economia, política, sociologia, estética etc. Sem toda essa tecnologia da imagem construída não haveria tal registro automático da luz stellar.
3. A presença da Stella no meu novo blog traduz conexões em simulações. E essa tradução não é automática no sentido referente/representação. Precisei de um scanner para trair a materialidade analógica da imagem, matematizando-a por meio de programas em linguagem binária virtual. No Picasa a foto da Stella passou por várias manipulações; no MGI PhotoSuite SE ganhou borrões a óleo; tudo conforme meu discutível senso de beleza.
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Concluindo, minha única e querida filha, alguém de carne-e-osso-e-desejo, foi reduzida ao bidimensional no suporte do papel fotográfico. Como se isso não bastasse, ainda foi permutada em pixels, não passando de variações de zero/um. Parece que acabei com a Stella. Pela mídia que dispunha, desumanizei quem amo. Contudo, por ironia, essa desunamização reumaniza-a dentro de mim, deixando-me ainda mais humano. E até ela, ao acessar http://www.fotogrifo.com/, talvez tenha uma sensação especular que nega o tempo mas recupera sua temporalidade. Desconfio que ela mesmo se humaniza um pouco mais por meio dessa tecnologia da imagem. Acredito que ela ainda se renova como depois daquele banho.
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27 Janeiro, 2009
lazer e corpoética
Estudos e pesquisas sobre o lazer têm aumentado em número e densidade. Lazer agora é assunto sério. Para alguns, sério demais; pois a indústria do entretenimento se expande com requintes terapêuticos, muitas vezes, discutíveis. Não raro, parece óbvio que o lazer figura como processo cultural permeado por manipulações que negam o seu étimo: licere (conforme Houaiss, no sentido de ser lícito, ser permitido, ter valor; derivado de lezer, que significa ócio, passatempo). Ou seja, o que deveria implicar liberdade, pode resultar em dominação disfarçada.
No natural e histórico desgaste cotidiano, a corpoética toma o lazer como contraponto ao trabalho em sua acepção primeira: tripalium (três estacas dispostas para tortura). Aliás, quase como reflexo opressivo, o trabalho é um outro nome para a negação ao ócio (otium), para o negócio (nec otium), para aquela atividade realizada visando rigorosamente uma recompensa, no geral, político/econômico/financeira.
Por outro ângulo, o lazer como ócio é a oportunidade do corpo fazer (... e até nada fazer) por pura gratuidade, sem segundas conseqüências necessárias. Equivalente ao desfrute da liberdade, essa permissão ao ócio responde às possibilidades do corpo em sua maneira específica de ser, dentro de uma estrutura histórica e mediante artifícios criativos. Assim, lazer para a corpoética é alternativa ao pau-de-arara do dia-a-dia.
Diante dos armários que engavetam compromissos tendentes a resultados claros e distintos (de resto, imprescindíveis à sobrevivência), o lazer corpoético passa graciosamente desnudo, sem bolsos e fivelas onde prender finalidades consagradas pelos sistemas. O lazer como ócio é fim em si mesmo. Seu interesse tem nuances de enquanto. Vale enquanto passa. Passatempo.
23 Dezembro, 2008
projeto e corpoética
Se a mesmidade do cotidiano não é, reduzida e necessariamente, sua mesmice (postagem em 28/10/2008), como a corpoética se supera? Criticidade e criatividade são, pelo menos, as maneiras do corpo viver seu cotidiano, reposicionando-se como expressão de movimento vital.
Essa criticidade implica o uso de critérios específicos para analisar os fenômenos, tomando-os como passíveis de perspectivas plurais. As coisas e os casos não são o que são, naturalmente. São o que são, culturalmente. Há toda uma historicidade a determinar, em grande medida, coisas e casos. Significação. O que historicamente se constitui, não o é por si mesmo. Sua mesmidade (ipseidade) comporta uma genealogia. Fatores específicos foram e são muito determinantes para a constituição do cotidiano. Contemplados e criticados, esses fatores podem ser mantidos ou trocados.
A mesmice só se estabelece quando a manutenção do mesmo se furta ao exercício crítico. Ou seja: quando coisas e casos se repetem sem o crivo de uma corpoética, o mesmo se repete deixando o corpo medíocre. Por outro lado, um mesmo pode até se manter, de forma criteriosa, elevando e revelando a posição viva do corpo no seu momento histórico. Há, com efeito, nessa manutenção crítica uma criatividade, pois o mesmo nunca o é absolutamente. E a intervenção corpoética, ao relativizar o mesmo, mantém a mesmidade como cultura histórica.
Também a criatividade funciona como recurso para se t(r)ocar o mesmo. Nesse aspecto, a ipseidade é poietizada; a mesmidade é mais revitalizada. Noutros termos, poiesis implica criação; invenção do outro, da alteridade; cultivo da alternativa para coisas e casos: outras coisas, outros casos. Assim, a criatividade corpoética toca os fenômenos do dia-a-dia e troca o mesmo; transforma o cotidiano em projeto. Portanto, o corpo lançando adiante mesmidades desvencilhadas de mesmice, poetiza um presente para o presente: autogratificação da criticidade criativa.
