28 Janeiro, 2012
27 Janeiro, 2012
corpoética e cutículas gramaticais
De vez em quando convém retomar rótulos e tentar melhores contornos para os vocábulos. Esse é o caso desta postagem interessada em remarcar acepções para o nome deste blog (... e, de carona, como pretexto de sinal que homenageia celebração ocorrida há seis anos).
Em letras minúsculas ou maiúsculas, corpoética é o neologismo que se apresenta como mochila semântica; carregando termos e conceitos de substantivo, adjetivo e, eventualmente, cumprindo funções de verbo a partir de ajustes da primeira conjugação.
Como substantivo, corpoética nomeia um modo de se referir ao complexo corpóreo, bem como seu estudo. Já o adjetivo corpoética qualifica toda e qualquer experiência da corporeidade, sem qualquer juízo de valor (... ainda que se possam constatar algumas oportunidades em que a adjetivação comporta um horizonte valorativo desejado).
No raríssimo funcionamento como verbo, corpoeticizar roça a língua e brinca com a linguagem pretensiosamente estética. E consoante ao mo(vi)mento de te(n)são que pulsa na palavra-valise, é óbvio o privilégio da forma nominal do gerúndio: corpoeticizando.
Convém, a propósito, assumir um contraponto frente às críticas que o gerúndio vem sofrendo, aliás, rigorosamente corretas. Entretanto, ao fazer a defesa dessa forma nominal também percebo que meu corpoeticizar nem sempre se expõe de jeito explícito. Arrisco supor meio desavergonhadamente: continuo cometendo gerúndios neológicos que engatam-engastam-e-engasgam com trocadilhos e metalinguagens afeitos à corpoética. E para chamar minha mão à palmatória por conta de gratuitos hermetismos conjugais, deixo badalando abaixo um si(g)no:
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Doiderando boçorocas.
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Doiderando boçorocas.
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Tamielando medulas. Luanando lençóis.
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Terracotando paletas. Gargantilhando eclipses
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Quitutando caramelos. Rodrigando agregantes.
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Antonizando sintonias. Reginando genitivos.
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Almirando carmins. Kampeando serranias.
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Caravelando marinas. Perispirituando janeiros.
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Alphavillizando philion. Kodophando camanducaias.
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Karinando sorbetes. Assilviando cepas. Envalterando zênites.
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Renatando relações. Nogueirando oliveiras. Juniorizando doutos.
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Regerberando pastifícios. Peninsulando ilhas. Sandwichando garçon.
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Sobrinhando órbitas. Pivotando primazias. Dezenovando pares.
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(27)
31 Dezembro, 2011
30 Dezembro, 2011
corpoética e felicidade
Com mais freqüência nas frases de final de ano, a palavra felicidade até parece que ganha substância real. Aliás, há quem a suponha entidade que subsista em si e por si mesma, podendo ser conhecida, ou conquistada, ou doada, ou prometida, ou...
Também há quem considere a felicidade uma idéia, um valor, um desejo..., que se relaciona às coisas reais. Portanto, não haveria a felicidade no sentido substantivo real e sim realidades adjetivadas como felizes por causa de certas propriedades afeitas a idéias, valores e desejos. Logo, enfatizando, essas coisas felizes assim o seriam quando derivadas de casos e causos de fato felizes. Com um detalhe importante: a definição do que seja feliz escaparia a toda e qualquer redução conceitual. O contorno da idéia, do valor e do desejo compatível a feliz se ajustaria a tantas quantas formas culturais se pudessem criar.
No contexto de mo(vi)mento de te(n)são da corpoética (... exposto ao longo dessas dezenas de postagens) alguns fatores comparecem na consideração sobre a felicidade. A começar com o reconhecimento que o corpo faz de uma polaridade inescapável: o que quer que seja feliz só o é tendo por diferença efetiva o que é infeliz. Noutros termos, a corporeidade sabe e sente o que é ser feliz porque também sabe e sente o que é ser infeliz. A dialética insolúvel entre essas experiências concretas possibilita alguma abstração sobre o que significa a tal felicidade.
De modo muito mais comum, essa dualidade é encarada pelos corpos como se constituindo por oposição excludente: feliz ou infeliz. Uma coisa ou outra; não ocorrendo uma coexistência jamais.
Um pouco menos comum é a perspectiva corpórea por composição justaposta aditiva: feliz-e-infeliz. Admite-se uma somatória de vivências inseparáveis. Uma coisa acontecendo necessariamente com outra contrária.
Bem restrito é o ponto de vista da corporeidade que equaciona suas linhas como que por reflexo quase puro e simples: feliz/infeliz. A imagem de uma coisa está na representação da outra. Mesmo que polarizadas, não são rigorosamente antitéticas. Tudo se resumindo em posicionamento; ângulo de visada.
De maneira menos usual também essa dupla de pólos é tida pela corpoética como que portadora de uma complexidade completa e complementariamente inclusiva: (in)feliz. Uma coisa está na outra desde a interioridade de ambas. Em lugar do espelho recorre-se a uma mandala. No seu virar e revirar, ser feliz é ser infeliz e vice-versa desde a gênese até a eventual revelação mais exaustiva possível.
E particularmente, ao sabor discutível desse blogueiro e talvez em nome de uma pretensiosa escrita neo-barroca, ainda acho que vale a pena brincar com essa polarização. Nesse jogo literário se trapaceia conceitos e signos. Uma coisa se estranhando noutra. Assim imagino que coisas, casos e causos se entranham melhor, antropofagicamente. Aquilo que significa dentro de uma negatividade (in) fica fora e anterior à chave hermenêutica do real. Nesta se confere como se confina a prevalência da infelicidade do fel parindo a fé como festa feliz, numa piscadela apostrofagada. Na teimosia inventiva vinga a marca da cultura a bolinar – enquanto puder – a imbatível natura. E como excesso beirando abuso se aposta para o âmbito posterior do túnel verbal uma luminosidade que, pronunciada à moda germânica, recupera a fonética da sílaba lusitana no termo do termo em questão: in{fe’l}lüz.
30 Novembro, 2011
29 Novembro, 2011
corpoética em sub.stância
A propósito de uma apresentação na Semana de Filosofia promovida pelo Centro Acadêmico Immanens (UNIMEP) faço novamente o registro de um tema marcado pela licença poética: metafísica quântica – pessoa em desassossego.
