12 abril, 2013

corpoética e alguém especial no mercadão


 
 

Ainda postando sobre o último assunto, nesse doze de abril de dois mil e treze o Mercado Municipal de Campinas completa cento e cinco anos. Dentre as fotografias que fiz do mercadão em 1993, uma continua entre minhas preferidas: speculum.

Estava eu procurando fotografar bonecas de brinquedo quando encontrei algumas na lojinha da D. Mariana. Por causa da minha presença com a câmera, D. Mariana comentou que acabara de machucar o dedo tentando tirar o vidro grudado em uma foto antiga. Pedi para ver a foto. Fiquei encantado; era ela muito tempo atrás, aos vinte anos. Não resisti à tentação e fiz outro pedido: fotografa-la com sua foto na mão. Ela se inquietou e, com pudor, não aceitou minha proposta. Insisti um pouco mais e acabei conseguindo que ela posasse olhando para a foto antiga que, aliás, registrava o rosto dela voltado para um extra-quadro à esquerda. Consegui, então, uma troca de olhares que atravessavam mais de quarenta anos, num mo(vi)mento de te(n)são que julguei espe(ta)cular. A propósito, D. Mariana transitava no mercadão desde seus dez anos. Seu pai, com 92 anos em 1993, fora um dos mais antigos permissionários do MMC.

No dia seguinte voltei ao mercadão com uma cópia impressa da foto (*). Sem dúvida, o contentamento e a emoção de D. Mariana eram contagiantes. Depois de uns trinta minutos visitando outras dependências do MMC, eu visualizei novamente, à distância, D. Mariana sentadinha com minha foto no colo, olhando e viajando por essa binariedade corpoética que atende pelo binômio ontem-revisto/amanhã-imprevisto.

Hoje, 2013, octogenária, com lúcida e simpática competência, D. Mariana ainda dirige sua pequena loja de armarinhos.
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 (*) Pretendo postar depois a referida imagem, com legenda, no www.fotogrifo.com

 

 

31 março, 2013

30 março, 2013

corpoética e humorte no mercadão


 

Já escrevi em algumas postagens sobre humorte – essa mochila semiótica que reverbera mo(vi)mentos de te(n)são entre as coisas que findam e os casos que fazem cultura. Porém não explicitei alguns detalhes sobre sua função na pesquisa que resultou na tese defendida vinte anos atrás (*).

Em 1993 tomei o Mercado Municipal de Campinas (MMC) como texto cultural. Queria demonstrar que um mo(vi)mento de te(n)são mercantil pode ser observado como um texto-de-textos. Tal qual um móbile num circuito comercial, portanto, o MMC seria uma composição econômica a transitar (n)uma rodagem semiótica. Passagens, passagens, passagens...

Ou seja, no mercado a palavra produz o pão. No mercado a luta de classes produz a mercadoria. No mercado o consumo conduz a (à) conversa. No mercado morte e humor se t®ocam como valores, voleios e vazios. Corpoética.

Assim, só para sinalizar superficialmente, usei a hipótese humorte para uma leitura do texto cultural MMC segundo as categorias propostas por Ivan Bystrina. Conforme o semioticista tcheco, a cultura apresenta, pelo menos, quatro referências universais: binariedade, polaridade, assimetria e criatividade.

O sumário da tese talvez sirva, precária e provisoriamente, para sugerir como fiz a aplicação dessa teoria de Bystrina na práxis do Mercadão (forma carinhosa dos campineiros se referirem ao MMC):

Entradas
 
 
Índice
 
Dedicatória
 
Agradecimentos
 
Banca examinadora
 
Placas & tabuletas
 
 
Fundamentos da construção
 
 
A idéia
 
A coisa
 
O jeito
 
Os livros
 
As palavras
 
 
Mo(vi)mentos da instalação
 
 
Uma lista
 
Das duplas
 
Dos distantes
 
Dos desequilíbrios
 
Das diz-obediências
 
 
Saídas
 
 
Da contra-tese
 
Pela anti-síntese
 
Pra semiose-em-série
 
Com trezentos pontinhos
 
... enquanto houver humorte

 
(*) HUMORTE NO MERCADO – Tese de doutorado em Comunicação e Semiótica apresentada e aprovada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, aos 13 de dezembro de 1993. Banca examinadora: Amálio Pinheiro (orientador), Norval Baitello Jr., Arlindo Machado, John Dawsey e Rubem Alves.

 

 

20 fevereiro, 2013

19 fevereiro, 2013

corpoética e volta às aulas



 

Passamos os meados deste fevereiro de 2013. Mais precisamente, primeira semana depois do feriado de Carnaval. E conforme se comenta amiúde, só agora começa pra valer o novo ano. Até o horário de verão vigente em vários estados do país deixou de funcionar como excelente pretexto para tardes mais longas, ainda ensolaradas e com gosto de festa. Parece que as coisas sérias passam então a tomar conta da agenda cotidiana.

E assim, a volta às aulas na maioria das escolas faz parte de uma realidade-sem-fantasias a ser encarada por muita gente, inclusive por mim que leciono há trinta e seis fevereiros numa instituição de ensino superior. A propósito, nesse tempo já vi, perplexo e indignado, muito trote desnecessário e aviltante aplicado a calouros, bem como também acompanhei com simpatia iniciativas de veteranos interessados em acolher e integrar novos colegas.

Aproveitando nesta postagem os referenciais do módulo corpoética, lembro que o ingresso ou a permanência na vida acadêmica universitária implica complexidade, singularidade, historicidade, possibilidade, criatividade etc. Ou seja, estar em uma graduação e/ou em seus níveis mais avançados é, no mínimo, vivenciar corporalmente (de maneira presencial ou à distância) um processo de aprendizagem organizado conforme projetos, programas e planos educacionais. E esse processo de aprendizagem afeta, desafia e altera parcial ou integralmente o viver corpóreo de todo o conjunto de atores no cenário escolar.