26 Novembro, 2008
25 Novembro, 2008
visitas em corpoética
Depois de sete meses e vinte postagens, inseri um recurso para contar o número de visitas neste blog. Antes disso não imaginava que minhas expressões sobre corpoética viessem a ser conferidas por muita gente. Aliás, quando me apresento para mais de meia dúzia de pessoas, sinto que estou diante de multidão. Afinal, a quantidade massiva não me atrai nem me seduz. Prefiro sempre uma recepção mais reservada; ainda que um rigor mais crítico talvez deixe de abonar o que escrevo ou fotografo. Melhor uma visita exigente que mil anódinas.
Assim, a contagem de visitas neste blog pretende funcionar como eventual constatação de supostas recorrências por parte de internautas simpáticos. Aqui emprego o conceito simpatia com interessado acento. Afinal, quem acompanha este blog (e não deve ser muita gente), visita com uma vista meio incomum: demorando um pouco mais na leitura, dançando no contratempo da correria pela navegação cibercultural. Juntos vamos nos constituindo como segmento menor, intencionalmente mais lerdo, justo porque mais disposto a avançar e voltar a cada linha, cada imagem; feito uma guerrilha em ten(n)são de mo(vi)mento. Corpoética faz parte, quem sabe, de uma célula literária zelosa por uma idiossincrasia com Einstellung (ênfase, recaimento) sobre a materialidade do signo. Ou seja, neste blog o tre-jeito da expressão ganha hegemonia no sistema semiótico. Coisa quase experimental. Nada muito sério. Apenas voltada para ligeiras e lúdicas invenções que beirem alguma legitimidade estética para o absurdo da vida.
29 Outubro, 2008
28 Outubro, 2008
cotidiano e corpoética
O dia-a-dia é o conjunto de coisas e símbolos, entre si relacionados, dos modos específicos de organização do fazer, do crer e do sentir que constituem a corpoética. É um todo de acontecimentos históricos, casuais e mutantes no qual a justaposição, a composição e a oposição das partes não são percebidas pelo olhar despido de algum rigor crítico. O que está na cara constantemente mascara a historicidade, a contingência e a mudança. O cotidiano representa esse todo cuja obviedade das partes (per se ou em conjunto) muitas vezes obnubila explorações, fetichizações, alienações, invenções, superações, satisfações etc.
Mediante alguma criticidade, a corpoética percebe os movimentos do fazer, do crer e do sentir tendentes a totalidades contraditórias. Essa percepção suscita constatações, questionamentos e hipóteses. Tanto nos inesgotáveis projetos, processos e produtos do capitalismo ou demais sistemas econômicos, como nas construções simbólicas das inumeráveis religiões e ideologias, e também nas infindáveis diversificações de valores e práticas interpessoais e intersubjetivas, as totalidades são incapazes de controle absoluto. A corpoética desconfia, portanto, que o cotidiano apresenta contradições a escorrer diferenças por entre os dedos.
Essa abstração corpoética a partir de sua concretude redimensiona uma idéia: a mesmidade do cotidiano não é, reduzida e necessariamente, sua mesmice. Com efeito, o cotidiano abarca a mesmice, sim; entretanto, esta não tem aquele como refém. A diferença também está no cotidiano e o cotidiano é, mesmo, uma sucessão de diferenças. Diferenças somáticas, pnêumicas, psíquicas, econômicas, políticas, simbólicas etc. O que a corpoética faz, crê e sente no seu cotidiano é variado; também variação; e ainda, variante. No cotidiano a corpoética vivencia seu momento e seu movimento, imbricados e passíveis de interferências: mo(vi)mentos.
28 Setembro, 2008
27 Setembro, 2008
lembrança corpoética
traçando trejeitos em tchau
ensina, embala e baila...
leve, levada e lustral...
lição bala laica
animando minh'alma animal.
30 Agosto, 2008
29 Agosto, 2008
consciência corpoética
Dentre os mamíferos mais complexos, o ser humano parece demonstrar consciência de si e de seu mundo em maior e melhor grau. Também parece admissível que essa consciência que o humano tem resulta de processos de mudanças cumulativas e de rupturas ao longo dos milênios da espécie, bem como durante os anos de cada corpo particularmente. Ainda parece notável que a variação dessa consciência, apesar do tempo funcionar como fator determinante, é sobretudo uma variação derivada de inúmeras situações naturais e culturais: herança genética, aprendizagem sócio-política, experiências limites etc.
Na antropologia filosófica, dezenas de teorias procuram conceituar e sistematizar o tema da consciência, havendo entre elas sintonias e dissonâncias. E só o fato de haver mais de uma teoria sobre a consciência já indica uma impossibilidade do corpo ter uma convicção satisfatória e suficiente nesse assunto. Isso equivale a uma curiosa, legítima e contínua busca das veredas da consciência acerca de suas possibilidades auto-referentes e dirigidas ao seu redor.
Numa abordagem (r)estrita, a consciência corpoética ocorre em meio a fragmentos móbiles de complexidades subjetivas, objetivas, valorativas, explosivas, imaginativas, criativas etc; cacos de coisas e casos sem o estabelecimento de teorizações seguras. Essa indeterminação reverbera um instigante garimpo: o que se busca não se sabe bem o que possa ser; e, por isso, paradoxalmente, nessa coceira filosófica parece inexistir pressa, sofreguidão. Nos diversos e divertidos movimentos intencionais ou acidentais dessa garimpagem, sem certezas, a consciência corpoética arrisca e ensaia conceitos só pelo prazer de brincar consigo e com signos.