Conforme dediquei essa apresentação aos participantes de um grupo de leitura e escrita filosóficas (GLEF) nos idos 2001-2002, também repito aqui seus nomes: Alessandra, Arary, Cibele, Everton, Flora, Janyne, João, José, Lídia, Lilina, Lúcia, Marcelly, Marco, Mariana, Nelma, Neuza, Nilson, Nilton, Paulo, Rodrigo, Rosana, Sandro, Sebastião e Thiago. Essa lembrança se impõe pela saudade e pelo reconhecimento da importância desse Grupo no estudo que fizemos de algumas passagens do Livro do Desassossego (Fernando Pessoa/Bernardo Soares).
Naquela época o Grupo objetivava caracterizar circunstâncias em que a escrita fora tomada como invenção de sobrevivência na presentidade do personagem Bernardo Soares diante da dúvida de ser. Portanto, a questão metafísica focava o ato de escrever numa situação literária e, por isso mesmo, potencialmente reveladora de uma verdade aquém e além dos limites lógicos.
Conforme alertei ainda, meu interesse nessa apresentação (quinta-feira da semana passada) foi sugerir impressões imprecisas sobre alguns nano-fenômenos da condição humana, expostos desde o intra-atônico Bernardo Soares. Esse ajudante de guardador de livros surgira como alguém a escrever sobre uma sub.stância desassossegada, sobre um viver cotidiano-quântico composto pelo incerto, indeterminado, incompleto, dual, complementar, indizível, fugidio...
E para ilustrar tal metafísica dúbia fecho essa breve postagem citando um fragmento atribuído ao semi-heterônimo de Fernando Pessoa:
Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espetáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
Estas páginas, em que registo com uma clareza que dura para elas, agora mesmo as reli e me interrogo. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro quando sou?
Como alguém que, de muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo, e sou, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa.
É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus. Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.
Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objeto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém. Há, algures, um subterfúgio transcendente, uma divindade fluida e só ouvida.
Releio, sim estas páginas que representam horas pobres, pequenos sossegos ou ilusões, grandes esperanças desviadas para a paisagem, mágoas como quartos onde se não entra, certas vozes, um grande cansaço, o evangelho por escrever.
Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas.
Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não compreendo nada...
31 Outubro, 2011
30 Outubro, 2011
corpoética espelha e espalha
Conforme duas categorias conceituais destas páginas, o corpo espelha cor e pó. Apresenta algo contraditoriamente peculiar e histórico. É único portando originalidades, e comum refletindo influências. E por mais duas categorias conexas, o corpo espalha sua ética e sua poética. Concretiza contradições no mundo dos valores e comportamentos, e na atmosfera das criações pragmáticas e estéticas. É superação de facticidades. Por isso, corpoética espelha e espalha.
Se no espelhar ecoa, relativamente, uma passividade; no espalhar transborda, em geral, desdobramentos intencionais e efetivos. Um mo(vi)mento de te(n)são percorre a corporeidade desde dados até programas, atravessando subsídios fortuitos e produtos referenciados. A corpoética se reinventa para ser ela mesma: culturalmente irreversível ou outra vez pura natura.
(...)
Com esta postagem tomei a liberdade de completar um tríplice registro verbal – já inscrito no título acima. A desculpa é meio desavergonhada; debitada ao que esse outubro denuncia como entrada do blogueiro nas supostas vantagens sugeridas pelo Estatuto do Idoso.
Trinta anos atrás, aproximadamente, escrevi minha memória de um episódio vivido por volta dos dez anos de idade. Contei como conheci o mar, sua praia espelhada com espumas espalhadas. E esse texto, antes publicado no CORPOÉTICA – cosquinhas filosóficas no umbigo da utopia, reaparece na postagem deste outubro 2011 do www.pneumica.com
Na segunda metade da última década de noventa escrevi um poema sobre a passagem dos anos através do kairós corpóreo. Revisitado, revisado e mais assumido neste outubro tais versos legendam um signo de minha epiderme na capilaridade tensa dos fatos espelhados e feitos espalhados. Para con-fe-rir: www.fotogrifo.com
30 Setembro, 2011
29 Setembro, 2011
corpoética, finitude e sentido
Antes da corporeidade se constituir prevalecia sua física, sua base material, sua elementar concretude. Com o acréscimo da complexidade humana, o corpo consegue se perceber um pouco mais e melhor: primariamente natureza e prioritariamente cultura.
Essa percepção corpoética em mínima lucidez significa o corpo se saber finito. Não existiu antes e não existirá depois. Sua porção natural é milagrosamente um hiato em meio ao vazio – o que se reveste de enorme importância, pois o corpo não é não-ser de modo absoluto. Afinal, a existência é uma rasteira definitiva no inexistir.
Outro detalhe dessa percepção ocorre quando a corporeidade se dá conta que finitude é um conceito possível justamente porque sua condição cultural inventou linguagens. Cada sistema de signos reapresenta coisas, casos e causos (... tríade recorrente nessas e noutras postagens) que formatam sentidos, inclusive o sentido abstrato do que seja finito.
Assim, os expedientes semióticos tradutores de sentidos se proliferam pelas filosofias, ciências e artes. Do mítico e metafísico ao técnico e pragmático, as linguagens explicitam ou sugerem recursos frente à irrevogável finitude corpórea. E só para exemplificar vale conferir como visual e simbolicamente esse tema é exposto numa cena do filme “O carteiro e o poeta” (Il postino, 1994).
Obra cinematográfica dirigida por Michael Radford e musicada por Luis Bacalov, Il postino alcançou merecido reconhecimento. Público e crítica especializada avaliam e aplaudem a adaptação para o cinema do romance Ardiente paciencia escrito por Antonio Skármeta. Interpretado de modo visceral e derradeiro por Massimo Troisi (1953-1994), Mario Ruoppolo é o carteiro - personagem central. Ao terminar o primeiro quarto do tempo total do filme, procurando cumprir o conselho dado pelo poeta Pablo Neruda (na ficção, personagem vivido por Philippe Noiret), o carteiro caminha pela praia à espera da poesia em forma de metáforas.