O corpo que participa dessa experiência tem pele, pelos e poros colocados em tensões específicas decorrentes dos conflitos e/ou complementos que envolvem aquilo que é próprio e particular a cada corporeidade e aquilo que está no entorno cultural dessa mesma situação corpórea. Sendo assim, ficam relativamente franqueadas as possibilidades de conduta e condução sociais...; além de se oferecerem chances para criações em todas as esferas da abrangência acadêmica: estudos, investigações e serviços.

Logo, por conta do inevitável ganho/prejuízo para si e para outros, nunca é ocioso repetir corpoeticamente o alerta: Cuidado! Escola!

 


27 janeiro, 2013

22 janeiro, 2013

corpoética e fotografia

 

Há exatos vinte e cinco anos fiz uma tomada fotográfica que reproduzo abaixo. Até hoje é uma das fotos que mais significam para mim. A imagem representa uma experiência corpoética pelo óbvio predomínio da dinâmica corpórea, pelas diferenças particulares em destaque, pelo contexto histórico prenhe de tensões, pelas possibilidades de arranjos éticos, pelos apelos da poesia implícita no humor das pessoas flagradas...



Ainda naquele ano de 1988, ao entregar para o Prof. Arlindo Machado minha monografia referente à disciplina “Teoria da Comunicação”, comentei algo sobre essa foto a partir de uma citação dele mesmo que novamente tenho o prazer de creditar:

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Tente o leitor imaginar o que seria uma foto de uma multidão de manifestantes vista do interior da própria multidão, ou seja, personificando o ponto de vista de cada um dos manifestantes. Tal foto não seria certamente nenhuma grandeza visual, nenhuma abrangência ou amplitude; o máximo que seria dado à visão seriam as cabeças dos companheiros mais próximos..., pequenos closes individuais, descobrindo uma personalidade em cada rosto, uma configuração particular em cada gesto e toda uma dimensão micropolítica... Evidentemente, tais fotos não são consideradas na prática jornalística habitual, porque parecem não se dar conta do evento, como se o evento fosse aquilo que é dado à visão através desse olhar privilegiado e originário de poder que é o palanque (Arlindo MACHADO. A ilusão especular. Tese PUC-SP, página 100).
Na tarde de 22 de janeiro de 1988 o povo veio para a Praça da Revolução (Manágua) que fica entre o monumento/túmulo de Carlos Fonseca, a Catedral, o antigo Palácio do Governo Somoza, e o novo Teatro Rubem Dario. As autoridades se preparavam para falar desde as escadas do prédio do Palácio (hoje, administração municipal). A imprensa local e estrangeira ocupava um palanque montado entre as autoridades e a multidão. Os alto-falantes lançavam o ritmo contagiante da música nicaraguense. O motivo da manifestação era lembrar os mortos de vinte e um anos atrás e protestar contra o presidente Reagan que pretendia aumentar a ajuda financeiro-militar aos contra-revolucionários.
Festa política. Vivos cultuando mortos. Memória e eucaristia históricas. Desejos de amor. Luta pela paz... Emocionado, eu me afogava no mar humano, ancorando-me na alegria que brilhava nos olhos de tanta gente.

Com essa disposição de sentimentos e devido a posição que me era possível, fotos e mais fotos tomei a partir de ângulos que não eram panorâmicos, panópticos. Só assim consegui registrar corpos agitando bandeiras que escapavam para o extra-quadro, detalhes de pessoas saboreando melancias, artistas manipulando bonecos, caras gritando palavras de ordem, cartazes pequenos, faixas pela metade, gente saltando, cantando, dançando, sorrindo..., sobretudo sorrindo.
E no meio do povo, um encontro me comoveu: a internacionalista e o “compa” celebrando a vida, como que sabendo e gritando que na vida nada é eterno, senão o instante vivido com graça. No bailar das diferenças (origens, situações, culturas...), acertavam os passos da solidariedade enquanto viviam o enquanto. (Acho que isso fazia parte do evento!).

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E junto desse comentário, como que legendando a foto, escrevi um poema que também pode ser conferido noutro blog: http://www.fotogrifo.com/2009/03/blog-post_4507.html

 

 

 

 

 

31 dezembro, 2012

30 dezembro, 2012

corpoética, contentamento e deplorabilidade



 

 

Conscientes às vezes, intempestivas outras, vagas amiúde..., algumas práticas corpóreas configuram determinadas possibilidades éticas. Consoante o referencial dos conceitos deste blog, quanto à ética, a rigor o que conta MESMO é a ação MESMO. Porém, no exercício teórico sobre a questão prática cabe pensar a ética supondo seus fatores de mobilização, necessariamente anteriores. Estes, talvez devam ser tomados, conforme já postei, como variações de valores, voleios e vazios.

Por outro ângulo, a posteriori sobram os desdobramentos e as consequências das práticas da corporeidade. E abusando da repetição nesse tema, a ética sempre resulta em outras coisas, casos e causos. E comportam acerca desses resultados novas variantes lógicas, emotivas e imaginárias.

Seja como for, o que pretendo destacar aqui e agora é um (relevante, porém não único) resultado da ação: a lembrança como termo da ética, como efeito do fato feito. Noutras palavras, sem levar em conta nessa abordagem o que coisas, casos e causos implicam concretamente, sublinho a instância abstrata da evocação da memória voltada para o ethos consumado.

Se a ação recordada atualiza um sentimento indiferente, uma ausência de ênfase em qualquer direção psíquica, isso provavelmente possa ser situado em algum ponto intermediário entre afecções opostas. A gama do sentir-o-que-se-passou se estende mui deveras e não sei detalhar e nem caracterizar com precisão e competência toda sua nuance. No entanto, arrisco comentar um pouco sobre apenas duas maneiras desse sentir pós-ética: contentamento e deplorabilidade.