30 Julho, 2008
29 Julho, 2008
vereda corpoética
Assim como relatividade difere de relativismo, uma verdade se configura contraditória e distinta da incoerência. As contradições movem as tensões que fazem emergir uma verdade como acontecimento derivado das circunstâncias objetivas e subjetivas. E nessas contradições a coerência se dinamiza e se envereda pelos meandros dos planaltos do poder, das praias das paixões e dos pêlos e poros do prazer. É a vereda corpoética de uma verdade.
23 Junho, 2008
humorte da corpoética
Em meados de dezembro de 1993 defendo minha tese* que depois se transforma na publicação HUMORTE - cosquinhas semióticas no umbigo da entropia.** Por suas folhas, tento mostrar algumas falhas que acabam me fazendo mais feliz. Não são folhas/falhas tranqüilas, calmas; porém filhas da tensão - bem do jeito que pode ser concebida a felicidade. Num tom grávido de vozes e de vazios, comparecem palavras e pontuações como divertimentos entre o nada e o fim. Ou seja, o novo nascido do nulo traduz um interesse pelas relações que envolvem os signos do-que-se-acaba (no paradigma da morte) e os signos do-que-se-faz (no paradigma do humor). Pois, afinal, entendo que tudo é feito porque tudo acaba.
Em todo caso, para evitar expectativas que não pretendo contemplar, sublinho que passeio pelas páginas de HUMORTE não em torno da morte e/ou ao redor do humor. O que me atrai é uma espécie de mo(vi)mento de te(n)são entre morte e humor. Imagino que a perda e a alegria não se excluem e nem se resolvem numa síntese resignada. A graça do humor se afirma bem no lúdico-meio-lúcido que subscreve uma aposta ciente de seus limites; em especial, o limite morte que a tudo ceifa. Essa tensão designa, portanto, a complexidade e a multiplicidade do que chamamos cultura.
Em outros termos, HUMORTE é um exercício abdutivo; uma textura sobre uma hipótese, formulada diante de uma perspectiva da tensão que se move entre os momentos de perda e ganho, preço e graça, extinção e criação. Assim, esse caráter hipotético do discurso muito se parece consoante ao que emerge do instintivo hi-patético da corpoética, podendo, depois, ser aportado o rigor que se atraca (ou não) no racional.
Em tempo, a respeito da felicidade que me referi há pouco, trata-se de uma felicidade a partir do pior, de uma praga reinventada a prego na prega umbilical das seduções. Aliás, há umbigo no umbigo dessa logo-valise humorte. HUMORTE prende a perda alargando a alegria. No paradoxo do signo, a vogal aberta do significante mOrte (cujo significado supõe fechamento) vem imbricada com a vogal fechada do significante humOr (cujo significado sugere abertura). Daí, não ser uma alegria fácil, dócil, fútil; mas, pelo menos, aquela que é, conforme a aritmética de Oswald de Andrade, a prova dos nove. E, pode ser que dos noves-fora resulte zero - um outro umbigo.
Em suma, HUMORTE joga com possibilidades que compõem um caleidoscópio para uma estética da recepção que batizei como hedonisiacagem: uma hermenêutica em mo(vi)mento de te(n)são, com fragmentos móbiles, dionisiacamente embalados pelo suporte hedônico-hipotético na molecagem da linguagem.
__________________
* Tese aprovada no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Na banca examinadora estavam Amálio Pinheiro (orientador), Norval Baitello, Arlindo Machado, John Dawsey e Rubem Alves.
** Editora Unimep, Piracicaba (SP), 2001.
31 Maio, 2008
cógito da corpoética
fucei e só sei que forçando ferrolho
fica no fim uma fimose no olho.
por sorte, azar ou destino
acontece do intestino
lacri-mijar a morte
como um aviso
incircunciso
equívoco
anal
u
15 Maio, 2008
pnêumica corpoética pós-moderna
... E procurando vivenciar uma experiência sugerida pela epígrafe, este texto pretende apenas ser mais uma reflexão sobre aspectos da pnêumica, ambientada no que se convencionou chamar cultura pós-moderna. Aqui o termo pnêumica é usado como designativo da respiração corpórea, revestida por uma tensão entre os desejos e os símbolos culturalmente construídos. Assim, o que é esse ar culturalmente respirado, senão espírito (pneuma)? O que está no ar, senão uma espiritualidade, uma pnêumica?
Como a cultura tem demonstrado, a morte é a parteira espiritual. Diante da expiração derradeira e irreversível, os corpos sobreviventes reinventam um jeito de construir significados; ainda que, neste caso da pós-modernidade, a significação não possa contar muito com a ilusória crença de que as coisas da razão sejam necessariamente melhores.
A perplexidade pós-moderna, como gerente da alma, hospeda a dúvida, antes cartesianamente apenas metódica e aloja o ceticismo, outrora comtianamente tão só positivo. O espaço das idéias claras e distintas em que se fecundavam a ordem e o progresso não fica, de fato, desocupado. Porém, de salto alto e assanhado, à porta, um aperto incomoda: a fé não tem mais endereço fixo, moradia certa.