Essa cena na praia dura apenas vinte e cinco segundos que podem ser precariamente assim descritos: durante três segundos antes da figura humana do carteiro aparecer, o enquadramento da tela retrata a praia em primeiro plano, seguida do mar e uma ilhota centralizada na linha do horizonte, e o céu ao fundo. Depois o carteiro surge (corpo inteiro) andando desde a direita do quadro, tendo sua cabeça captada pela câmera que a situa na mesma altura da linha do horizonte. Durante o deslocamento do carteiro a câmera está inicialmente estática e depois acompanha o movimento de Mario, havendo o instante em que corpo e ilhota se cruzam e outro instante em que carteiro e acidente geológico se posicionam eqüidistantes, bem próximos das extremidades laterais do quadro. Então a câmera pára e o carteiro prossegue até sair do enquadramento, pela esquerda. O final da cena dura três segundos com a imagem da ilhota, do céu e da praia como únicos remanescentes sígnicos.
(...)
Hipótese corpoética: a finitude humana invade a natura e desaparece; mas através da cultura pode haver alguma invenção de sentido.
27 Agosto, 2011
16 Agosto, 2011
corpoética num origami de-mais
A propósito das dobras corpo/coisa, coisa/nome, nome/mais (vincadas na postagem anterior) vou agora adicionar/agregar/ampliar o sentido do advérbio mais sugerindo um acróstico relacionável à realidade processada pelo corpo: movimento, arte, idéia, sabor. Portanto, para cada letra desse mais procuro mais um jeito de renomear fenômenos de cultura que intensificam, adensam e tensionam o viver corpóreo.
Vida é movimento. E movimento é um nome dado àquilo que altera a realidade/corporeidade. Às vezes, o movimento regular e repetitivo; outras, um movimento aprendido e habitual; ou ainda, movimento fortuito e descompassado. Movimentos do coração, da linguagem, do imponderável... Também é movimento a mudança nas maneiras de viver: da mesmice para o novo (e vice-versa); do seguro para o arriscado (e ao contrário); da indiferença para o compromisso (e pela via oposta).
Vida é arte do movimento no movimento das artes. E arte é um nome dado àquilo que recria a realidade/corporeidade. Desde o seu significado como técnica, ciência, recurso, até seu entendimento como obra dotada de sentido em si mesma, a arte qualifica a vida, projetando-a para além dos limites do natural. Sempre que arte é produzida, a natureza das coisas se reveste de artifícios reinventores do próprio artista e dos que são alcançados por sua expressão.
Para cada arte na vida uma idéia emerge como imagem. E idéia é um nome dado àquilo que contempla a realidade/corporeidade. Aliás, parece razoável imaginar que as idéias não têm vida própria; vivem enquanto vivem os corpos que as engendram e outros que a alimentam. A variedade de idéias, assim, deve ser tomada como chance privilegiada de cultivo da vida. Sem dúvida, oportunidades imperdíveis podem estar camufladas sob nuvens de abstrações. Ou seja, abdicar do encontro com as idéias é renunciar à vida civilizada e se esconder na caverna da barbárie.
Enfim, o saber das idéias movimenta o sabor das artes. E sabor é um nome dado àquilo que imediatiza a realidade/corporeidade. Desse modo, convém suspeitar que o sabor não seja refém do saber. Um conceito por melhor que seja não circunscreve a qualidade do sabor. Saborear os movimentos, saborear as artes, saborear as idéias... Em síntese, esse saborear também equivale a um princípio irredutível: sabor como primeiridade: sensação e sentimento; sabor como experiência do que palpita na presentidade.
31 Julho, 2011
30 Julho, 2011
corpoética e nomeação
Simultânea à sua capacidade de trabalho, a necessidade de nomear é uma característica básica da corpoética como cultura. Parece não haver dúvida: fazer as coisas com alguma intenção e representar o mundo com variados símbolos constituem a marca e a diferença da condição humana. A importância dos nomes dados às coisas está relacionada à possibilidade de levar a cultura ao estágio da comunicação, ou seja, havendo um acordo mínimo entre os corpos quanto aos nomes que dão às coisas está próximo um precário-porém-pragmático consenso sobre a sensação e a percepção dessas coisas.
Outro detalhe notável é que a partir de seus nomes as coisas ficam como que portáteis. Quando um nome é pronunciado ou escrito, a coisa a que ele se refere se apresenta à mente dos que o escutam ou lêem. Com o nome, a coisa cabe em toda palavra falada ou escrita. O nome, portanto, é uma ferramenta poderosa na experiência cultural da corporeidade: um instrumento que passa a refazer o mundo e a refazer os próprios corpos. E esse mundo refeito é novamente nomeado e assim se move a cultura.
Portanto, ao nomear, o corpo experimenta um nexo adicional entre o já existente e aquela representação que está surgindo. Em suma, para a corpoética, sempre um nome é mais.
30 Junho, 2011
29 Junho, 2011
corpoética, caleidoscópio e ensino
O caleidoscópio nasceu na Inglaterra nos primeiros anos do século XIX, mais precisamente em 1816. Seu inventor, Sir David Brewster (1781-1868), conhecendo grego antigo, uniu as palavras kalos (belo), eidos (imagem) e scopeo (vejo). Assim, caleidoscópio quer dizer vejo belas imagens.
Já o ensino nasceu bem antes, muito antes. Nasceu com a cultura; é cultura. O ensino resulta de uma impressão de signos. É, sem dúvida, insigno, impregnação de marcas. Por conta do ensino também se forjaram políticas acadêmicas e pedagógicas com seus cursos, suas disciplinas, aulas, didáticas...
No contexto da corpoética talvez o caleidoscópio se preste como emblema para uma sistematização de signos. Com seu movimento a ecoar invento, fragmento, deslocamento, aproveitamento, espelhamento, ondeamento, evento etc., o caleidoscópio ilustra como a corporeidade faz girar signos em sua poiesis.
Na condição humana, a passagem da esfera natural para o âmbito da cultura não é automática. Ser humano não é necessário e nem preciso; é um caso confuso de liberdade. Sem linguagem e educação permaneceríamos bichos. Com elas, o melhor disfarce: parecemos gente. Valendo-nos do que a espécie possibilita e do que os signos representam, inventamos a nós mesmos.
A grandeza da linguagem e da educação é também seu limite: os signos e o insigno representam e repõem pedaços da condição humana. Assim, a realidade e a totalidade são invenções apressadas e precárias de fragmentos que nem sempre a linguagem e a educação esgotam. Por isso, pedagogia se faz com esboços de trejeitos e lascas de desejos.