Propositadamente, a escolha desses dois modos de sentir-o-que-se-passou não trata de situações rememorativas extremas, não é uma opção teorética sobre o que se localiza nas longitudes máximas do pêndulo das lembranças. Quem deplora e/ou se contenta com alguma ação efetuada assim o vivencia dentro de parâmetros relativamente serenos. No contentamento não ocorre o êxtase ao corpo, e nem na deplorabilidade o corpo é arrastado pelo remorso. Uma alegria por um lado e uma tristeza por outro comparecem confirmando à corporeidade sua porção de sentimento/pensamento em grau bastante suportável. Assim, há algo que o corpo nota com alegria ou com tristeza, entretanto tais experiências de totalidade não absorvem, não sugam, não exaurem o corpóreo de jeito totalitário (... como acontece em outras circunstâncias).

Contentamentos e deplorabilidades também não se reduzem específica e exclusivamente a este ou aquele contentar, a este ou aquele deplorar. A própria dinâmica existencial, mediada pela cultura, joga seus lances no tabuleiro dos símbolos. O que vale ou o que voleia ou o que vaga representam coisas, casos e causos que a corpoética pensa, sente ou espiritualiza em seus mo(vi)mentos de te(n)são.

Ainda e em suma: contentamentos e deplorabilidades são representações corpoéticas.

 

 

 

 

 

30 novembro, 2012

29 novembro, 2012

corpoética, saberes e sabores


 

 

As dimensões somáticas, psíquicas e pnêumicas da corpoética, quando articuladas com criatividade, alcançam uma legitimação existencial provavelmente bem mais notável e gratificante. Parece que por isso, nisso e disso dá gosto viver. Faz a alma lamber os cílios.

A propósito, relembro a etimologia de sapere (latim): experiência do paladar e do pensamento. Ou seja, desde os sentidos até aos significados há um gosto e um prazer em implicações corpóreas muito peculiares. A língua absorve e interpreta texturas e sabores. A língua semiotiza e traduz textos e saberes. O corpo é sua língua, sua linguagem.

Assim, natura e cultura sempre se contaminam resultando variadas compilações nas artes, nas crenças, nas ciências, nas filosofias etc. E uma dessas criações artísticas eu quero divulgar nesta postagem: Saberes e sabores de Dona Jojô, publicado neste ano de 2012, pela editora de São Bernardo do Campo, Texto & Textura.

Trata-se de um pequeno livro carinhosamente escrito por Priscilla Menant e muito bem ilustrado por Marcos Brescovici (aliás, ambos os artistas também têm seus sites e merecem ser visitados: http://donajojo.wifeo.com/; http://www.marcosbrescovici.com/). Nesse colorido e divertido livreto encontramos estorinhas para o público infantil, junto com receitas simples que valorizam uma alimentação saudável. No site da editora é possível conferir mais detalhes: http://www.textoetextura.com.br/saberes-e-sabores-da-dona-jojo/

 

 

 

 

31 outubro, 2012

30 outubro, 2012

corpoética, contradição e coerência


 
 

 

De vez em quando cometo postagens autorreferentes de modo explícito. A rigor, aliás, de maneira implícita disso não escapa todo e qualquer registro: seja qual for o assunto, por quem quer que o trate..., invariavelmente a grafia flagra a mão que a consigna. ... E o mês de outubro, em especial, me provoca esse assuntar mais assumido.

Motivação e pretexto vêm instigados pelo que estou publicando em outro blog: a transcrição de meu livreto papo de boteco – esgotado há muito. Suas quatro edições datam entre 1981 e 1986 e, a bem da verdade, desde então troquei bebidas, balcões e balizas.

Mudanças de opinião e projeto também comprovam como a corporeidade é contraditória. Contudo, estar assim ou assado de forma integral, com inteireza, evita algumas incoerências. E a incoerência, como conceito, me parece ser uma virtude (virtus, força corpórea) que se materializa como ética (conduta efetiva) a partir de uma moralidade (valoração) anti-corpoética. Noutros termos, acho que a dinâmica do existir desenha mudanças, as quais convêm figurar no espelho e nos reflexos com um mínimo de compromisso com a autoria (senhorio) de uma autenticidade situada.

Olhar os próprios olhos sem mistificações ou engenhos plagiadores confere à corpoética-de-cada-um, pelo menos, três resultados: Primeiro, o sentimento de quão misterioso pode ser o nó das complexas variantes da particularidade corpóreo-histórica. Segundo, que esse nó corresponde a uma determinada amarração circunstanciada pelo tempo e pela temporalidade. Terceiro, que datas e interpretações valem circunscritas à totalidade das relações históricas e jamais em um suposto absoluto, totalmente transcendental.

Pois bem, trinta anos atrás escrevi papo de boteco em busca de uma coerência com aquilo que minha corporeidade pensava, sentia e acreditava. E por conta dessa mesma busca admito que hoje troco tais certezas por suspeitas e, às vezes, indiferenças. O que confesso manter intacto é o interesse pela escrituração, o gosto pelo ensaio textual, e o prazer na teimosa luta com a palavra. Por isso, meu convite: queira conferir as seis postagens (por enquanto, apenas duas) no www.pneumica.com

 

 

 

30 setembro, 2012

29 setembro, 2012

corpoética no mar egeu


 

 

Roteirista e diretor de O Tempero da Vida (2003), o cineasta Tassos Boulmetis propõe uma curiosa aproximação semântica entre astronomia e gastronomia. Liberdade poética à parte, esse recurso acaba rendendo um sapiente (sábio/saboroso) resultado cinematográfico.

Estrelas e estalos no palato convergem na textura do filme em meio a complexas relações intercorpóreas. As peculiaridades subjetivas e os condicionantes objetivos forjam e transfiguram inúmeras nuances do poder. Aliás, já no título original Politiki kouzina (POLITIKH Κουζίνα) soa feliz a tentativa histórico-artística de minimizar, pelo melhor balanceamento possível, assimetrias inerentes ao biográfico e ao fictício.