A pnêumica na pós-modernidade inventa um espírito descomplicado, do menor-esforço. Espírito de gozação, debochado. Espírito iconoclasta. Espírito de um narcisismo de superfície. Espírito sem paixões, arrastado pelo vácuo da velocidade consumista. O hedonismo é cultuado. A salvação é soprada pela transitividade da transitoriedade. Assim, a pnêumica corpoética pós-moderna possível, a partir de um resgate que inclua essas miudezas do cotidiano urbano-metropolitano, não está ainda bem alojada nas instituições religiosas tradicionais. Parece que as experiências pnêumicas pós-modernas acontecem sem que os corpos envolvidos percebam que se trata de uma espiritualidade mesmo (e que, talvez, nem venham a ocorrer senão de forma secular). De qualquer forma, há mais pneuma nesse espírito do que supõem as austeras teologias.
Saturada de meios e meneios comunicacionais, a rede espiritual na pós-modernidade espetaculariza os símbolos ungidos pela hipostatização. A coisa criada fica tão mais fascinante com a magia tecnológica, que o próprio corpo criador da coisa, sobremodo encantado, a ela se submete, esquecendo-se do processo e tomando o produto como que dotado de vida/valor em si. O poder da representação (re/apresentação) - imprescindível para a consciência/linguagem - que perpassa todos os outros poderes atinge, na condição pós-moderna, uma rapidez e uma brevidade surpreendentes: signos de um tempo/espaço que, num instante, chegam e se vão como um vento, um sopro.
De certo modo, nessa vaguidão e nesse esvaziamento o corpo estaria exorcizado de tantas e tontas seguranças. Seria uma corpoética mais humana, posto que de imprecisão e angústia, de invenção e êxtase é que iludimos a morte com a arte da vida. No entanto, esse vazio pós-moderno não é tão vazio assim. O corpo, possuído por uma legião de itens binários, digita o programa da renovação do Sistema. As idéias e ações revolucionárias deixam de atacar a questão estrutural (com efeito, bem mais hard) e se deslocam para modificar o quase imediato. Na pnêumica pós-moderna o horizonte é mais soft, bem consoante à leveza trágica de uma respiração corpoética desenganada.
Contudo, o espírito trágico da pós-modernidade não se desdobra necessariamente num pessimismo triste. Nas entranhas, o vazio do corpo fica compensado pela sugestão de prazer que tangencia tudo superficialmente. Parece que nem dá tempo pra se sentir no vácuo porque esse vácuo é construído por uma velocidade excepcional. E, paradoxalmente, o espírito de uma corpoética revolucionária, naquilo que tem de profético (denunciando opressões e anunciando libertações), se manifesta na pós-modernidade com uma pregação e uma postura atenta para os fragmentos do cotidiano. É uma espiritualidade corpórea molecular que se lança na luta por mo(vi)mentos de te(n)sões irredutíveis às sínteses e, muito menos, às balizas apriorísticas. Toda uma carnavalização passa a inspirar a aporia pós-moderna. Em nome de um hedonismo libertário há uma corpoética que dessacraliza tudo (inclusive os mundanismos consagrados).
Na pnêumica pós-moderna a perplexidade não é exorcizada. Com preguiça e/ou volúpia, com angústia e/ou excitação, as alternativas não traduzem excludências. Tudo se permite nessa espiritualidade. A ausência de parâmetros definidos e definitivos promove uma "esquizofrenia" espiritual desejada e assumida por uma corpoética d'EUs. As maquiagens da persona fazem o milagre do ser-um-sendo-vários. O caótico quase se transforma em cosmético.
As intervenções artísticas da pnêumica pós-moderna refletem e refratam um desvio de concepção. Com o esvaziamento na arte que sustentava a construção mítico-mágico-moderna, a espiritualidade pós-moderna trata de remontar sua imaginação emocionada numa simbologia mais espe(ta)cular ainda. É inevitável que a corpoética criadora, em sua surpresa inventiva e na ausência dos símbolos que se esgotaram, busque e encontre alternativas que expressem a dimensão poiética do pneuma. Afinal, a estética é o espaço próprio, por excelência, para as catarses da fé.
A freqüente e característica maneira da estética pós-moderna recorrer a citações indica uma espiritualidade que procura uma renovação carismática. O elemento mais interessante (de maior graça nas artes plásticas, na música, na literatura, no cinema etc) passa a ser uma nova composição de formas & conteúdos já feitos. A novidade que sensibiliza a pnêumica da corpoética no pós-moderno não está restrita ao nível da substância original ex-nihil e muito mais na re-incidência do déja vue com originalidade.
Assim, a espiritualidade pós-moderna (e ainda secularizada), não tendo mais utopias e vendo/sendo/tornando tudo tão rapidamente descartável, poietiza (com humor) a perda. Uma alegria precária e provisória inunda as almas que se abrem à comunhão celebrada pela mídia. Com a magia de um leve toque, imagens em caleidoscópicas insinuações refazem o truque da onisciência/onipresença/onipotência. O nicho do sagrado consumo presta culto à benção do consummatum est - a morte do valor de uso para a insaciável ressurreição do valor de troca. O Mercado é o divino espírito que pastoreia a pnêumica corpoética pós-moderna. Parece até que os mistérios não incomodam mais porque o caminho às revelações é tão fascinante que substitui a verdade e a vida: todos são chamados, inclusive os excluídos.