Através da linguagem, a arte da educação é uma ciência; melhor ainda, uma sapiência. Haja vista que por certo, direto e reto só mesmo a morte, então a gente reinventa a vida deslocando fragmentos. Acima de tudo, pedagogia é excursão. Saída do curso. Teimosia rebelde. Desenho de um desvio. Curva ao sentido. Parábola. Distração que diz-trai a morte. Adiamento da chegada ao fim.
Na língua se sente o sabor. Na linguagem se sabe a educação. Desta faz bom proveito quem degusta leituras e experimentos como gomos de tangerina. Contudo, nem sempre a fruta é própria, acessível. Há que se recolher, pois, circunstâncias pra arranjar nacos de banana-terra, abacaxi-water, manga-feu, maçã-aire etc. Daí, um aproveitamento melhor: saladaula antropofágica.
A educação depende da imitação assim como narciso de sua imagem. O idioma da pedagogia se chama espelho. E pelas versatilidades das ópticas, são inúmeras as mímicas curriculares, inclusive as emancipadoras e instigantes. Afinal, sempre é bom lembrar que não há outro jeito da gente ser, conhecer e fazer senão pelos espelhamentos que nossas linguagens mediam.
Teorias surgem, teorias somem. Didáticas vêm, didáticas vão. Currículos se sustentam, currículos se esgotam. Os ondeamentos pedagógicos não cessam de cumprir descobertas fantásticas e desatinos assombrosos. Gira a história e linhas educacionais se tensionam e se negam e se superam e se repetem e se rejeitam e se renovam e se acabam e se reciclam e se tensionam...
Em meio a isso tudo..., ainda vemos belas imagens: uma aula como varanda arejada, quintal exposto, pátio aberto... Ainda vemos uma lição como leitura sedutora, escolha cordial, livre passeio de interrogações e reticências. Ainda vemos belos momentos de surpresas inesquecíveis, eventos pedagógicos preciosos, raros, gratificantes... Corpoética com insignamentos caleidoscópicos.
31 Maio, 2011
30 Maio, 2011
corpoética e poiesis: ligeiras abordagens conceituais
As correspondências no nosso idioma para o vocábulo grego poiesis estão próximas às noções de criar, abarcando as idéias de fazer, confeccionar, fabricar, realizar etc. E, sem dúvida, essas noções e idéias, com suas variantes, se abrem para conotações muito numerosas e muito mais complexas.
No rastro de poiesis serpenteiam, pelo menos, referências a ontologias, linguagens e jogos. As coisas, os casos e os causos poiéticos são constituídos e processam significações mediante interveniências da corporeidade. A própria condição corpórea é sustentada e sustada pela poiesis. Daí, o caráter contraditoriamente criativo da corpoética. Todas as experiências e experimentações culturais (coletivamente configuradas e individualmente reapresentadas) são caracteres da poiesis, necessários à corpoética. Por conseguinte, sem poiesis não há, com(o) efeito, corpoética.
É a poiesis que providencia, inclusive, um espelhamento ao corpo. O que a corporeidade cria funciona como reflexo de sua palavra, de seu potencial e de sua purgação. Em termos meio levianos de alma-nake lacônico, poiesis é como que mídia do corpo para que a corpoética conheça e se reconheça nas nuances do real, do imaginário e do simbólico, culturalmente engendrados-e-engradados.
E mais: numa acepção estética, poiesis tensiona sensação e percepção num frescor lúdico, suscitando um estranhamento que se legitima tanto na própria materialidade do signo quanto na apropriada contaminação de semioses em séries. Assim a corpoética soluça, via poiesis, a insolvência dos fatos. Ou seja, poiesis corresponde, antes e ainda, a uma fazeção apesar e diante dos inescapáveis bilhetes do fim.
30 Abril, 2011
29 Abril, 2011
sumário de uma corpoética
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Conforme já indiquei nas postagens iniciais deste blog (16 e 17 de abril de 2008), o termo CORPOÉTICA foi publicado pela primeira vez num pequeno texto que escrevi em 1982, vindo depois figurar como título numa obra de 1988.
Conforme já indiquei nas postagens iniciais deste blog (16 e 17 de abril de 2008), o termo CORPOÉTICA foi publicado pela primeira vez num pequeno texto que escrevi em 1982, vindo depois figurar como título numa obra de 1988.
Considerando não ser mais possível encontrar esse livro nas livrarias, me parece oportuno reproduzir hoje seu sumário, especialmente às vésperas de uma palestra que devo proferir sobre essa temática.
Para melhor compreensão dos detalhes desse sumário, devo ainda lembrar o título da dissertação defendida em 1984, a qual não foi alterada quando a entreguei para Edições Paulinas lançar CORPOÉTICA:
CAMINHANDO PARA A LIBERTAÇÃO – RE-FLEXÕES DO CORPO OPRIMIDO
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PRIMEIRA JORNADA: SETAS NORTEADORAS
INDICANDO O RUMO
Para ver a verdade desta vereda
(um trabalho datado e assinado)
Para ver as veredas desta verdade
(um estudo dos detalhes e articulações)
ORIENTANDO OS PASSOS
Para ler o sentido do texto
(um exercício pedagógico)
Para ler o sentido dos termos
(uma delimitação didática)
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SEGUNDA JORNADA: COMEÇANDO A CAMINHAR
QUANDO SE CONHECE OS PRÓPRIOS PÉS
A consciência do corpo oprimido
(da ingenuidade à criticidade)
A transcendência do corpo oprimido
(da acomodação à transformação)
QUANDO SE CONHECE O PRÓPRIO CHÃO
O cotidiano do corpo oprimido
(totalidade e contradição)
A utopia do corpo oprimido
(exterioridade e libertação)
QUANDO SE CONHECE AS SANDÁLIAS APROPRIADAS
Proteção e preparo para o corpo oprimido
(exorcizando diabolos)
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Firmeza e flexibilidade para o corpo oprimido
(optando por metahodos)
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TERCEIRA JORNADA: CAMINHANDO
PELOS PLANALTOS DO PODER
Ao ordenar uma nova ciência
(o corpo e a racionalidade)
Ao coordenar uma nova eficiência
(o corpo e a utilidade)
PELAS PRAIAS DA PAIXÃO
Ao provar o mistério
(o corpo diante das interrogações e reticências)
Ao provocar os ministérios
(o corpo entre parênteses ou sublinhado)
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PELOS POROS E PÊLOS
Ao arrancar o rancor pela cor
(o corpo e o racismo)
Ao ampliar o amplexo no sexo
(o corpo e o machismo)
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QUARTA JORNADA: O ÊXITO DO ETERNO ÊXODO
PERANTE OS PERIGOS PERMANENTES
Das imaturas pretensões
(sacando as antíteses)
Das torturas e repressões
(superando os contrários)
HAVENDO UM HORIZONTE DE HORIZONTES
Das lembranças avaliadas
(inventariando o passado)
Das esperanças avalizadas
(inventando o futuro)
31 Março, 2011
30 Março, 2011
corpoética, formatura e outras licenças
Esta postagem é uma lembrança para uma turma muito querida formada no Curso de Licenciatura em Filosofia da Universidade Metodista de Piracicaba em dezembro de 2000. Naquela oportunidade fiz o discurso (repetido a seguir) para Adriana, José Roberto, Carmem, Daniela, Marco, Catharina, Nilton, Cintya, Flávia e Jane.