Boulmetis engendra uma ambientação histórica trazendo as marcas das diferenças, das rupturas e dos conflitos entre Turquia e Grécia em meados do século vinte. Fatores culturais delicadamente destacados pelo idioma, pela religião e pelo humor servem como cenário para uma política de temperos. Assim, retratando desde o final dos anos 1950 até aos nossos dias, o filme consegue administrar de modo competente, pelo núcleo da cozinha, vários fenômenos que gravitam na vida das pessoas, dos países e dos poetas*.

Conforme as tríades categoriais da corpoética neste blog, considero que o filme trata de saudades, sonhos e silêncios. No específico do fenômeno corpóreo, essas circunstâncias da saudade, do sonho e do silêncio correspondem (respectiva, mas não exclusivamente) às dimensões somáticas, psíquicas e pnêumicas. Na esfera das possibilidades éticas, entendo que saudades, sonhos e silêncios equivalem aos valores sopesados pelo racional, aos voleios rebatidos pelas emoções, e aos vazios embalados pelos construtos-de-sentido-para-a-existência.

Saudades. No passado: a matéria com que foram feitos os fatos; coisas, casos e causos historicamente determinantes da massa das recordações. Por vezes doces outras acres, essas lembranças fundam e fundamentam o que não se pode negar ou não se tem como suprimir. Oscilações entre o trágico e o arbitrário.

Sonhos. No futuro: o horizonte que esperneia contra o indelével do hoje e, mais ainda, do ontem. Ao onírico recorre uma corporeidade acometida pelo mal-estar. Adversos vestígios do dia rabiscam seus protestos como desenhos/desejos. Design da alma. Desiderato. O gosto por uma alternativa no descompasso da agenda.

Silêncios. No atemporal: a vasilha vazia ecoando mutismos. Eloquências irredutíveis ao verbo. Só assim inomináveis transcendem, inefáveis sublimam. O não-acontecido espelha o esgotado sub specie aeternitatis. Uma ausência presenteia seu mistério. E a existência inventa artifícios legitimadores ainda e porque absurdos. Espiritualidade pela sagração do nada.

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[*] Lembrando e parafraseando Caetano, ser poeta é como que viver um estado que não goza cidadania nem sofre exílio nos territórios da alegria e da tristeza...

 

 

 

 

31 agosto, 2012

30 agosto, 2012

corpoética e licença nitzona



   

Dentre os escritos de Nietzsche (1844-1900), Assim falou Zaratustra é emblemático de sua maturidade como filósofo e literato. Nessa obra, após o prólogo, a primeira passagem funciona como holograma. É um pequeno exercício metafórico que indica as metamorfoses do espírito até à superação do homem, até o homem tornar-se o que se é (mote que Nietzsche resgata de Píndaro). Nesse pequeno texto é possível vislumbrar poeticamente todo o pensamento nietzschiano, sobretudo seus mais caros conceitos: a estética como legitimação da existência, a transvaloração dos valores, a vontade de poder, o eterno retorno etc.
Nos parágrafos a seguir sigo o conselho de Zaratustra: não quero seguidores. Com essa licença...
... Vou pintar três metamorfoses da corpoética: como o pnêuma se transforma em camelo, o camelo em leão, e finalmente o leão em criança.
Muitas coisas pesam ao corpo saradão e caxias que aguenta sem chiadeira. Aliás, a força desse cara chega a berrar por mais peso ainda. Esse espírito de camelo pergunta, na moral: cadê aquilo que pesa messssmo?  Aproveita que tô de joelho e carca mais treco em riba. É isso aí, galera; manda vê um peso sinistro pra eu curtir numa boa. Afinal, não é se rebaixando que a metideza acaba deletada? Não é dando um grau na bobera que a gente zoa com a sabedoria? Ou caindo fora justo quando se deveria festejar uma façanha fudida? Ou escalando uma fachada de prédio bem alto só pra cutucar o Tinhoso? Ou se contentar com gororoba e tiririca de conhecimento, com o peito passando fome por conta do amor à verdade? Ou cair doente e despachar sangue-bão, adicionando como se fosse mano quem não saca o que fissura a cuca? Ou mergulhar em água suja, água da verdade, sem enxotar pererecas geladas e sapos pelando? Ou amar quem nos esnoba e estender a mão ao chupa-cabra quando assusta? Esse jeito feito besta de carga pesada tem pressa de chegar à caatinga. Como um camelo camela rumo ao seu próprio Saara.
Daí, nesse enguiço, acontece a segunda metamorfose. Baixa o espírito de leão. É um tal de vamo-que-vamo emplacar a liberdade, dominar esse deserto. O cara caça seu último senhor. Declara guerra a ele a ao seu deus derradeiro. Quer vencer o grande dragão. Mas quem é o grande dragão que o corpo não quer chamar de Deus nem Senhor? Demorou: Cê-Tem-Que é o nome do grande dragão. E o leão retruca: nem-pensar. Bem no meio do caminho, cabuloso, o Cê-Tem-Que. Feito um outdoor supermaneiro, piscando em dourado suas letras CTQ, CTQ, CTQ... Valores milenares resplandecem nesses leds. E a caixa de som do mais potente dragão vomita milhões de decibeis: todo o valor das coisas brilha em mim! E dá-lhe mais dragonice: todos os valores já foram criados e ponto final. Sou eu mesmo esses valores. Sem essa de nem-pensar, eu-quero-porque-quero. Se liga leitor: pra que serve o leão? Não basta a boazinha da besta obediente? Claro que o leão é incapaz de criar valores novos. Mas emplacar a liberdade (... que depois faz rolar novos valores) – isso o leão tem como. Bem na fuça do Cê-Tem-Que só mesmo o leão pra fazer valer a liberdade do sagrado nem-pensar. A pegada do espírito que camela é tão travada que essa coisa de liberdade e valores novos lhe parecem malandragem de mão-leve. Hipnotizado pelo Cê-Tem-Que, o camelo precisaria perceber seu estilo zé-mané como ilusão furada por conta de um estupro sofrido e nem debitado. Porém, contudo, todavia... Sem chance. Isso é coisa pra leão.
Então, o que é que ainda tá pegando? Qualé a do leão que não consegue o que só a criança é capaz? Acontece que a criança tá limpa, passou a régua, levou máquina zero, joga muito, cambalhota capoeira estrela, banca mo(vi)mento base, fala firme. É isso aí, gente. Pra jogar o jogo da criação é preciso aquela firmeza mais bacana. Dizer-sim pra própria vontade. Ficar de bem com o mundo.
- Assim falô Zecafuska enquanto dava um tempo numas paradas perto de Itaquaquecetuba.
 