A pnêumica pós-moderna pressupõe, no mínimo, diferentes condiçõe$ de passagens pelos domínios acumulados nas filosofias, ciências e artes. Satirizar o próprio desencanto tem sido privilégio de corpos que imaginam não precisar mais da ilusão. Só que, a propósito, todos fazemos parte do mercado como simulacros de sentido; em alguns casos, numa ignorância dócil e impotência útil. Nas conjunturas históricas em que há, concomitantemente, elementos pós-modernos, modernos e pré-modernos, a espiritualidade de todos os corpos pode até acontecer em canais comuns, havendo, óbvio, decodificações específicas para cada status corpóreo. E toda essa comunhão-em-mosaico acaba por ilustrar, de maneira corroborativa, a própria pnêumica pós-moderna de recepção plural-parcial da corpoética.
12 Maio, 2008
27 Abril, 2008
pnêumica da corpoética
Aprendizagem de uma linguagem
Antes de tudo, o corpo: inquilino da natureza, arquiteto da cultura; seqüestra o ar, solta a voz; inspir/ação, expira/som. E quando esse extraordinário oxigenar provoca exclamações de entusiasmo (gravidez do divino), nasce a espiritualidade: excesso fantástico, teimosia imaginativa, plenitude pnêumica.
Se o desejo articula necessidades naturais com imagens culturais, o corpo vive, simbolicamente, suas interrogações e reticências diante da morte. A pesarem perdas, o corpo se espanta; apesar das perdas, o corpo imagina. Selecionando e combinando silêncios de susto com suspiros solenes, o corpo se constrói em linguagem pnêumica, linguagem da espiritualidade, linguagem da surpresa inventiva – fé.
Com a surpresa aprende-se que não se apreende todo o mistério; quando muito, inventa-se jeitos & gestos para neles balançar vida-e-morte, sonho-e-saudade, desejos-e-desejos. Essa surpresa inventiva reúne diferenças e oposições sem excludências; é linguagem da perplexidade, da criatividade; não cabe em reduções dogmáticas. Por isso, a pnêumica prefere métodos um tanto anárquicos; afinal, não se sabe bem de onde o sopro (pneuma) chega e nem pra onde vai. Seu poder está no vazio, na falta, no ausente.
A propósito, a linguagem pnêumica acontece onde o insólito e o mágico da poesia tornam mais densos casos e coisas que o corpo encara e encarna no cotidiano. Tomar o trivial e transcender-lhe o sentido, sublinhando a mensagem do desejo na própria coisa ou no próprio caso é pura poesia; é imaginação para além do necessário, do óbvio. A pnêumica, pois, joga com símbolos, dando um sentido diverso às coisas e aos casos; um significado que diverte a condição corpórea. E a poesia torna-se, assim, a melhor expressão da surpresa inventiva. Ou seja, a poesia é o código por excelência da espiritualidade.
Mo(vi)mento de um ajuntamento
No momento em que um corpo se vê num movimento poético e ainda vê outro corpo também entusiasmado por alguma surpresa inventiva, a espiritualidade pode alcançar uma dimensão intercorpórea, comum; é virtual que aconteça, portanto, uma pnêumica comunitária.
Ou seja: por vezes, o corpo que já havia se apercebido como autor/ator de sac(a)ramentos, ao sacar outros corpos também como autores/atores culturais de revestimentos sagrados, aventa a oportunidade para celebrações coletivas. Corpos semelhantemente entusiasmados, então, se ajuntam e se ajudam para novas representações das surpresas inventadas. E nesse recrear, criam-se outros e infinitos recursos lúdico-simbólico-pnêumicos.
Convém supor, entretanto, que o valor do sac(a)ramento é punctual; vale como referência específica e única de uma fisgada, sendo sua repetição, plena e absoluta, impossível. Para que o mesmo rito seja outra vez celebrado com propriedade, convenientemente, algo novo (outra vez inventivo) deve garantir sua qualidade pnêumica. Mesmidade não é o mesmo que mesmice.
Por ser um jogo, o sac(a)ramento tem a graça da gratuidade; não funciona como mediação para algum fim. O sac(a)ramento corpóreo e/ou intercorpóreo tem o gosto do prazer. E prazer só é prazer enquanto acontece. Portanto, espiritualidade num mo(vi)mento de ajuntamento é essa contaminação de corpos cheios de graça, charme... seduzindo e se deixando seduzir pela fantasia que entusiasma.
Sinal de uma pastoral
Um corpo apascenta outro corpo a partir do que já pastou. Pastorear é re-parTir algum entusiasmo desde a legitimidade da experiência pnêumica: experiência da inspiração, da fantasia, da festa, da vida... experiência da expiração, da expiação, da perda, da morte... experiência que sabe o sabor do gozo e do nó no gogó, da alegria e da angústia, das axilas alagadas de êxtase e das íris secas pelas insônias.