Pamonhas, pamonhas, pamonhasPamonhas de PiracicabaO puro creme do milhoVenha provar, distinta freguesiaPamonhas fresquinhasPamonhas de PiracicabaPamonhas, pamonhas, pamonhas
Quando a gente ouve essa propaganda nas ruas de cidades na região, entende muito bem o que se está oferecendo como mercadoria. Só que essa compreensão acaba provocando algo mais complexo, isto é: nossa vontade de incorporar, de tornar parte de nosso corpo o que foi anunciado; desejo de encarnar o verbo. Pra muitos de nós, pamonha não é apenas uma palavra para o pensamento. É uma palavra para o corpo todo, principalmente para aquilo que o corpo faz melhor: comer. Letras, sílabas, silogismos e dialéticas relativas à pamonha, por mais importantes que venham a ser, não substituem o comer a pamonha. Afinal, geralmente, o sabor é muito mais que o saber; inclusive no caso da Filosofia. Óbvio que Filosofia é um pouquinho diferente de pamonha; porém, mutatis mutandis, quem pretende ensinar filosofia, já tem por certo que, assim como a propaganda da palavra pamonha (por si só insuficiente ao paladar) o saber sem sabor não serve muito para a corporeidade. Noutros termos, uma Filosofia que apenas se limita ao blá-blá-blá insosso e insípido não passa de barulho inócuo; incomoda e não comove. Lembremos Zaratustra insistindo que a razão é uma espécie de brinquedinho da grande razão – o corpo. E o corpo que se supera come até palavras e conceitos, desde que também dionisíacos. Assim, sempre que formos vender aulas de Filosofia, não nos esqueçamos de oferecer o saber, com sabor, pra servir ao sabor do saber. Senão,
vergonha, vergonha, vergonha
vergonha que tira e cava
escuro estreme no brilho
Mas, por outro lado e feliz coincidência, alguém que começou com vocês e que interrompeu seu Curso está lançando, nesse mesmo instante, mais um livro, logo ali no Átrio da Biblioteca. Como a gente teve notícia, o Cecílio escreveu um almanaque que é um rigoroso e elegante memorial sobre o século XX em Piracicaba. Talvez este livro lhe tenha custado mais empenho e desgaste que uma monografia de final de Curso. Conforme informações colhidas, o almanaque conta detalhes da cultura piracicabana, desde a receita da famosa pamonha até questões ecológicas, passando, desse modo, por temas de filosofias, ciências e artes desenvolvidas nesse lugar onde o peixe pára. E, tenho certeza, esse almanaque, esse puro creme do brilho, preparado pelo nosso colega e amigo de sempre, é sua pesquisa e sua aula magna sobre Filosofia da Cultura Piracicabana, é seu saber com sabor, independente de diplomas. Diplomas, por sinal, que vocês merecidamente agora conquistam. E nessa conquista percebo uma coisa coletiva, de família, de parentes, de amigos, coisa de turma mesmo. Por isso que essa grande turma transcende aos nove nomes que hoje se formam no nono melhor Curso de Filosofia do país; por isso que essa turma é também agraciada por uma espécie de extensão também literária; por isso que essa turma fica ainda mais
risonha, risonha, risonha
e risonha delira se acata
maduro solene Cecílio
E pra terminar, um ligeiro lembrete: se algum dia a gente deixar de saborear pamonha ou, pelo menos, qualquer outro gostinho do senso comum como, por exemplo, samba, futebol, cachaça, religião, novela etc., isso provavelmente significará que deixamos supostas alienações de nossa cultura; isso significará, talvez, que estamos mais enxutos e aptos, exclusivamente, para a pesquisa filosófica; mas, por isso mesmo, quem sabe, ficamos incapacitados para o exercício melhor no ensino da filosofia. Pesquisar desse jeito pretensamente asséptico não favorece um modo mais próprio de se ensinar Filosofia. A pesquisa filosófica intelectualística até que pode ser excelente apuro de palavras e conceitos, sem a contaminação do nóis vai, nóis fica abestaiado. Contudo, o ensino de filosofia, de fato, é, no mínimo, sedução da corporeidade em busca do corpóreo mais saboroso. Todo ensino pressupõe, sempre, pesquisa; mas esta não esgota, nunca, aquele. O ensino do que foi pesquisado tem ingredientes e modo de preparo, como uma receita de pamonha, inclusive naquele detalhe de tirar as palhas do milho, reservando as que forem mais bonitas para fazer as embalagens, costurando com cuidado um belo envelope para aquele gostinho indescritível. Portanto, querida turma de formandos, espero que cada um sinta o prazer do popular autêntico, que cada um tenha o gozo da pesquisa para a docência sem os pudores equivocados da erudição flácida e frígida; que cada um saiba o sabor de ensinar como se fosse uma gravidez muitíssimo desejada; que cada um, então,
proponha na fronha que sonha
cegonha que gira e afaga
futuro frêmito filho
28 Fevereiro, 2011
27 Fevereiro, 2011
corpoética e surpresa
Dentre os mo(vi)mentos de te(n)são mais profundos e abrangentes da corporeidade está a surpresa. Por definição óbvia, escapa ao previsível. Por caráter intrínseco, é própria aos fatos. Por conseqüência feliz, modela a serenidade.