 
 
 
 
 



 

 

 

 

31 julho, 2012

30 julho, 2012

corpoética, poder e saber


 

Transcrevo o que está às páginas 66 e 67 no CORPOÉTICA – cosquinhas filosóficas no umbigo da utopia. O contexto era o início dos anos 1980. Hoje ainda é possível detectar recorrências.

[...] entendo que tentar uma dicotomia no binômio saber-poder significa cometer equívoco historicamente irreparável. Parece-me mais acertado reconhecer que determinado saber sobre alguma coisa é o exercício decorrente de & concorrente para um determinado poder sobre esta mesma coisa.
Frequentemente o poder tem sido associado e até identificado com a opressão. Muitas vezes, frases como “o poder corrompe” são veiculadas sob o pseudo-envólucro das mais puras e imaculadas intenções, debaixo de alegações que, falsamente, se consideram desprovidas dos baixos e mesquinhos interesses. Essa espécie de conceito (... e conceituar é saber) sobre o poder, fora de dúvida, convém àqueles corpos que detêm um tipo de poder e que não querem ser molestados e/ou substituídos por outro tipo (alternativo e alterativo) de poder. Se este saber sobre o poder se aloja na consciência do corpo proletário, ideologicamente acondicionado em moralismo burguês, há reforço e prolongamento da imobilidade ingênua nesse corpo oprimido. Este, em sua contingente acriticidade, se incumbe de rejeitar, com nobreza de espírito, o poder para si. Só quando o corpo compreende (... e compreender é saber) que o poder não é uma entidade (por um suposto saber ontológico) que não é um ser com natureza em si (flexível apenas na aparência, nunca na essência)...; só quando o corpo experimenta (... e experimentar é saber) que o poder está numa dimensão metodológica, como instrumento de concurso e recurso de mediação para conservar ou transformar situações...; só aí, então, é que o corpo oprimido se desembaraça da ideologia e começa uma relação (... e relacionar é saber) crítico-manipuladora sobre o concreto-histórico, com vistas a sua libertação.

 

 

 

 

 

30 junho, 2012

29 junho, 2012

corpoética, tempo e temporalidade







Num belíssimo texto, “Caminho do campo” (Der Feldweg – 1949), Heidegger lembra a antiga ocupação cotidiana de seu pai com o relógio do campanário e com os sinos.  Destaca que esses mantinham um vínculo específico com o tempo e a temporalidade. Ou seja, seu pai cuidava de uma contagem mercê da natureza, e sacralizava uma fabulação cúmplice dos símbolos.

Ao patamar do senso comum a idéia de tempo não tangencia o que possa provavelmente apostar a melhor ciência sobre esse fenômeno. Contudo, diante da variância de dias-e-noites, de fases lunares ao longo dos meses, de estações anuais etc., o corpo tem uma percepção que possibilita inventar categorias para o tempo. Assim a cultura cria cronômetros e calendários.

Quando (... ah! Quando -... esse enigmático advérbio de tempo!) são agregados valores mais sutis, sedutores ou sublimes, essa sensação corpórea do tempo ganha status de temporalidade. O revestimento de cultura reordena a natura, como se isso fosse possível; um arranjo cosmético tenta domesticar o caótico. As horas viram situações e as datas enquadram sentimentos.

Por isso, eventualmente um ponto na ponta do ponteiro do tempo (seja no relógio de sol, de corda mecânica ou programa digital) talvez condense alguns predicados que apenas um conjunto de expressões quase sinônimas representa: momento apropriado, oportunidade inadiável, instante definitivo. Fértil, chronos se abre à espera de kairós.

É desse tipo de ponto que às vezes me valho nessas postagens. Tais pontos ocupam um espaço no painel da cibernáutica até que alguma textura de linguagem lhe tome o lugar. Mais que meros pontos no tempo, são pontuações latejantes para a temporalidade desse blog-lúdico, desse divertimento literal. Postagens engendram, por ocasiões, cópulas entre signos.










31 maio, 2012

30 maio, 2012

cor e corpoética





Conforme já postado, o neologismo corpoética foi criado quando escrevi um texto em referência ao dia da abolição dos escravos no Brasil. Naquele ano de 1982, há exatos 30 anos, eu destaquei alguns elementos tópicos: cor-pó-ética. O motivo, por suposto, estava relacionado a uma denúncia contra o equívoco de se reduzir os complexos fatores da negação imposta aos negros à diferença de cor na epiderme corpórea. Ou seja, ainda que a cor da pele jamais explique a variada gama de aspectos em torno da indesculpável escravidão sofrida pelos negros, assim mesmo a característica da quantidade de pigmentos da pele acabou absorvendo quase todo assunto subjacente à Lei Áurea, antes e depois de 13 de maio de 1888.