Sendo a graça desgraça superada, só depois da crise é que se crisma o carisma pastoral: uma graça que custa, um dom pago pelo próprio corpo, uma competência para a simpatia desde o repulsivo absorvido, um charme de cicatrizes, uma cara nova na curva da ruga. Ousadia arteira num abraço tenro e terno.
Esse carisma pastoral é signo, símbolo de uma espiritualidade específica; é cari(s)dade; é o lúcido e o lúdico carnavalizando lágrimas-e-lâminas. Cari(s)dade pnêumica é o corpo solitário-e-solidário a dividir pastoralmente seu mo(vi)mento de te(n)são. Essa cari(s)dade é um quê de sábadomingo em plena quarta-feira!
Mas, afinal, o que propõe o cari(s)ma pnêumico? Qual sua mensagem? Anuncia o ser feliz ou o ser infeliz? Nem uma coisa nem outra, porque a cari(s)dade não acredita em maniqueísmos. Compartilha, então, o ser feliz-infeliz? Também não, pois o que fica apenas justaposto não corresponde à indeterminação última do complexo duelo/dueto vida/morte. A cari(s)dade pnêumico-pastoral, porém, poderá reconhecer, então, o ser (in)feliz! E, daí, numa interpenetração chorocharmosa, talvez ainda careça traduzir o inefável do estar IN(FE'L)LÜZ.
22 Abril, 2008
diagrama da corpoética
...................................transtópica.no mo(vi)mento
corpoética..modalidade......filosófica....como saber/sabor
.................................lúdica.......no mosaico-moleque
...............................do soma.nas peles da físico-bio-química
corpoética.complexidade.da psique.nos pelos do desejo e do perder
.............................do pneuma.nos poros do ânimo mito-poético
..............................pontual.com tangências entre bios e necros
corpoética.peculiaridade.pessoal.com seduções entre eros e tanatos
..............................punctual.com fantasias entre zoé e hades
...............................prática......nas lareiras da economia
corpoética.historicidade..conflitiva......nas praças da política
..............................semiótica.......nas redes da cultura
..............................de valores......sob controle da razão
corpoética.possibilidade..de voleios....no improviso da emoção
...............................de vazios..para estímulo da imaginação
.................................genial..............no talento
corpoética..criatividade....especial...........pela técnica
.............................experimental........com te(n)são
18 Abril, 2008
mo(vi)mentos da corpoética
Explicando um pouco mais, corpoética guarda em si outras palavras, como se fosse uma espécie de valise estética, condensadora de vocábulos e vértices. Nela encontro corpo (complexidade), cor (peculiaridade), pó (historicidade), ética (possibilidade) e poética (criatividade)... sendo que cada um destes ângulos e arranjos tem seu significado específico em relação ao sentido arbitrariamente paradigmático (modalidade) do vórtice corpoética.
Isto posto, começo afirmando que um complexo trânsito atravessa o que se chama corpo. Uma dimensão material físico-bio-química estabelece sinapses evolutivas e sutis, gerando contatos, conexões e conflitos de linguagens eco-sócio-culturais. Essa dimensão material, que abarca o instintivo e o intelectivo, cruza com uma dimensão emocional que não se esgota em seu caráter de suscetibilidade. Desejos, prazeres e frustrações percorrem e promovem imprevisíveis provocações à dimensão espiritual. Esta, correspondendo à surpresa inventiva da imaginação corpórea, num processo mito-poético, transforma fôlego em alma, hálito em espírito. Nessa complexidade envolvendo matéria, emoção e espírito, o intercorpóreo vai inventando e inventariando a existência.
É evidente, admito, que o corpo nem sempre nomeia a si mesmo como aqui e agora acabo de fazer, tão limitada, discutível e ligeiramente. Assim, acho necessário revestir com devidas aspas materialidade (soma), emotividade (psique) e espiritualidade (pneuma) acima referidas. Além disso, é mister sublinhar que estas dimensões não se separam, não se excluem nem se sucedem no movimento tenso da existência corpórea; compõem uma mesma complexidade (em dimensões interligadas, inclusivas e simultâneas). E, portanto, qualquer definição ou consideração sobre a existência precisa levar em conta, no mínimo, essa complexa tríade somático-psíquico-pnêumica.
Dentro dessa complexidade corpórea e intercorpórea, habitando os planaltos do que é instigante, hospedando-se nos pântanos das impressões e passeando pelas praias da perplexidade..., a carne, o desejo e os signos constituem o corpo conforme as estações da história. O corpo é pó, é chão, é barro (molhado pelo berro do húmus social). É um feixe de fatores fornecidos pela terra e temperados pelas intempéries das sete manhãs. O corpo é sua historicidade. Na história de sua casa (lareira da economia) está a intercorporeidade de seu pão. Na história de sua cidade (praça da política) está a intercorporeidade de seu contrato. Na história de sua palavra (semente da cultura) está a intercorporeidade de seu espetáculo. A existência corpórea é devida à história da intercorporeidade no espaço cotidiano – onde e quando cada corpo é açoitado por suas vésperas e encantado com suas bússolas.