Diante e imediatamente depois da surpresa o corpo não se vê mais como estava. Um movimento tenso suscita um apetite e uma potência que desconformam o corpo num instante instável, frágil e febril. Abre-se uma insuspeitada chance para recriar ou remediar uma calma superlativa. A surpresa é o aperitivo da crise; aos apressados pode estragar o prato principal, pois degustá-la como convém pressupõe um compromisso cúmplice com seu oposto: dar tempo ao tempo.
Considerando alguns detalhes, antes da surpresa o material corpóreo se mantém por um padrão relativamente regular e com alterações sistêmicas sujeitas aos controles pertinentes. As variáveis respiratórias, cardíacas, digestivas, neurofisiológicas etc. seguem um ritmo sem muitos sobressaltos. Por isso, quando as surpresas desestabilizam processos biofísicos da corporeidade, surgem maiores e urgentes preocupações. Daí reacende o viver ou fica instaurada a vitória da sombra.
Noutra esfera a sensibilidade corpórea oscila entre grandes atrações e acachapantes repulsas que, ocasionalmente, surpreendem. Nessas oportunidades o inusitado arrebata ou transtorna a dinâmica do cotidiano – amiúde uma dinâmica meia-boca, ou rotineira e acomodada. Assim, pela surpresa, aspectos emocionais e intersubjetivos são desafiados a re-significações e reciclagens certamente imprescindíveis, eventualmente inéditas, definitivamente gravadas.
Já no âmbito do espírito corpóreo a surpresa comparece, quem sabe, de forma bem mais aguda; como bálsamo ou como sufoco. No primeiro caso, a surpresa confere vida ao viver. No segundo caso, a surpresa chega como que chamando a morte pelo apelido mais íntimo. Afinal, um sentido para a existência, quando assim surpreendido, pode sofrer um golpe tão arrasador que apenas outra surpresa inventiva (como sinônimo de fé) talvez consiga replantar um fôlego simbólico para a sobrevivência.
27 Janeiro, 2011
26 Janeiro, 2011
corpoética e viagem
.
Considerando que a corporeidade se constitui como mo(vi)mento de te(n)são, talvez pareça óbvio que as características de uma viagem coadunem com o viver corpóreo. E se isso assim parece, cabe supor também não ser possível reduzir essa correlação às evidências de superfície. Na perspectiva desta página, portanto, corpoética e viagem se combinam, se complementam e se contaminam; porém a complexidade disso exige um reparo mais denso e sutil – o que, aliás, estes parágrafos nem tentam arriscar.
Ainda que pesem limitações de competência, nesta postagem admito o ser corpóreo vivendo sempre em trânsito. Cada corpo é o mesmo, sendo sempre outro. A mudança o estabelece – eis seu paradoxo, eis sua instigante harmonia heraclitiana como a do arco e da lira. Noutras palavras e noutro empréstimo, como que anterior à dimensão excludente e extrema em Hamlet (to be or not to be), há que se administrar o ser e o não-ser. A propósito (e, quem sabe, com maior acerto), devo constatar que o ser corpóreo se afirma justamente por não-ser outra coisa. Pelo não-ser surge o ser. Corpo é o que é porque não é mais o que foi e nem é ainda o que pode vir a ser. Corpo é ser transitório. Corpoética.
E com algum abuso nas letras, acho conveniente lembrar que essa mudança corpoética ocorre numa espécie de metafísica quântica. Ou seja, as incríveis e minúsculas partículas de contágios naturais/culturais pululam dentro do grande vazio atômico da condição humana. As inesperadas indeterminações funcionam como fatores a gravitar em torno de um núcleo de coisas-e-casos prenhe de probabilidades. Pura jinga virtual. O nada engendra tudo. Dinamicamente.
Assim, num espelhamento emblemático dessa potência (dynamis) corpoética, entendo que viajar implica, no mínimo, um significativo exercício semelhante ao que se observa em academia de ginástica dotada de aparelho que faz o corpo correr sem ultrapassar o metro quadrado da esteira. Isto é, além e apesar de todas as vantagens inerentes, viajar também apresenta um aspecto meio discrepante e até um pouco ridículo ou baldio - comparado ao trivial mais singelo. Sair é aparência. Chegar é ilusão. Voltar é descoberta.
Seja como for, aceito que viver é viajar e vice-versa. Ao viajar vivo o que sou. Minha ex-cursão é essencialmente fictícia. Sigo sem cessar um mesmo curso; apenas troco de linguagem – essa roupa que me ajusta aos figurinos da natureza e da cultura. Por isso, quando viajamos, como alertou Bernardo Soares, nunca desembarcamos de nós. Ou em contraponto, como pontificaram Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, com o pé nessa estrada [...] nada será como antes [...] nada será como está; amanhã ou depois de amanhã resistindo na boca da noite um gosto de sol. Ou ainda, como prescreveu Coélet, levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar [...]; o vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira, e retorna aos seus circuitos [...]; o que foi é o que há de ser; e o que se fez isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Quanta antítese, quanta tensão, quanta movência! Que estranho, que trágico, que sublime!
Durante uma viagem, portanto, oportunidades seduzem novas experiências. Muitas vezes o engano toma conta e o inédito ou inusitado ocultam e disfarçam a mesmidade fundante. Quando está noutro local, sem dúvida, a corporeidade se deslocou no espaço, mudou de sitio; contudo não se modificou inteiramente. O lugar do corpo é seu jeito de ser, seu jeito radical, seu jeito por detrás a toda máscara, reverso a toda personalidade.
Ao viajar, os valores/voleios/vazios do corpo fazem emergir condutas consagradas e dignas. Porém (... porque o corpo se move em meio a balizas latentes e sobremodo eficazes) comportamentos nem sempre supostos, nem sempre domésticos e nem sempre louváveis também explodem com uma espontaneidade assustadora, confirmando que sair-mundo-afora é permanecer no mesmo lugar interior – um lugar contraditório e, às vezes, insuspeito e incoerente. Em suma, na mesma plataforma uma viagem suscita novidades e surpreende pela recorrência. E diante desse mo(vi)mento de te(n)são, aventuramos concluir que a corpoética nunca sai de férias.
25 Dezembro, 2010
24 Dezembro, 2010
corpoética na véspera de natal no exílio
o
natal
sublime.
nessa noite
quanto mistério
surpreende e arrebata
.
.
desejos, deleites e destinos.
faltam as palavras, sobra silêncio.
o que colocaremos sob a árvore de natal
tão eterna e bela em nossos secretos corações?
presentes sem presenças e ausências tão presentes.