Desde então me tem instigado esse tema. Considerando que a corporeidade se constitui inclusive pela cor, essa palavra pode oferecer acepções no contexto somático, psíquico e pnêumico. Todas circunscritas no âmbito da materialidade histórica, socialmente cultural; e todas também potências únicas, inimitáveis, finitas.

Somaticamente, a cor que se enxerga é uma marca superficial, nem sempre rigorosa e definidamente representativa da etnia corpórea. Mesmo assim, pela cor da pele se fixa um registro que ressignifica a superfície: absoluta na ocorrência pontual. Irrepetível. Nessa epiderme toda a diferença corpoética mediante o fenômeno da cromaticidade (do grego, Chroma; do latim, Color).

Psiquicamente, cor representa os feitos e efeitos de emoções e sentimentos. Tem por emblema o coração com seus afetos contraditórios. Tal cor, surpreendente como camaleão, transita por gozos e angústias sempre intransferíveis. Nesse coração se olha a silhueta borrada e móbil do que é específico de cada desenho corpoético: sua indômita cordialidade (do latim, Cor, Cordis).

Pneumicamente, cor corpórea sugere a imaginação inventiva a criar sentidos para a existência. Trata-se de um ver espiritual, uma visão que compõe orientações referenciais – profundas, últimas, decisivas. Como entranha grávida de mistérios, vibra num singular cromatismo corpóreo essa música solo e seus sonhos com acordes corais. Daí uma corpoética que consagra, através de símbolos, sua colorização para a vida.








30 abril, 2012

29 abril, 2012

corpoética e beleza estética




Este blog está completando quatro anos. Naquele abril de 2008 a terceira postagem foi uma transcrição, quase ipsis litteris, das primeiras páginas de um capítulo que escrevi para o livro Qualidade de Vida, organizado por meu amigo Wagner Moreira, e publicado pela Papirus Editora. A seguir transcrevo, também com alguns ajustes, o complemento daquele capítulo.

Flagrando a beleza no mo(vi)mento de te(n)são da corpoética, quero designá-la como uma ênfase especial daquilo que o desejo corpóreo chama por qualidade de vida. Quando o corpo pergunta pela beleza, a questão estética aparece de maneira mais densa e este aparecimento não se restringe apenas ao que a corporeidade é e vive em algum detalhe rápida e facilmente reconhecido como portador de caráter estético. A abrangência da beleza que interessa à estética referida nesta postagem se estende por toda complexidade e peculiaridade e historicidade e possibilidade e criatividade do corpo. Aliás, a estética é um dos encadeamentos em que a corporeidade melhor encontra a si própria na cultura. Portanto, ao dar relevo à beleza, a estética é um recurso conector privilegiado na qualidade de vida corpórea que, como noção, venho perseguindo neste blog.

Mas para que esta conexão subentendida pela estética extrapole uma perspectiva meramente cumulativa e superficial, devo explicitar porque a qualidade de vida corpórea, ao exigir qualidade de vida em te(n)são, toma também a beleza em seu sentido de mo(vi)mento. Noutros termos, a conexão que a estética favorece na corporeidade só é relevante como qualidade tensa. Na beleza criada pela corporeidade subsiste sempre uma tensão desejante e não uma síntese superadora. Afinal, o mo(vi)mento de te(n)são da corpoética reafirma que, sem a segurança das convicções calmas e controláveis, há na beleza uma precariedade com poderes pedagógicos, uma espécie de guia de meio-fio na contramão da consolução (na calçada inversa da suposta solução consoladora), uma saída fantástica que, pelo recurso criativo, manifesta o quanto o corpo deseja inventar, o quanto o corpo transcende, mesmo dentro de seus limites.

E, como sugeri acima, se a beleza (em face de seu fator de tensão) funciona como excelente conectivo da corporeidade, parece-me óbvio que o corpo não tenha como ser representado sinteticamente, reduzido a meia dúzia de conceitos à mercê de categorias e paradigmas sistematizadores. E justamente porque a beleza subverte esses construtos exclusivamente lógicos é que pode o impossível: pode servir como uma espécie de trans-construto para a qualidade de vida da corporeidade. Enfatizando, reescrevo: a beleza é uma possibilidade para o impossível. Ou seja: beleza é movimento, tensão, ausência de momento síntese.

A estética nestes parágrafos, portanto, é mencionada como ferramenta adjetiva em relação à beleza substantiva, naquilo que esta oferece de trans-construto. Esta estética, pois, serve-me para indicar a qualidade do movimento, da passagem, da mudança de tanta coisa mais que se designa a partir do prefixo trans – que, aqui e agora, privilegio como inerente ao marco semântico beleza. Como trans-construto, reconheço que a beleza é sempre provocadora de horizontes, muitas vezes inquietando passagens e, não raro, disseminando desorientações...

Desse modo, com essa estética que acompanha o trânsito da beleza, devo abordar os construtos sobre a beleza definidos pela razão; porém, posto que transcodifico a beleza como trans-construto, tenho o prazer de atravessar a racionalidade em companhia de outros modos de conhecer, principalmente a sensibilidade. Só que assim sou obrigado a admitir o quanto estas linhas ficam em débito para com as nuances da sensibilidade. Contudo, não me resta alternativa ao grafar esta postagem: valho-me bem mais da verbalidade sócio-racional pra me tentar compreensível. Mas, em compensação, conto com sua leitura não apenas racional; também inescapavelmente estética: você está sempre sentindo algo ao me ler. Desde sensações visuais estimuladas pelos tipos e tamanhos de letras, pelas cores e diagramação da página..., cruzando com sensações ao seu redor, trazidas pelos sons e temperaturas do ambiente, pelos movimentos de outros corpos e objetos..., incluindo sensações táteis como peso e textura de teclas e mouse, acomodação na cadeira..., até sensações advindas de lembranças agradáveis ou preocupantes, de inspirações ou sustos...