A historicidade do corpo também lhe confere balizas para seu percurso. Situado e lançado pela vereda que tende sempre para seu irreversível termo (a morte), o corpo deseja lograr a natureza - essa coisa encantadora e inexoravelmente propensa ao crepúsculo. Por meio dos mais contraditórios jogos que a cultura lhe permite, o corpo constrói seu pão e consome seu circo. É a sapiência e a demência, igualmente imprescindíveis, num balanço de equilíbrio precário e provisório sempre.
A propósito, defendo que a existência corpórea não é predicado sem objeto empírico. Nesse caso, rejeito a hipótese de uma existência atribuída a uma generalização designada “corpo”, como se o corpo pudesse ser tão somente abstração - o que não significa que a corporeidade não viva sua abstração, por sinal, bem mais concreta do que se imagina. Com efeito, apenas digo que só existe o corpo que obriga minha escrita sobre ele prestar atenção à sua concretude singular... Noutros termos, repito, sem medo de erro, que cada corpo existe como corpo graças às dádivas, dívidas e dúvidas que dividem seu dia-a-dia com senhas e sonhos intransferíveis, irrepetíveis, intraduzíveis. Por isso, corpo só é corpo por ser corpo com vida, corpo com uma qualidade particular e individualmente única de momentos e movimentos de te(n)são. Afirmo, abdutivo, a essa altura dos meus dias fe’l-lüz-mente acumulados, que a morte de um corpo é o fim absoluto desse corpo, desse corpo entendido como complexidade, historicidade, peculiaridade, possibilidade e criatividade. Se, depois de morto, outros corpos dele se lembram, por ele suspiram, dele falam..., a vida destes outros corpos vivos é que, metaforicamente re-suscita, ergue de novo, re-anima aquele corpo morto. Essa imortalidade (palavra que me soa como licença poética) efetiva-se de diversas maneiras, mas nunca mais como corpo mesmo, como corpo vivo. Nesse caso, portanto, a imortalidade acontece como memória psico-social dos ainda-vivos..., acontece como cultura que transcende aquele que vivia – agora ressurrecto, imortalizado em suas letras, ciências e artes. Enfim, ao dizer corpo vivo, gostaria de contar com algum abono por meu intuito pedagógico; senão, reconheço o pleonasmo.
Sendo verdade que a história de uma corporeidade específica serve de referência e condição para os corpos a ela relacionados, também é verdade que cada corpo vive sua história de modo absolutamente original. Em que pese as padronizações dos estereótipos, não há, sequer, dois corpos iguais. Nem mesmo os corpos que se identificam na economia ou na política ou na cultura são iguais. Nem mesmo os gêmeos idênticos são iguais, a começar pelos diferentes nomes que recebem e pelas diferenças com que nomeiam o mundo.
A individualidade do corpo é sua cor, sua peculiaridade, sua qualidade única. Cada corpo é e vive seu colorido pontual, seu jeito diferenciado de ser essa massa somática que se mexe entre bios e necros, entre vida e morte tangíveis. Mas também, cada corpo é e vive seu colorido pessoal, sua maneira inédita de usar essa máscara (pessoa/persona) psico-representativa que se insinua entre eros e tanatos, entre vida e morte sedutoras. E cada corpo é e vive, ainda, seu colorido punctual, seu modo irrepetível de sofrer essa fisgada da paixão última do pneuma que se revolve entre zoe e hades, entre vida e morte imaginárias.
Desviando-me num breve devaneio, penso que, talvez, a peculiaridade do corpo tenha seu registro qualitativo privilegiado no umbigo. Salvo melhor julgamento, não existe representação mais própria que o umbigo para o pontual/pessoal/punctual do corpo. O umbigo é essa marca contraditória de continuidade-ruptura: ele é índice de um conduto que, durante um tempo ligou mãe e embrião. Tocar no umbigo é contatar um passado, quem sabe uma saudade; algo de que se separou por conta de um corte. Além disso, o umbigo é uma área que polariza emoções bem no centro do corpo. Parece que os sentimentos se convergem e se divergem em torno desse pequeno e profundo pólo de pele sem pelos. Como resistir às cosquinhas nessa cicatriz, ainda mais num apelo psico-social em que ela é um ícone de prazeres! Tudo isso sem contar que o umbigo é um convite à fé, à teimosia do entusiasmo. Afinal, se foi arriscado romper a segurança pretérita materna..., se o futuro dependeu dessa aposta lançada sem consulta ao próprio neonato..., se a experiência de gozo nele é apenas aperitivo..., o umbigo é ainda sacramento: um símbolo indelével, um meio de graça, uma inspiração para o corpóreo insistir teimosamente em se tornar aquela nova criança, revivendo a plenitude sonhada no útero da alegria. Concluindo esse desvio, em malandra consideração às sílabas que me dominam nessa nossa língua, repito para destaque: corpo, além de ser pó, é, antes, cor. Cor cortejada pelos recortes do coração - coisas que o corpo conhece de cor. Assim, cada corpo é um conjunto de fragmentos cromáticos a girar em molduras naturais, dentro dos suportes historicamente desenhados pelo próprio corpo em tangências intercorpóreas. E, dependendo do ângulo que olha... e do movimento que opera, o corpo vê belezas, compõe uma estética, cria uma espécie de caleidoscópio. Quanto mais cacos coloridos, maior a densidade do espe(tá)culo: a variedade com que, técnica e artisticamente, se espelha e se espalha o acaso circunscrito.