SOS
30 Novembro, 2010
29 Novembro, 2010
corpoética, proximidade e distância
Quando o corpo entra na linguagem humana, aos poucos vai ingressando no mundo das representações. Antes disso as coisas nem eram notadas como coisas. Não eram nada, apenas existiam. Após esse batismo semiótico, então as coisas passam a ser mais que sensações; são percebidas em códigos, fazem parte de uma visão de mundo. As coisas são re-apresentadas.
Portanto, essas coisas são percebidas como coisas materiais, artificiais, ideais, com valores e sentidos. São também coisas com personalidades, com biografias, com mistérios. E este último grupo de coisas compõe as corpoéticas. E mais, com aquelas coisas e por conta daquelas coisas, cada corpo está próximo ou distante tanto no tempo quanto no espaço em relação a outros corpos e outras coisas.
Na corpoética o significado de proximidade e distância é simbólico, principalmente quando e onde o corpo deixa de perceber a opacidade da coisa e a transcende: da coisa para o caso. Essa ultrapassagem oportuniza à corporeidade experiências mais agudas para viver sua condição humana. A presença ou a ausência das coisas são vivenciadas em seus casos econômicos, políticos, formativos, morais, afetivos, estéticos, lúdicos etc., entre si relacionados. Com efeito, a intensa complexidade do caso refaz e re-significa a aparente simplicidade da coisa.
Dentre os casos de maior densidade da corpoética está o da proximidade ou da distância afetiva. Por causa de opção, circunstância ou óbito, o que significam perto ou longe, vigente ou inatual, não se excluem. Podem ser até contraditórios e, ainda, coerentemente contraditórios. Daí, por conseguinte, a experiência corpoética autentica o humano, desde seu ápice de êxtase até seu abismo de angústia.
No âmbito afetivo da corpoética, proximidade ou distância não se restringem à categoria do tempo; convocam a temporalidade. Também não se limitam ao registro do espaço; anunciam a espacialidade. Pelo afeto (ou pela falta de afeto) a localização no espaço e o momento no tempo constituem para o corpo um caso de representação, às vezes, indiferente às coisas mesmo. O corpo que perdeu um ente querido, sepulto em outra parte, depois de muitos anos ainda pode sentir afeição, como se o passamento pudesse ser substituído por alguma representação presente (nos dois sentidos: presente no tempo e presente no espaço).
E se na radicalidade extrema da afeição relativa ao corpo que morreu ocorrem proximidade e distância como casos codificados independentemente das coisas, também é notável esse jeito nas situações afetivas resultantes de escolhas e contingências. Para quem nutre afeição por outra pessoa, sua ausência ou demora não desfazem sua presença e sua pontualidade no coração amante. Por outro lado, postar-se junto a um desafeto suscita desejos de exílio e esquecimento. Em suma, se no geral das representações uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, na dimensão afetiva corpoética, proximidade e distância são mais irredutíveis ainda: cada caso é um caso.
31 Outubro, 2010
30 Outubro, 2010
corpoética em fantasia ao fio da navalha
Dirigido por Ridley Scott em 1982 e considerado filme-cabeça, Blade Runner continua confirmando sua vocação para dúvidas e debates. Os temas das tensões interculturais, das arrumações miméticas e das citações que valorizam o repertório de um público desassossegado, são recorrentes ao longo de quase duas horas. Também como linguagem específica a película apresenta cenas e seqüências que legitimam seu lugar de destaque, inclusive por conta da trilha musical composta por Vangelis. Dificilmente o expectador fica apático ao assistir essa ficção futurista, ambientada numa impressionante Los Angeles de 2019.
Dentre as tensões interculturais, chamam atenção: a empresa de publicidade Shimago-Dominguez Corporation; a utilização de hashi para consumo de macarrão instantâneo numa viatura com capacidade para deslocamento vertical; a fachada asteca do edifício da Tyrrel Corporation; o bonsai próximo ao equipamento do teste Voight-Kampff... Por outro lado, algumas arrumações miméticas traduzem a proliferação dos simulacros: a coruja; a serpente; os amigos fabricados por J.F. Sebastian; as gargalhadas dos bonecos; os andróides/replicantes... Quanto às citações: o filme Casablanca; o artista vienense Hundertwasser; o arquiteto Frank L. Wright; o poeta William Blake; o escritor Lewis Carroll; a partida de xadrez entre Anderssen e Kieseritzky; as doutrinas da trindade e da salvação elaboradas pelo cristianismo...
Assim, convém notar como o conteúdo desse filme não subordina mera e pragmaticamente sua forma cinematográfica. A propósito, o referente do filme está na própria maneira de se expor. No como-se-diz já está o-que-se-diz. Há um exercício de metalinguagem, peculiar das experimentações estéticas mais densas e complexas. E no caso, essa metalinguagem sugere a fantasia de uma corpoética ao fio da navalha.
A despeito de (porém, justamente por) ser um texto fílmico desprovido de compromisso com a “verdade/realidade”, presta-se para fazer com o personagem principal Deckard (interpretado por Harrison Ford) um jogo re-velador de uma determinada corpoética por meio de uma semiose que articula fato e função. Seu trabalho é caçar replicantes, produtos de uma tecnologia capitalista muitíssimo sofisticada e sobremodo manipuladora; e enquanto essa função vai se atualizando, descobrimos quem Deckard é de fato. Dentre os replicantes caçados se destaca Roy (magnificamente interpretado por Rutger Hauer). Com este personagem uma corpoética parabólica pode ser decodificada como sublime desencanto. Com efeito, Deckard e Roy representam corpoéticas complementares em um quadro paradigmático específico de situação limite da condição humana: o sujeito-coisa.
Deckard é uma coisa revelada por meio de pequenos trabalhos manuais feitos por Gaff, aquele que dirige a viatura citada anteriormente. Esse artesão improvisado, duplo operador de veículos (de transporte e de significação), inicialmente compõe um origami com papel do lixo, em forma de galinha (quando Deckard está acovardando e recusa aceitar a missão de caçar os replicantes); depois, num palito de fósforo ainda não queimado, esculpe um homem exibindo virilidade (quando Deckard, não tendo como escapar, mostra coragem ao assumir a caçada); ao final Gaff dobra com papel alumínio de maço de cigarros a figura de um unicórnio (quando Deckard completa sua missão). Aliás, esse último origami provoca em Deckard um insight ontológico.