Como você bem sabe, o vocábulo estética tem por origem aisthesis – substantivo feminino da língua grega, ligado ao significado de sensação, faculdade dos sentidos, matéria prima da sensibilidade somática. Tanto é que anular o sentir decorre da anestesia (an: negação; estesia: sensibilidade). É evidente que anestesiar um corpo no seu todo ou em alguma parte não implica anular o sentir apenas somático. Como tenho insistido, a corporeidade não é uma mera dimensão material temporariamente ligada a outras dimensões como a mental, a emocional, a espiritual etc. E já que o corpo só é corpo numa composta complexidade somático-psíquico-pnêumica (e não apenas como arranjo somático/psíquico/pnêumico justaposto), uma anestesia nega o sentir corpóreo de modo bastante múltiplo. Por exemplo, quando saio do consultório odontológico, estando ainda sob o efeito de alguma anestesia, não sinto de modo pleno o gosto do que me vier à boca; a qualidade do meu paladar fica comprometida; provavelmente também chegue a evitar maiores e melhores contatos intercorpóreos; e ainda me ocorra colher algum declínio em meu jeito de teimar com a vida etc. Claro que neste exemplo banal passo longe, bem longe, dos dissabores que tantas realidades construídas socialmente impõem em casos graves e agudos que atentam contra a qualidade (beleza) desejada pelo viver corpóreo. Mas o que o exemplo pretende, com efeito, é sinalizar como a sensibilidade (e sua perda) não atinge a corporeidade tão somente em sua dimensão somática; abarca, isto sim, toda a corporeidade somático-psíquico-pnêumica, econômico-político-cultural, eco-sócio-ética, semio-tecno-artística etc. etc. etc.