Voltando ao paradigma corpoética, como que no fundo dessa mochila há uma alusão à possibilidade de conduta desenvolvida pelo corpo (possibilidade aqui entra como sinônimo de liberdade, no sentido de prerrogativa moral, relacionada ao âmbito ético). Às vezes, racionalmente, um valor fundado no chão da história serve de apoio para os passos corpóreos. Assim procedendo, uma ética mais próxima ao controle se afirma. E, como sempre, o controle tem suas virtudes e seus vícios. Outras vezes, o corpo não leva em consideração qualquer valor e sua atitude mais parece um lance de voleio: nem se espera a bola dos fatos bater no solo da razão e já se rebate emocionalmente, sem-pulo... podendo (ou não) haver sucesso no desdobramento da jogada. E além dos valores e dos voleios, vezes há em que o vazio envolve o corpo. Daí, com sua fantasia imaginativa, a corporeidade vai tentando conviver consigo e com tudo e todos diante do mistério. Imitando, ignorando ou inventando nomes e normas exclamativas para lidar com o mistério, o certo é que o corpo se move e se comove, também e ainda, segundo suas mais profundas interrogações e reticências. E, em sobrando um silêncio ou um sussurro ante o inexprimível vazio, o espírito corpóreo geme e gesticula sua angústia e seu êxtase.
Devo, então, relembrar um detalhe que há pouco mencionei. Noutras palavras, é a morte que motiva a maravilha, é a falha que fomenta a festa, é a perda que produz a poesia. Ou seja, porque o corpo sabe, sente e sofre com a tendência de tudo ter um final, põe-se a criar e a se re-crear, esteticamente, com linguagens, filosofias, ciências e técnicas. Assim sendo, de maneira genial, bem como de modo mais especial ou experimental, a criatividade tensiona o corpo num estranhamento que é uma das características da cultura. Tão desconcertante quanto uma finta, a criação corpórea dá um drible na afobação do sufoco ou na apatia da indiferença. E quando isso ocorre, só de brincadeira, pela simples gratificação do prazer, a linguagem, a filosofia, a ciência e a técnica estão como que dizendo: se o fim é inevitável, que tal, por enquanto, um pouco de artifício estético?
17 Abril, 2008
história da corpoética
Ao longo da década de 1990, para atender diversos compromissos, fui me valendo do CORPOÉTICA buscando sempre sistematizar os conceitos nele embutidos numa tradução mais sintética e adensada. Assim, em 2001 publiquei um capítulo na obra organizada por Wagner W. Moreira, Qualidade de vida (complexidade e educação). Nessa oportunidade, o capítulo recebeu o título: Qualidade de vida e beleza estética e já no primeiro parágrafo eu avisava que achava cabível um sub-título: mo(vi)mentos de te(n)são da corpoética. Com efeito, esse capítulo era o que melhor eu havia produzido, até então, sobre corporeidade no sentido mais sistêmico da CORPOÉTICA.
16 Abril, 2008
gênese da corpoética
CONFISSÕES DE UM BRANCO
Além de tardia, a intenção isabelina não conseguiu libertar-me de in-certos temores; o medo do negro continua em mim – confinado nos signos do sufoco que lhe dedico e no silêncio das sublimações que me castigam.Além da ironia ou por um mea culpa mal resolvido, vejo o 1888 (constante na lavra-dura daquela lei que ainda contém uma áurea ambigüidade) como insólito e ignóbil disfarce ou como uma cicatriz atroz: na casa do milhar (só pra humilhar) um pelourinho a escorar uma centena de algemas.
Além da alforria, às vezes sou um brancóide que insiste em nojentas discriminações à pigmentação dos corpos. Num racismo acorrentado a fatores que também dicotomizam pela grana & pela fama, procuro corrigir a estória da história e, pontuando minhas idiossincrasias, afirmo: nego que te quero, negro.
Além da folia, às vezes sou um branquicela dopado pela ingenuidade idealista. Teimo radicalizar o ser social, desmaterializando-o. Ensaio e ensejo só a essência. Teorizo que o corpo se ressume na pessoa. E como esse conceito de pessoa não comporta o conceito cor, ao querer suprimir o preconceito acabo anulando a colorida-e-cultural concretude corpórea. Nessa estória de descolorir (... que é uma ideologia histórica) decreto, pensando ser poeta, a abolição da vírgula, ao pontificar: nego que te quero negro.
Além da antinomia entre o brancóide e o branquicela, a terra treme. E das empoeiradas cinzas ouço um profeta re-clamar: brancos de todo o mundo, puní-vos! Resgata-se a cor. Transpõe-se o pó. Liberta-se a ética. Corporifica-se a poética. Cor-pó-ética. Com esperanças, então, percebo brechas por onde podem emergir sínteses superadoras. E munido com a autocrítica que se me impõe, escapo da equivocada pretensão de, sozinho (como branco), tentar atualizar a utopia da felicidade policromática. Assim sendo, virgulando as ideologias, negando as negações, abolindo as estórias, revolucionando as posições dos termos históricos, acentuando com ternura o que fora opressora expressão... hei de dizer um dia: nego negro, te quero!