Roy é uma coisa desencantada e sublime. Tem consciência de ser replicante com exíguo tempo de validade, diminuído ainda mais. Sua pródiga existência abreviou seus dias. Então, Roy leva ao extremo sua crítica à criatividade tecnológica perversamente mercantil. Executa uma espécie de parricídio, matando Tyrrel, seu criador. Logo a seguir, durante seu confronto com Deckard, reanima sua energia perfurando sua mão direita com um prego, à moda do crucifixo. Depois empunha na mão esquerda uma pomba, como que evocando a terceira pessoa da trindade cristã. Assim divinamente incorporado, salva seu caçador prestes a morrer. Finalmente esgota seu espírito com palavras solenes, proferidas em meio a um sorriso angustiado: all those moments will be lost in time like tears in rain.
Em suma, essa corpoética em fantasia desenha situações existenciais cercadas de esvaziamentos. Falham e faltam as certezas das verdades míticas, das seguranças racionais, das eficácias científico-tecnológicas, das coerências éticas. Sobram e sombreiam fragmentações cindidas por lâminas e lágrimas. Ao fio da navalha sangram almas que outras saídas não têm senão o moverem-se nas tensões, apostando em caleidoscópios perdidos. Caos à flor da pele.
20 Setembro, 2010
19 Setembro, 2010
corpoética e palpites de almanaque
Nesta postagem arrisco opinar sobre alguns detalhes relativos à falta, ao perdão e ao sentimento de culpa. Antes de tudo e com ênfase alerto que são observações desprovidas de rigor e autoridade. Apenas derivam de precárias e provisórias reflexões diante de experiências na simplicidade e complexidade do cotidiano. Portanto, antecipadamente peço seu indulto. Aproveito e aviso que este texto articula a corpoética em suas dimensões já apresentadas em outras publicações. Isto é, nos parágrafos seguintes a falta, o perdão e o sentimento de culpa serão analisados no conjunto do referencial da corporeidade: sublinhando ligeiramente o que é peculiar e histórico de cada corpo; supondo como cada pessoa interage a partir de valores, voleios e vazios; indagando quando e quanto uma subjetividade corpórea cria seu sentido pragmático e/ou existencial. Então, vejamos...
Às vezes, a distância entre uma falta e quem a comete pode ser imensa, ainda que ação e agente estejam imbricados. Nessas eventualidades tal distância pode ser percebida se houver lucidez para distinguir fatores complementares: de um lado a intenção mobilizadora do agente, e de outro lado uma possível conduta condicionada pela coação, pelo constrangimento, pelo delírio, pelo inconsciente etc. Há casos em que uma falta atrai, sem dúvida, reprovação, repúdio e repugnância; contudo quem a cometeu não teve o intuito de ofender e nem ficou feliz ao magoar sua vítima. Dessa maneira, o culpado fez o que fez sem dolo, sem má-fé contra quem sofreu sua ação. Caracteriza-se assim a particularidade da falta, passível de punição, sem macular a totalidade do caráter do faltoso, cujo nome não cabe ser difamado.
Às vezes, uma falta não é punida porque quem a sofreu perdoa o faltoso. Esse perdão não é efeito de justiça e sim um ato de amor. Noutros termos, a justiça opera entre as alternativas do mérito ou demérito, bem como sentencia conseqüentes honras ou penas, conforme definições morais construídas e consagradas no âmbito de sua cultura. Além disso, o que é aceito como justo também resulta da mais equilibrada e melhor medida entre os pesos da falta e da reparação da falta, sob a tutela do direito instituído e apoiado pela força à disposição da lei. Já o amor segue outro caminho; tem ciência nítida e crítica da falta e do que esta implica, porém troca a justa pena pela incondicional absorção da perda e do prejuízo causados pela falta. O amor age por generoso transbordamento; ultrapassa os limites da justiça e se derrama em prol do faltoso. Essa escolha amorosa se justifica na subjetividade daquele que ama, pois o perdão é primeiramente um sentimento intraduzível. Nem mesmo o faltoso perdoado supõe tudo o que move e comove o coração de quem lhe perdoa. Enfim, para ilustrar, o perdão parece uma porta com tabuletas de entrada e saída em suas guarnições contrapostas. É uma moldura para a mudança. De um lado o perdão convida: “vem passar”; de outro, é alívio: “passei”. Como entrada, o perdão é oferecimento da vítima. Como saída, limpa a consciência do faltoso.
Às vezes, o sentimento de culpa subsiste na consciência de quem cometeu uma falta, apesar do perdão garantido pela vítima. Ou seja, o perdão do outro não equivale ao perdão que o próprio faltoso também pode e deve dar a si mesmo. Sem dúvida, não é automática a correspondência entre ser perdoado e se perdoar. E nesse quadro, o profundo desconforto de quem não se perdoa raramente fica superado com o transcorrer do tempo e com a aplicação da paciência. Talvez o terrível mal-estar continue acontecendo por conta da manutenção do contexto em que a falta aconteceu. Quem sabe, esse contexto brotou de uma emoção, em si, inocente; mas, como conduta, colheu um fruto contaminado e comprometido pela falta. Não se desvencilhando do contexto/comportamento específico gerador da falta, com efeito, o culpado não consegue perdoar a si mesmo. Sempre que se encontra na situação/conduta que demarcou a falta, o sentimento de culpa se manifesta novamente como trauma. Assim como cada cenário suscita um sentimento, o cenário da falta remonta o sentimento de culpa. Portanto, uma consciência que não se cauterizou, que ainda é sensível, que se arrependeu da falta cometida precisa se livrar também de algum detalhe que provocou sua falta. Daí, mais que paciência, aquele que não se perdoa e que deseja realmente se perdoar deve fazer todo esforço necessário para se desembaraçar daquilo que continua lhe aprisionando: determinado vínculo que o prende ao âmbito específico da conduta faltosa. Em suma, o que o perdoado convém perceber é a fronteira entre o lícito e o ilícito de outrora, e perguntar a si mesmo se deseja assumir adiante apenas o que foi lícito. Há que se inquirir, afinal, quanto os cordões afetivos fizeram e ainda fazem laços corrosivos. E provavelmente a resposta virá no espelho de uma coragem iluminada pela esperança de reencarnar a paz.
30 Agosto, 2010
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