Deixando de lado o aspecto da negação à aisthesis e buscando seu caráter positivo e afirmativo em relação ao tema da qualidade de vida corpórea, acho oportuno lembrar que, se o termo estética apresenta uma ascendência grega, outro fato se insinua: não convém simplificar o complexo mo(vi)mento de te(n)são da corpoética, ligando Atenas a Brasília numa ponte aérea mediada por algum almanaque lingüístico incompleto (...recordando, inclusive, que entre etimologia e semântica há muito mais que voocábulos de carreira). Sendo assim, outros elementos históricos me inquietam com maior apego e minha impertinência insiste apresentá-los a seguir. Então, convido você a afivelar seus cintos condescendentes e manter seu bom gosto na posição cordial.
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Como primeiro elemento histórico, na panorâmica interna ao recorte geo-político envolvendo acropolitanos e candangos, eu entendo que a estética volta-se destacadamente ao âmbito cultural, sem esquecer nisso tudo que cultura, política, economia etc. apresentam recíprocas interferências. Penso ser incorreto, pois, traçar uma linha direta de tradução, a jacto, entre o contexto do que significou aisthesis para os antigos gregos e o que estética conota hoje para os corpos de língua portuguesa que vivem nas terras brasileiras. Portanto, uma pergunta me parece obrigatória: que roteiros culturais escalam o percurso aisthesisestética desde a Grécia clássica até ao Brasil de hoje?
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Como segundo elemento histórico, a pergunta acima (que, por limites óbvios, deixo em aberto) leva-me, pelo menos, a uma decolagem a partir da pista onde uma aisthesis pré-socrática foi embargada por uma filosofia supostamente mais lógica que procurava desqualificar a beleza trágica e dionisíaca e que atrelava outra proposta de beleza a outros valores ético-racionais idealistas. Sobrevoando no tempo e no espaço faço uma pausa em plena península ibérica de paisagens medievais e renascentistas, e então não tenho como ignorar que as estéticas mourisca e toscana contagiaram e inquietaram os padrões de beleza portugueses e espanhóis. Depois de passar sobre o Atlântico, registro várias e impressionantes estéticas empírico-pragmáticas de tupis, guaranis, tapuias etc..., permeadas de belezas anteriores ao achamento cabralino. Além disso, enquanto aguardo autorização para seguir viagem, constato também que negróides algemados em naves de bandeira branca e cristã trazem estéticas de diferentes grupos africanos, capturados durante a ignomínia escravista. Sem deixar de notar ainda, é claro, ao passarem os minutos das décadas, as inúmeras estéticas oriundas de invasões e imigrações provenientes das mais diversas e remotas latitudes culturais. Concluindo: desde a Grécia clássica até ao Brasil de hoje sempre houve tensões sobre o que se qualificava como beleza, podendo até mesmo ser tomado como qualidade de beleza o chamado belo e/ou o chamado feio.  E se eu posso encontrar hegemonias mais ou menos definidas nas estéticas de culturas pouco miscigenadas, sinto enormes dificuldades para fazer o mesmo em relação às estéticas de culturas mestiças como a nossa. Portanto, outra pergunta se me impõe: como qualificar a beleza alfandegada na corpoética brasileira contemporânea?
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Como terceiro elemento histórico, dado que a pergunta supra-expressa exige a confirmação de uma hipótese, a saber, se no Brasil há mesmo uma brasilidade, um corpo, uma cor, um pó, uma ética, uma poética que sintetizem a corpoética brasileira..., desconfio ficar bastante prejudicada qualquer tentativa de resposta com pretensões de seriedade. Como muita gente assevera, também afirmo que a identidade brasileira ainda carece de nitidez e, principalmente, de algo que a sintetize. E, quiçá, seja essa mesmo a sua identidade ainda por muito tempo adiante: um embaçamento desfocado e transgressor da nitidez sintética, da clareza geralmente esperada e exigida pelos construtos ocidentais imperantes. A corpoética brasileira teria, assim, uma identidade com incontáveis flutuações e turbulências. Refratária ao pseudo-equilíbrio absoluto, a corpoética brasileira parece gingar ao batuque de uma estética de te(n)são, de mo(vi)mentos irredutíveis ao conceitual de qualquer viés. E como quase tudo que transita nesse âmbito de escape, de dissimulação, de verossímil bagunça, a estética da corporeidade brasileira pode ser etiquetada como descartável, sem valia, coisa menor: beleza boba. Mesmo assim, fazendo parte de um pequeno coro, também corro o risco de apontar nessa brasilidade, evasiva e fugidia, zonas estéticas que pipocam um qualitativo vital mestiço de modo algum desprezível. Daí sobra-me uma última pergunta: qual é a beleza dessa bagagem-bobagem que beira brasilidade?
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Ao ensaiar um exercício de resposta, vou finalmente dizer o que penso sobre o binômio do tema até agora contornado: A beleza estética só deve ser considerada diante duma qualificação da vida corpórea em sua concretude cultural histórica. No nosso caso, a beleza estética brasileira aproxima-se daquilo que padece de definição; trata-se de uma beleza estética indefinida.  E isto não me parece ser, sob a perspectiva do mo(vi)mento de te(n)são da corpoética, demérito algum; talvez seu contrário. Afinal, concordo que a beleza valha por estar isenta de subserviência a qualquer fim, a qualquer síntese lógica, ética ou mesmo estética. Sem finalidade extrínseca, à beleza resta brincar com o in-de-finível, com aquilo que não tem limites ou cujos limites sejam desconhecidos. E mais do que nunca, então, a beleza qualitativamente bela e/ou feia alça sua dimensão lúdica, gratuita e, acima de tudo, inventiva.
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Em termos dessa estética, na mestiçagem a invenção é reinvenção. A propósito, basta um rápido olhar para a arte brasileira, emblematicamente mestiça. Confesso, pois, ao ver nosso jeito estético clássico e caboclo, que nossa brasilidade muito se parece com a mistura de tudo, como numa feijoada, carnavalizando a beleza desde Atenas até Brasília, de Fídias a Niemeyer. A beleza dessa qualidade de vida nunca foi e nunca será uma beleza achada, algo que se encontra pronto. Essa beleza é produção mesmo. Aliás, muito mais que o produto, nessa estética é destacado o processo da nova feitura do já feito, um refazer sem fim, válido pelo que funciona como expressão em si, desejando colocar os resultados que não sejam estéticos no plano devido, ou seja, apenas necessários. Lembro que numa corpoética a necessidade está sempre aquém do sentido último que transcende o simplismo das relações satisfatórias; o valor estético é o gratificante da graciosidade.
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Nesse clima, chego a eleger como protótipos de nossa estéticaboclássica dois artistas que se notabilizaram pela maneira como fizeram e fazem suas obras, independentemente de seus eventuais sucessos e/ou fracassos de ordem econômica, política etc. Um se chama João Gilberto, reinventor do canto brasileiro, artesão tecnicamente sofisticadíssimo que devorou e reprocessou estilos rítmico-melódicos europeus, africanos, americanos etc., desembocando-os numa dicção de aparente ingenuidade, mas que, sem dúvida, revela um apuro não só original como sobremodo cioso do jeito de se cantar. Em João Gilberto a mensagem da canção fica quase que subordinada à sua embalagem. O importante, parece, não é tanto o conteúdo e sim a forma como João Gilberto reinventa a beleza. Outro artista, já falecido, que tenho por protótipo de nossa estéticaboclássica, chamava-se Mané Garrincha, cuja estética traduzia a bossa-nova joãogilbertiana para seu futebol com pernas tortas. Como jogador do esporte bretão em várzeas poluídas ou em estádios assépticos, Mané reinventava seus Joãos, seus parceiros de ingenuidade, seus cúmplices nos dribles quase inconseqüentes. Mané quase esquecia o gol (goal, alvo, finalidade, como diriam os ingleses, inventores do foot-ball), contudo quase nunca forguetava o gostinho de uma finta, de uma festa, de uma alegria para o povo. Também para Mané a finalidade pragmática quase ficava sucumbida pela gratuidade estética.
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Aprendo com João Gilberto e Mané Garrincha que a beleza fica por conta do quase, numa incompletude densa e tensa. Aprendo com eles que na estética deve haver um privilégio para o enquanto, para o durante..., nem tanto para o acabar, o chegar, o findar. Óbvio! A opção qualitativa deve ser pela transcorrência do viver e não por sua consumação. E quando esta estética é vista com mais vagar, fica evidente a gratuidade do movimento de tensão, fica notável como se abdica da obsessão finalista em favor do brejeiro, do que se presta à brincadeira, numa espécie de estética transcendente em sua imanência – na qual se esconde um sentido de beleza quase mítico, sagrado, eterno em plena temporalidade.
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Estou, pois, convencido que a corpoética brasileira vem inventando esteticamente seu sentido último pra existência – ainda que estes inventos estejam disfarçados em religiões, filosofias, ciências, artes, técnicas etc. que visem dar alguma qualidade de vida na complexidade, na historicidade, na peculiaridade, na possibilidade e na criatividade corpóreas.
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E recolhendo-me ao silêncio novamente, sem deixar conclusão ou síntese, apenas reitero que o desejo por qualidade de vida corresponde aos mo(vi)mentos de te(n)são que anseiam pela beleza no compósito somático-psíquico-pnêumico; pela beleza do pão acessível em todas as mãos; pela beleza no contrato civil transparente; pela beleza no espelho semiótico do espetáculo; pela beleza no colorido pontual-pessoal-punctual; pela beleza nos valores, nos voleios e nos vazios da eticidade; pela beleza no estranhamento espontâneo e experimental; pela beleza no convívio com o meio ambiente; pela beleza no mistério do umbigo; pela beleza nas lágrimas indiciais do ser gente mesmo; pela beleza nas lâminas corretivas da alegria; pela beleza no desejo da beleza latente ou em evidência; pela beleza no vit(r)al da realidade refletida num jeito corpoético...